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Quarta-feira, 17 de outubro de 2018
Abro a coluna com uma historinha encaminhada pelo amigo jornalista Neimar Fernandes.

Só queijo francês – "Na longínqua quarta-feira santa do ano de 1969, o jornalista carioca Zózimo Barrozo do Amaral foi preso e levado para o Batalhão da Polícia do Exército, na Tijuca.

No segundo dia na prisão, sua esposa, Márcia Barrozo do Amaral, conseguiu visitá-lo, levando uma cesta da Lidador, fina loja de importados. A cestinha estava repleta de queijos: camembert, brie, roquefort e outras estrelas da fromagerie francesa.

Zózimo, morto de vergonha com a ostentação em pleno território dos que brigavam pela ascensão do proletariado faminto, colocou as iguarias no mesão socialista. Depois, cochichando, deu um toque em Márcia: "da próxima vez traz catupiry."

Dois dias depois daquele banquete lá estava novamente Márcia com outra cestinha de delicadezas. Dessa vez elas falavam o melhor carioquês. Nada de importados. Tinha catupiry, queijo minas e mortadela. Tudo gostoso, e agora politicamente compatível com o cenário espartano do presídio. A turma comeu, agradeceu e foi dormir.

Bezze, "chefe" dos presos, um dos organizadores da célebre Passeata dos Cem Mil pela avenida Rio Branco e membro do Centro Acadêmico Cândido Oliveira da Faculdade de Direito da UFRJ, percebeu a mudança de sotaque no cardápio.

No dia seguinte, chamou Zózimo no canto: "olha aqui, meu prezado colunista, nós estamos presos, jogados neste fim de mundo, mas nem por isso perdemos a nossa dignidade, compreendeu?" Zózimo ficou paralisado. "O que houve? O que foi que eu fiz?"

Bezze explicou: "da primeira vez a sua mulher trouxe camembert, brie, um banquete delicioso. Ontem foi catupiry. Antes que a coisa chegue ao Polenguinho, eu quero te dizer o seguinte: só queijo francês! Do bom! Nós somos socialistas, mas gostamos é de queijo francês, morou?!"

Neimar, com ironia, arremata: Passados 49 anos desse episódio, nada mudou". A esquerda brasileira continua "caviar". E hipócrita.
PS: O episódio consta da biografia de Zózimo Barrozo do Amaral.

O pulso do nordeste – Acabo de voltar do Nordeste, onde passei alguns dias tentando sentir o pulso. Não deu para chegar aos fundões, mesmo assim captei sensações. A onda Bolsonaro inundou capitais e grandes cidades, enquanto o andor do "pai Lula" foi bem conduzido por cidades médias e pequenas. Haddad ganhou aqui e perdeu lá. Há um sentimento generalizado que o petismo agoniza. Incidentes ocorrem aqui e ali, como esse, no Ceará, em que o senador eleito Cid Gomes pediu autocrítica ao PT e chamou petistas de "babacas". No RN, a senadora petista Fátima Bezerra, que disparava nas pesquisas, vê diminuir distância para o candidato ao governo Carlos Eduardo, do PDT.

Cidade fantasma – Impressiona o jeito de "cidade fantasma" que desenha a moldura da capital potiguar. Do aeroporto de Aluízio Alves, em São Gonçalo do Amarante, até o centro, não se vê uma pessoa nas ruas. A violência é tanta que reduziu as andanças pelas ruas. Quem se aventura a fazer isso, corre alto risco de ser assaltado. Natal dá medo.

Lula... Mas – Não tem havido abandono a Lula ou ao lulismo. O nordestino é e será sempre agradecido pelo bem que recebeu. Emerge por toda a parte muito agradecimento pelo que ele fez. Principalmente nos fundões, onde se espera que seu candidato amplie os benefícios da era lulista. Ocorre que, em paralelo, chega em marolas a história do PT no meio dos túneis da corrupção. Dilma é apontada como a grande responsável por eventual derrocada do lulismo e da crise que o país atravessa.

Duas vertentes – Há, assim, duas vertentes: a do coração, que embala o "santo Lula", e o fenômeno Bolsonaro, que empolga o eleitor das capitais e grandes cidades. As circunstâncias, o ambiente tenso, a facada no capitão, a roubalheira que grassou (a) no país, a bandidagem assassina, enfim, a balbúrdia que gera insegurança, elevam o capitão às alturas. Onde desfruta a posição de "bola da vez".

Nulos e brancos? – Quem leva o eleitor às urnas é a enxurrada de candidatos a deputado estaduais e Federais. Portanto, o lógico seria esperar por uma debandada do eleitor no 2º turno, com abstenção e alto índice de votos brancos e nulos. Esta é a análise do abalizado observador da cena política, Lafaiete Coutinho, a partir de seu posto de observação em João Pessoa. Ele prevê que o eleitor comparecerá bem às urnas e não vai anular o voto. A campanha virou uma guerra entre duas bandas, dois exércitos, duas correntes. Um lado quer vencer o outro. Para tanto, precisa estar na praça de guerra.

Grande vontade – Lafaiete arremata: "O fato de quase todas as eleições nordestinas terem terminado no 1º turno poderia indicar abstenção maior no 2º turno. Dessa vez, não: os eleitores estão motivados e mesmo excitados para votar contra o PT, contra Bolsonaro e ou em nenhum dos dois. Mas é bem provável que Bolsonaro amplie sua vitória nas capitais; não acredito, porém, que a onda crescente chegue aos fundões".

Conflitos – Conflitos violentos, com relatos de agressões, têm ocorrido. Os comitês dos candidatos, principalmente o de Bolsonaro, continuam a agitar ruas e bairros. Multiplicam-se brigas entre eleitores. Há cidades que fazem questão de pontuar: quem não votar em Haddad, receberá um troco; e há recantos fechados com Bolsonaro.

Capitais influenciam? – O voto das capitais influencia o interior? O tema é polêmico. Tivéssemos uma campanha normal, sim. Haveria um processo de capilaridade com tendência de o "voto direcionado" sair do centro para as margens. Mas o ambiente de guerra acaba formando cinturões em torno das cidades, "queimando" o voto no adversário. A fidelização eleitoral tende a ser maior no Nordeste. Ademais, o sufrágio está consolidado. Cada ala bate no peito sua decidida intenção de apostar no escolhido há tempos.

Cabos eleitorais – Governadores eleitos no 1º turno, do PT ou simpáticos a Haddad, se esforçam para aumentar o voto no petista. Querem provar que farão barba, cabelo e bigode. Que são bons de voto. Vê-se esse esforço na Paraíba, no Ceará e no Piauí, com mais intensidade. No contraponto, as alas bolsonarianas reagem com furor, desfraldando suas bandeiras verde-amarelas.

Redes sociais – As redes sociais fazem a articulação das militâncias, mantendo o animus animandi, a agitação. Ciro Gomes foi para a Itália, evitando engajar-se na campanha petista. Apesar do "apoio crítico" a Haddad, persiste a dúvida: será que ele não gostaria de ver a débâcle do PT?

A linguagem – Bolsonaro conquista popularidade na esteira de uma linguagem debochada. Ao rés do chão. Impressiona como o eleitor o vê como um dos seus, comparável a Lula na imagem popular. Não passa a ideia de pessoa culta. Quanto mais rasteira a linguagem, mais parece agradar. O tal "mito" é: mistura de admiração ao militar, jeito simples e desbocado de ser, perfil de xerife que vai matar bandido, identificação da ordem contra a bagunça. Dizer, por exemplo, que os capitães "vão ter um dos seus em Brasília", como falou segunda ao visitar o Bope, no Rio, é coisa que coopta o coração da galera.

Adeus comovido – Tem-se, ainda, a impressão geral é a de que o voto em Haddad no Nordeste tem um jeitão de adeus comovido a Lula.

Fraude – Corre o sentimento de que as urnas eletrônicas são fraudadas por cabos eleitorais do PT em espaços com poucos controles. Ouvi diversas vezes essa denúncia em forma de lamúria. A teoria da conspiração inunda o território.

Furor cívico – Nunca vi e ouvi tanto furor cívico e interesse por eleições quanto presenciei nesses dias no Nordeste. Os nordestinos parecem ter descoberto o poder letal do voto. Fazem questão de recitar e acompanhar com os dedos os nomes dos perdedores da velha política. Sobram risadas após a contagem. O que se vê é um desfile de exclamações e interrogações sobre o amanhã. E ninguém quer comentar sobre eventual "reversão de expectativas", a possibilidade de um eventual governo Bolsonaro falhar.

Mais forte – Em suma, a onda bolsonariana é mais forte que a onda Haddad, com muita dificuldade para o PT resgatar seu peso eleitoral nesse 2º turno. A não ser que o capitão seja flagrado por monumental besteira, uma declaração contra as mulheres ou transgêneros, capaz de queimar sua imagem. Em política, não se pode excluir a possibilidade do Senhor Imponderável de Todas as Horas nos visitar.

A guerra por cargos – A campanha nem chegou ao final e já se vêem grupos e alas disputando espaços no futuro ministério dos dois candidatos. Haddad sinaliza simpatia pelo nome do professor Sérgio Cortella para o Ministério da Educação. Da parte de Bolsonaro, a disputa parece mais aguerrida com indicação de nomes para algumas Pastas. E poucos avançam nas hipóteses de insucesso de governos que terão de administrar a mais forte crise do país em sua contemporaneidade.

Ou lá ou cá – Poucos admitem alternativas como impopularidade do presidente em menos de três meses no cargo, autogolpe (como um general chegou a se referir), pautas retrógradas no Congresso, etc. O fato é que nenhum governo conseguirá o milagre de alcançar popularidade e, ao mesmo tempo, executar uma política de contenção de gastos públicos. E o Brasil não pode transitar mais na via da gastança. Uma coisa ou outra.

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