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Segunda-feira, 18 de dezembro de 2017
A política voltando ao leito

Se há algo positivo a se festejar no cenário político-eleitoral que começa a ser povoado com os primeiros protagonistas de 2018 é o corte nos montanhosos recursos a serem destinados às campanhas. A aprovação de uma verba de R$ 2 bilhões a serem rateados entre siglas não será suficiente para bancar os custos com o aparato eleitoral, a abrigar marketing/propaganda, logística, pesquisas, sistemas de articulação e mobilização. Teremos uma das campanhas mais modestas do ciclo do marketing, aqui instalado nos anos 60, quando candidatos começaram a aparecer nas telas de TV e em discursos no rádio. O pleito franciscano propiciará mudanças nos formatos, ensejando aos candidatos condições para se fazerem mais próximos ao eleitor, voltando, assim, ao leito original da política.

É oportuno lembrar que, nas últimas décadas, o marketing trouxe densa camada de artificialismo às campanhas, por meio de um sistema de camuflagem voltado para lapidar a imagem de candidatos. O fato é que os cuidados com a imagem sempre foram objeto de atenção de governantes, imperadores, reis, príncipes, políticos e celebridades. Quinto Túlio, em 64 A.C., foi o precursor das boas maneiras do político se apresentar ao público, ao aconselhar o irmão, Marco Cícero, tribuno romano e candidato ao consulado, a se mostrar como um “homem novo bem preparado para conseguir a adesão entusiasmada do povo”.

No Império Romano, César cal­culava os gestos públicos. E Maquiavel, com seus ensaios sobre ciência política, já ensinava o Príncipe a divertir o povo com festas e jogos. Luís XIV era um pavão, ao desfilar nos espetáculos que pro­movia. Napoleão também gostava de se pavonear. Vestiu-se de púrpura quando se coroou para receber a benção do papa em Notre-Dame. Já Hitler foi treinado por um orador chamado Basil em aulas de declamação. Usou a cruz gamada para propagar o nazismo, podendo-se até dizer que o marketing político ganha status sob o comando de Joseph Goebbels, o “mar­queteiro” hitlerista.

OS NOSSOS ATORES - A engenharia de encantamento das massas aportou no Brasil por volta de 1960, com as primeiras campanhas mobilizando as massas, adotando símbolos, cores e cantos até ganhar, na atualidade, dimensão pirotécnica. A arte da represen­tação tem sido bastante cultivada. Jânio Quadros dava ênfase à semântica com a ajuda de uma estética escatológica: olhos esbugalhados, cabelos compridos, barba por fazer, jeito desleixado, caspa sobre os ombros, sanduíches de mortadela e bananas nos bolsos, que comia nos palanques. Certa vez, inventou essa: “Po­lítico brasileiro não se dá ao respeito. Eu, não, desde as 6 horas da manhã estou caminhando pela Vila Maria e não comi nada. Então, com licença.” E devorava a fruta, sob os aplausos da multidão. O ator histriônico havia se refestelado com uma feijoada e tomado um pileque. Dormiu na casa de um cabo eleitoral, sendo acordado na hora do comício.

Causa reação ne­gativa a esquisitice de políticos com aparência estrambótica. Em 1949, o deputado Barreto Pinto (PTB) – eleito pelo Rio, na época DF–, fotogra­fado de fraque e cueca samba-canção, foi cassado por falta de deco­ro. Idos tempos. Causa estranheza, hoje, a apropriação exagerada do instrumental das artes cênicas pelo ator político. Tal invasão os leva a substituir literalmente os teatros pelos corredores das casas congressuais, a confirmar a previsão de Roger Ailes, contratado por Nixon em 1968 para produzir seus debates na TV: “Os políticos terão de ser, um dia, animais de circo.”

TELECRACIA - A tendência a disseminar a pa­lhaçada pela seara política é mais que previsível diante de fenômenos que carimbam a vida parlamentar: escândalos envolvendo deputados e senadores, gestos e atitudes aéticos, velhas e novas formas de pa­trimonialismo. No Estado-Espetáculo, a visibilidade é chave mestra da competição. Não deve causar surpresa o fato de que algumas figuras são exímios na arte de representar. Transformam-se em ventríloquos.  Slogans e bordões são gritados por militantes. A telecracia, a democracia eleitoral nas telas da TV, exibe pessoas de todos os naipes, orientados a engabelar a fé dos tele-eleitores.

Não é de admirar que a representação política, sob as ondas do marketing, abriu imenso descrédito. Eventos escandalosos têm aumentado o fosso entre a política e a sociedade. Campanhas fantasiosas passaram a ser um amplo negócio para marqueteiros e suas fórmulas gastas (“fulano fez, sicrano fará melhor”). Como as promessas não se realizam, instala-se uma reversão de expec­tativas, com o consequente desmoronamento dos  “feitores”. Um monumental paredão de pasteurização, construído com a argamassa do marketing, nivela partidos e protagonistas. A descrença se espalha.

O marketing, alçado ao altar das coisas mais cobiçadas pelos políticos, criou uma legião de dândis. O dandismo, lembramos, é a maneira afetada de uma pessoa se comportar ou se vestir, “é o prazer de espantar”. A definição é do poeta francês Bau­delaire, um dos precursores do simbolismo. Isso explica a extravagante performance de uns e outros que exercitam a vontade de aparecer na mídia a qualquer custo. Limites da liturgia do cargo são rompidos. Quando o dândi marca encontro com o palhaço, a dose de exagero é fatal. (Exemplo é Tiririca, que acaba de anunciar sua desistência da política). Há outros que usam o manto de “Salvador da Pátria”, “Pai dos Pobres”, “Herói das Multidões”, arrebanhando para seus palanques artistas do show business.

Bom conselho aos apaixonados pela fosforescência das luzes midiáticas é o do general De Gaulle, estadista que procurou preservar a liturgia do po­der: “Os maiores medem cuidadosamente suas intervenções. E fazem delas uma arte.” Menos plumas, lantejoulas, penachos, sungas, espa­das, vestes de Tarzan, penduricalhos e estilos bombásticos. Mais substância, foco, ações concretas, atitudes firmes. Menos circo e mais política autêntica. A campanha de 2018 poderá caminhar nessa linha.

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