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Sábado, 2 de fevereiro de 2019
UMBRAIS DO AMANHÃ SOB A LAMA

Quando o olhar de esperanças começava a enxergar os umbrais do futuro, eis que a paisagem devastada por lama e rejeitos de ferro, em um território adornado por morros e montanhas, desvia a vista para uma horrenda fotografia do passado. Carlos Drummond de Andrade, em 1984, já descrevia a cena: “O Rio? É doce. A Vale? Amarga. Ai, antes fosse/Mais leve a carga. Entre estatais/E multinacionais/Quantos ais!”

O futuro ensaiava ser um misto de harmonia ambiental, desenvolvimento social, alegria de viver em segurança, com o homem tirando a riqueza da terra para formar seu pibizinho de felicidade. Era isso que se via pelas frestas do amanhã: um país retornando ao porto seguro, depois de anos de borrascas que sugavam as energias de seu povo, serviços públicos essenciais – saúde, educação, segurança, mobilidade – resgatando sua eficiência, um dinheirinho mais gordo no bolso.

Já o passado contém curvas, artimanhas, adereços e aquele jeitinho que nossa gente herdou desde remotos tempos: a mamata nas tetas do Estado, o nepotismo, a apropriação dos bens públicos por grupos encastelados nos vãos e desvãos da República, o amaciamento de leis, a devastação da natureza, as tragédias anunciadas com a visão de mortos enfileirados, o con-luio político, a dinheirama jogada no balcão de recompensas, os Poderes constitucionais sob permanente tensão, entre outras mazelas.

Até chegamos a confiar no lema do comandante dessa que se apresentava como empresa-orgulho do Brasil, a Vale: “Mariana nunca mais”. Há 3 anos, o rompimento da barragem de Fundão, a 35 kms do centro de Mariana, conferiu ao Brasil a marca: o maior impacto ambiental da história brasileira e o maior do mundo. A barragem pertence à Samarco, empreendimento de propriedade da brasileira Vale e da anglo-australiana BHP Billiton. O desastre de Mariana se repetiu.

E o que se enxerga a essa altura? Desculpas esfarrapadas. Explicações que davam a barragem do córrego Feijão como segura. Bloqueios de bilhões da empresa. Como se sabe, não vingarão. O caminho longo do Judiciário fará retornar os recursos. Endurecimento da legislação sobre concessão ambiental? O então candidato Jair Bolsonaro e o então candidato Romeu Zema, governador de MG, prometeram em campanha o contrário: amaciar, flexibilizar, sob o argu-mento de desburocratizar. Portanto, o novo governo está numa encruzilhada.

Sob a égide privatista, dentro do imenso guarda-chuva do liberalismo que guiará a equipe econômica, o meio ambiente não deverá ser tão protegido. O agronegócio esticará seus braços sobre as paisagens verdejantes. Pode até se reaver o projeto arquivado no Senado com vistas ao endurecimento das leis ambientais. Receberá endosso das bancadas duras? Difícil.

Não há, então, fresta na janela do amanhã que possa fazer brotar as esperanças? Só se for a janela do ministro Sérgio Moro, da Justiça, de onde descortinaríamos melhor visão. Mas ele terá que aguentar o tranco e sustentar a força investigativa do Conselho de Controle de Ativi-dades Financeiras (COAF), este mesmo que está de olho nas contas do senador eleito Flávio Bolsonaro. Moro parece estar entre a cruz e a caldeirinha. Se o órgão for em frente, fará cres-cer a montanha de suspeitas sobre o filho do presidente e outros protagonistas, ameaçados de flagra fazendo o jogo da “rachadinha” (uma parte pra lá, outra pra cá).

O fato é que o futuro continua preso no cordão do passado. Por mais que se procure cortar os laços, nossa cultura política se banhará por muito tempo nas águas lamacentas de fontes contaminadas, com chances ainda de ficar soterrada na lama e em rejeitos que fluem por todo o território. A assepsia será um exercício de longuíssimo prazo.

Até lá, com paciência e persistência e, sobretudo, com fé, poderemos empurrar o balão da política na direção de novos ventos.

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