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Quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019
Abro a coluna com uma historinha que vivi


Freyre com y - 1963 chegava ao fim. Conclusão do Curso Científico no Colégio Americano Batista (CAB) na rua D. Bosco, 1308, Recife. O mestre Gilberto Freyre foi eleito paraninfo da nossa turma. Ele iniciara seus estudos frequentando, em 1908, o jardim da infância do Colégio Americano Batista Gilreath, que seu pai havia ajudado a fundar. E, aos 18 anos, com bolsa da Igreja Batista, foi estudar na Universidade Baylor no Texas, onde se formou bacharel em Artes Liberais. Gilberto Freyre foi o intelectual mais premiado da história do país. Escolhido orador da turma, organizei um pequeno grupo para ir à mansão do autor de Casa Grande & Senzala, no bairro de Apipucos, e fazer o convite. Por volta de 10h30 da manhã, subimos as escadarias da bela residência e fomos recebidos por dona Magdalena de Guedes Pereira Freyre, a esposa de Gilberto, que mandou nos servir um delicioso licor de jenipapo.

Logo a seguir, entra o mestre abrindo grande sorriso. Tomei a palavra e dei conta do objetivo: convidá-lo para paraninfar nossa turma. Fiz a entrega da carta-convite. Ao recebê-la, olhou para a grafia do destinatário – Professor Gilberto Freire – e a devolveu imediatamente às minhas mãos. Lá veio a reprimenda:

- Meu jovem, meu pai, Alfredo, quando recebia correspondência com seu sobrenome errado, não a lia. Devolvia ao remetente. Se a entrega fosse pessoal, ele dizia: meu Freyre é com Y. Faça a correção e venha me entregar novamente. Meus caros, terei o prazer de receber vocês na próxima semana com a grafia correta do meu sobrenome: Freyre com Y.

A seguir, discorreu sobre o tempo em que estudou no Americano Batista, os professores da época, os rigores da Igreja Batista. Ouvíamos com atenção, amargando o desleixo por não termos feito a lição de casa. Deveríamos saber sobre o Y na grafia do mestre Gilberto. Corrigimos a carta. Uma semana depois, estávamos em Apipucos repetindo o roteiro. E, mais uma vez, degustando o licor de jenipapo. Valeu a pena. Nosso paraninfo fez uma belíssima peroração, depois de ter ouvido do orador da turma sua trajetória de sucesso.

Conversas vazadas - As três conversas entre o presidente Jair Bolsonaro e Gustavo Bebianno, que culminaram com a demissão do ex-secretário-Geral, ocorreram mesmo no dia 12, via WhatsApp, segundo os áudios divulgados ontem pela revista Veja. As falas mostram o tratamento ríspido e mercurial do presidente com seu ministro, e mais irritado ainda porque Bebianno recebeu um representante da Rede Globo no Palácio do Planalto. Bolsonaro, no áudio, diz claramente que a Globo é 'inimiga'. Como se percebe, os torpedos contra o governo saem de dentro do próprio governo, ou de seu principal protagonista. Há prenúncio de fortes tormentas no horizonte.

Trovoadas ameaçadoras - As trovoadas que se ouvem, nesse ciclo de chuvas fortes que caem em todo o território, também ocorrem na seara política. O episódio Bebianno-Carlos Bolsonaro-presidente Jair tem sido motivo de trovões e relâmpagos: a demissão do ministro que ocupava a Secretaria-Geral do governo terá implicações? Declarações de Bebianno poderão atrapalhar a agenda do Executivo no Congresso? E a imagem do presidente da República ganhará respingos de lama?

Impacto na agenda - As respostas às perguntas acima ganham um SIM. Há implicações com a saída de Gustavo Bebianno. A demissão do ministro, na esteira da denúncia feita por Carlos Bolsonaro, o "pitbull" do presidente Jair (como o próprio pai o designa), deixa a classe política ressabiada. Cristaliza-se a sensação de que o filho tem mais força junto ao presidente do que qualquer outra figura do aparato governamental. E isso mexe com os brios do corpo ministerial. Haverá impacto na agenda. O fluxo planejado para análise e votação da reforma da Previdência e do pacote contra a corrupção e combate à criminalidade poderá sofrer atrasos.

Impacto na imagem - É razoável imaginar que o desenrolar dos acontecimentos não caiu bem no espírito da base aliada. É inadmissível que alguém, que nem faz parte da máquina governamental, tenha sobre ela tamanho poder. A imagem de um presidente preso ao universo sentimental da família poderia ser aceita se tal imersão não interferisse no plano da gestão. O presidente, ao que parece, não quer contrariar o filho Carlos, que já passou uma temporada no passado sem falar com ele. O fato é que a sombra familiar, ao que se infere, está interferindo no processo decisório. A emoção se superpõe à razão.

O que vai dizer Bebianno - O "laranjal da política" – a inserção de pessoas na planilha de candidatos apenas para fazer de conta e receber recursos que serão desviados para outros – faz parte de nossa cultura política. O repasse de R$ 400 mil a uma candidata "laranja", autorizado pelo Diretório Nacional do PSL, sob a presidência de Bebianno, é a origem da crise. O demitido diz que foi uma decisão que não coube a ele. A Executiva Nacional aprova e os Diretórios estaduais definem o receptor. Bebianno deve ter outros casos para apontar. E os recursos da campanha presidencial? Houve desvio? Recebeu ordens do então candidato Jair Bolsonaro para mandar recursos a algum "laranja"? Interrogações e especulações estão no ar.

Flores para o coração - Comenta-se que a saída do Bebianno foi negociada nesses termos: Bolsonaro despejaria palavras de elogio ao perfil do ministro da Secretaria-Geral em um vídeo e este devolveria as gentis palavras. Assim estaria selada a paz. Mas Bebianno até agora não falou. A moldura torta continua na parede.

A reforma da Previdência - Com o slogan "Nova Previdência: Justo para todos. Melhor para o Brasil", será apresentado pelo próprio presidente o projeto da Reforma do Sistema Previdenciário. O governo deve contar com 308 parlamentares para sua aprovação. Não de imediato. A passagem pelo Plenário vai depender de ajustes, entre os quais a definição do limite de idade para aposentadorias. Talvez tenha de baixar de 65 para 62 (homens) e de 62 para 57 (mulheres) com prazo maior de transição.

Tática - O governo vai usar a tática de encaminhar o pacotão de Sérgio Moro só depois que a reforma da Previdência ganhar intenso debate. Ou seja, vai fazer tramitar o projeto em ritmo mais lento que a proposta de reforma da Previdência. O objetivo é blindar a reforma previdenciária, que chega à Câmara dos Deputados nessa quarta-feira, evitando que as propostas do pacote de Moro "contaminem" a discussão.

Comando do DEM - A aprovação das duas encomendas – Previdência e Combate à Corrupção e à Criminalidade - se torna viável ainda pelo fato de que as duas Casas congressuais estão sob comando de quadros do DEM, partido em ascensão. Na Câmara, a capacidade de articulação de Rodrigo Maia, cuja vitória se deve a mérito próprio, será decisiva. O chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM), não via com bons olhos a candidatura do correligionário. Eleito com votação extraordinária, 334 votos, Maia poderia até vestir o manto de independência, mas sua formação liberal e o compromisso que tem expressado de levar a bom termo projetos fundamentais para o país sinalizam uma atuação firme em favor do Executivo.

Base de apoio - Lembre-se que ele usou com maestria sua capacidade de articulação para aprovar projetos de alto alcance no governo Temer, como o teto de gastos, a reforma trabalhista e a Lei da Terceirização. A formação de um bloco, com mais de 300 parlamentares, reunindo PSL, PP, PSD, MDB, PR, PRB, DEM, PSDB, PTB, PSC e PMN, confere alguma segurança ao governo.

49 votos - Já no Senado, o comando está nas mãos do senador Davi Alcolumbre, do DEM do Amapá, um nome que emergiu de articulação feita com sucesso por Lorenzoni, da Casa Civil. Portanto, ali também o governo contará com sólida base de apoio. Ademais, a interlocução será mais fácil tendo em vista um colegiado de apenas 81 membros. A aprovação da PEC carece do voto de 49 senadores.

Cortando a história da AL - Esse ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, é mesmo um destruidor de história. Mandou excluir da planilha de matérias do Instituto Rio Branco, que forma os nossos diplomatas, a disciplina sobre a História da América Latina. Não quer que a nossa diplomacia adquira conhecimentos sobre nosso continente. Passa um X na história latino-americana. O ministro, que não aceita a ideia da globalização, está atuando para queimar a identidade internacional do Brasil. Os nossos grandes nomes da diplomacia são jogados na cesta do lixo.

Militares e o poder moderador - Pasmem. Os militares tendem a ser um poder moderador. Assim, se prestariam a garantir o eixo da democracia. Estão se comportando como tal, a partir do vice-presidente, general Hamilton Mourão, que tem se expressado bem, defendendo moderação e até recriminando posições radicais ou abordagens fundamentalistas. O presidente Jair Bolsonaro, ao contrário, tem usado uma linguagem contundente em seus tuítes. Até parece que não desceu do palanque.

PSL no bate-cabeça - O PSL, bancada maior da Câmara (54), superando a do PT, hoje com 52, será o carro-chefe a puxar os votos do governo. Mas o partido chega ao poder central cheio de novatos, alguns muito ambiciosos, sem lastro doutrinário, correndo o perigo de ver seus integrantes disparando tiros uns contra outros. A liderança do PSL é frágil. O presidente da sigla, Luciano Bivar, não tem se destacado como líder.

UDN ressuscitada - A UDN está vivendo um processo de ressurreição. Mas a sigla não terá a grandeza do passado, quando era o abrigo de figuras renomadas e carismáticas. Falta um Carlos Lacerda para dar brilho a essa tentativa de renascimento. Eis alguns quadros da velha UDN, fundada em 7 de abril de 1945: José Sarney, Carlos Lacerda, Gilberto Freyre, Júlio Prestes, Eduardo Gomes, Juarez Távora, Ademar de Barros, Afonso Arinos, Tenório Cavalcanti, Antônio Carlos Magalhães e Arnon de Mello.

Sistema S - O Sistema S está sob suspeita. Objeto de investigação. Abriga todas as federações de indústria e comércio do país. E se for demonstrado que recursos do Sistema S foram desviados para a política, hein? Robson Andrade, o poderoso presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) foi preso. PF investiga esquema de corrupção envolvendo contratos entre empresas ligadas a uma mesma família, o Ministério do Turismo e o Sistema S no valor total de R$ 400 milhões.

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