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Quarta-feira, 15 de novembro de 2017
As duas imagens do Brasil

O grau civilizacional de uma Nação pode ser aferido pela maior ou menor identificação com o sistema do qual faz parte. Que espelho ou sistema podem ser usados para o Brasil ser visto? Tomemos emprestadas duas imagens do Ocidente que o professor Samuel P. Huntington utiliza em seus ensaios. Na primeira, as nações ocidentais dominam a estrutura financeira internacional, manobram moedas fortes, fornecem a maioria dos bens acabados, controlam o ensino de ponta, realizam as grandes pesquisas científicas, dominam o acesso ao espaço, as co¬municações internacionais, a indústria aeroespacial e as rotas ma¬rítimas, enfim, compõem o maior agregado de bens e serviços do mundo. Na segunda imagem, distingue-se um conjunto de Nações em crise, com parcela de seu poder político, econômico e militar em declínio.

Nesse segundo ce¬nário, apontam-se lento crescimento econômico, alto desemprego, enorme déficit público, baixas taxas de poupança, criminalidade e imensa desigualdade social. Com qual imagem a Nação bra¬sileira mais se parece? Para ajudar o leitor a tirar conclusões, vale lembrar que o País, depois de décadas de inflação alta, tem hoje uma moeda está¬vel. Apresenta bom superávit na balança comercial, chegando a exibir US$ 5,178 bilhões em setembro último, o melhor resultado para o mês desde o início dessa série histórica do governo, em 1989.

Exibe, em alguns setores, tecnologia de ponta; é competitivo em nichos como o agronegócio; tem administrado o risco-País, que havia crescido muito. Em outra escala, exibe péssimo coeficiente (Gini), que mede a distribuição de renda entre indivíduos. Hoje, o Brasil ocupa o 79º lugar entre 188 nações no ranking de IDH, que leva em conta indicadores de educação, renda e saúde, despencando 19 posições na classificação correspondente à diferença entre ricos e pobres. Enterra, anualmente, 60 mil vítimas da violência por armas; apresentou uma taxa de investimento de cerca de 15,6% no primeiro trimestre de 2017( na China essa taxa tem ultrapassado 45%); somos líder mundial no ranking das taxas de juros e da carga tributária, essa atin¬gindo 37% do PIB.

CONTRASTE ENTRE DOIS BRASIS – Esses dois conjuntos de dados, pinçados aleatoriamente, conferem ao Brasil duas posições na área da imagem: positiva e negativa. As duas bandas da imagem do Ocidente abrigam o ter¬ritório brasileiro. O que chama a atenção, porém, é o contraste entre os aspectos positivos e negativos do País, usados ora para situá-lo na esfera do Terceiro Mundo, ora para inseri-lo no universo restrito das Nações emergentes, particularmente junto ao grupo chamado de BRIC – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

A dimensão continental do ter¬ritório; os vastos recursos naturais, a partir da maior reserva de água doce do mundo e de extraordinárias reservas minerais; os potenciais em setores específicos, que passam a incluir até o petróleo, do qual não somos mais dependentes internacionalmente; as belezas naturais, que projetam um promissor cenário turístico, particularmente quan¬do se leva em conta os conflitos étnicos e de cunho religioso, o terro¬rismo e as disputas por espaço; uma infraestrutura técnica preparada para a alavancagem de setores produtivos; quadros profissionais ga¬baritados e escolas em processo de melhoria do ensino, enfim, um espaço tropical que, até o presente, não tem sido devastado por grandes catástrofes naturais – terremotos, maremotos – são alguns dos eixos que sustentam a con¬fiança no futuro brasileiro.

LONGE DA PÁTRIA – Se a base territorial é sólida, por que o edifício balança com os ven¬tos que sopram ocasionalmente em ciclos de crise? Porque a estrutura institucional é frágil. Esse é o dilema brasileiro. Somos uma expressão geográfica de peso, mas estamos ainda longe de constituirmos uma Pátria, assim entendida como sincronismo de espíritos e de corações, solidariedade sentimental de raças, comunhão de esperanças, sonhos comuns, decisão coletiva para marchar juntos.

Parâmetros compara¬tivos nos fazem lembrar filmes do velho Oeste americano, povoado de xerifes e índios, bandidos e mocinhos, muitas maldades e poucas bondades, muito tiro e confusão. Veja-se a violência que se espraia pelas ruas de cidades grandes, médias e até pequenas. Os assassinatos se multiplicam por todas as partes. Disputas por espaço público se avolumam na esteira da mudança da política: de missão, no conceito aristotélico, virou profissão.

Os donos do poder usam as instituições para reforçar seu sistema de forças. As leis ficam sob o abrigo das circunstâncias. Atente-se para a reforma trabalhista, cujas disposições passaram a vigorar, ontem, sábado. Pois bem, procuradores do Ministério Público do Trabalho e juízes do trabalho garantem que não irão cumpri-la. Vão romper a lei. É um caso explícito de desobediência civil. Casuísmos em sequência solapam as instituições.

A mediocridade se instala nos vãos e desvãos do Estado. Governos de Estado e prefeituras criam seus feudos. José Ingenieros, o grande escritor ar¬gentino, ensina: enquanto um País não é Pátria seus habitantes não constituem uma Nação; quando os interesses venais se so¬brepõem ao ideal dos espíritos cultos, que constituem a alma de uma Nação, o sentimento nacional degenera e a Pátria, explorada como indústria, regressa à condição de território bruto.

Por essa via, podemos aduzir que o Brasil apresenta potenciais de grandeza, mas a imagem da Pátria aponta vazios que não per¬mitem considerá-la Nação respeitada. Os desafios para que o País possa alcançar imagem de respeito na moldura ocidental pressupõem a consolidação das instituições sociais e políticas, o que, por sua vez, requer o resgate de valores fundamentais da cidadania, como a educação, a igualdade entre classes, o acesso e a justiça para todos, a harmonia e a paz social, a comunhão de esperanças. Isso é coisa para duas ou mais gerações.

Até lá, o País ca¬minhará em curvas, subindo e descendo, ora exibindo suas fabulosas riquezas, ora desfilando suas misérias. Poderia até encurtar o trajeto, se os homens públicos tivessem vontade política para refundar a Re¬pública sob o signo da dignidade.

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