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Quarta–feira, 28 de novembro de 2018
Abro a coluna com uma historinha que revela uma faceta da malandragem em nossos Trópicos

Retrato do Brasil – O advogado viajava de carro por uma BR quando um tatu atravessou na frente do carro. O motorista não teve dúvidas. Parou e pegou o bichinho, colocando-o no porta-malas. Adiante, defrontou-se com uma blitz da Polícia Federal. Pediram os documentos. Os policiais mandaram o advogado descer do carro e abrir o porta-malas.
O policial viu o tatu.
- Cara, você é louco? Esse é um animal selvagem; isso vai te dar cana. Você tá frito!
O advogado entristeceu a cara:
- Bem, amigo, esse tatu é meu. Meu bichinho de estimação. Tá comigo desde novinho. Se você soltá-lo, ele corre, mas volta ao ouvir o meu chamado. Dou dois assobios e ele vem correndo pro meu lado. É treinado.
O policial:
- ah, ah, ah, duvido!
- Quer ver? Solta ele pra você ver que não estou mentindo, respondeu o advogado.
O policial pegou o tatu, soltou-o no chão e o tatu correu pro mato.
- Agora, chama o tatu de volta.
E o advogado:
- Que tatu?

• PANORAMA GERAL

A direita no poder – É fato. A direita ganhou as eleições e vai ocupar o centro do poder. Não se trata de observação que leva em conta apenas a índole militar do presidente eleito, Jair Bolsonaro, que se mostra por inteiro na escolha dos generais reformados que estarão ao seu redor. Na verdade, desta feita houve uma clara narrativa de direita durante a campanha, mesmo que o capitão não tenha exposto todo o seu discurso em função do atentado que sofreu. Mas foi recorrente o escopo que abriga a defesa de valores tradicionais da nossa cultura, o culto à família, a Escola sem Partido, mudanças na lei do desarmamento (com a clara defesa de armas para os proprietários rurais), a visão polêmica sobre questões de gênero (incluindo a desigualdade que recai sobre a mulher), etc. A par do endurecimento no combate à violência. Esse discurso recebeu o endosso de quase 58 milhões
de eleitores.
Rodízio democrático – Na verdade, o que estamos presenciando no país é a transferência do bastão de comando, de um grupo que, desde o princípio da redemocratização, dava as cartas, para outro, considerado retrógrado e, não raras vezes, associado aos tempos pesados da intervenção militar no país. Pois bem, esse grupo que recebe o selo de "conservador" (conceito infelizmente atrofiado em nosso meio, eis que é borrado com viés negativo), chega ao "centro do poder" para jogar uma partida que tende a ter uma vida não tão curta.

"Centro do poder" – Quando me refiro ao "centro do poder", claro que estou jogando as fichas na cadeira do Palácio do Planalto. Temos de entender que o poder ainda se distribui por muitos núcleos na sociedade, a partir dos Estados comandados pelo PT e estruturas (em todas as instâncias) que abrigam o petismo e seus satélites.

Social-liberalismo? – Quando se procura carimbar a identidade do futuro governo de "liberal", principalmente no que tange aos domínios da economia, algo permanece cercado de interrogações. Primeiro, porque os chamados "Chicago oldies" (como os ex-alunos brasileiros da escola monetarista fundada por Milton Friedman se refere o futuro superministro Paulo Guedes, que os convoca para sua assessoria), reciclaram suas ideias ao longo das últimas décadas.

Contraponto à social-democracia – Claro que continuam a defender a disciplina monetária e fiscal, mas entendem que os conceitos de liberdade econômica e liberdade política hão de se ancorar nas realidades de cada Estado, a par do reconhecimento de que uma forte faceta social – com foco na distribuição de riqueza, no combate à pobreza – passou a incorporar o acervo do próprio liberalismo. É assim que se chega a uma nova nomenclatura, como o "liberalismo social", uma espécie de alternativa à "democracia social", que, nos últimos anos, tem descido o despenhadeiro do prestígio.

Intervenção do estado – O fato é que, por mais liberal que seja a face econômica da política de um governo, o Estado não poderá abdicar de sua tarefa de intervir, quando assim se fizer necessário, para ajustar os eixos da economia. Foi o que vimos nos Estados Unidos, matriz mais prestigiada do liberalismo econômico, por ocasião da crise de 2008. Obama recebeu uma economia em queda livre, perto de atingir uma depressão plena durante a crise.

Os Estados Unidos – O presidente norte-americano foi à frente de batalha. Implementou uma série de medidas orçamentárias importantes, nomeadamente a Lei de Recuperação e Reinvestimento de 2009. Ofereceu forte apoio moral à Reserva Federal (incluindo a renomeação de Ben Bernanke, que havia sido nomeado pelo presidente Bush). O governo ainda restaurou o setor financeiro mais rapidamente do que o esperado, operando um resgate bem-sucedido da indústria automobilística.

O modelo brasileiro – Portanto, o liberalismo à brasileira, que Paulo Guedes se esforçará para implantar, deverá abrigar um componente nacionalista, nos moldes que defendem os militares, significando certa precaução na política de privatizações das empresas estatais. A ideia é a do Estado se desfazer de ativos que não estejam no core business das empresas, principalmente aquelas que estejam na faixa do prejuízo. O nosso liberalismo haverá, ainda, de continuar e, alguns casos, até reforçar as frentes sociais, particularmente em regiões carentes, como o Nordeste, o Norte e o Centro-Oeste.

O assistencialismo – Programas como Bolsa Família, que serão passados pela lupa de rígidos controles, continuarão. Não há como deixar de reconhecer as desigualdades sociais. Ainda mais pelo fato de que a ascensão social das margens durante o ciclo Lula – com sua política de incremento ao consumo – foi torpedeada pelo governo Dilma. Milhões de brasileiros que chegaram ao meio da pirâmide voltaram ao seu habitat na base da pirâmide. Empobreceram.

Problemas na área política – Serão inevitáveis conflitos e tensões entre o novo governo e a área política. A estratégia do presidente eleito, de se ancorar nas estacas que estão sendo oferecidas pelas bancadas temáticas (bala-armamento, boi-agronegócio e bíblia-evangélica), não se sustentará no longo prazo. Nos primeiros instantes, a resistência será menor, na esteira da grande força que os governos iniciantes exibem. Mas o presidencialismo de coalizão não cederá a apelos para aprovar, mais adiante, projetos de interesse do Executivo. Delegar essa tarefa a algumas bancadas não funcionará. Infelizmente, esse "presidencialismo de delegação" não resistirá.

O papel dos militares – Não se vê na escolha de quatro generais reformados para compor o quadro ministerial como "a militarização do governo". Entendamos: a formação militar de Bolsonaro o empurra para o lado dos amigos de confiança que teve na caserna. Ele conhece a índole de seus pares. E certamente quer se cercar de pessoas de alta confiança. Com seus 28 anos de mandato, deve ter aprendido que o político age sob a mão do pragmatismo. É dando que se recebe. Bolsonaro gostaria de mudar essa moeda de troca. Não será fácil. Quanto aos militares, pelo que se percebe, são quadros que exibem uma base de altos conhecimentos, com alguns tendo exercido funções de relevância ao país. P.S. Cerca de 100 militares (incluindo quadros das polícias militares) tiveram o endosso das urnas para entrar na política.

General Mourão – O vice-presidente eleito, general Mourão, está se mostrando ser um quadro de muito bom senso. Ao contrário da primeira impressão que passou. Ponderado, alerta para eventuais brigas com a China, com os países árabes e com os vizinhos do MERCOSUL.

Escola sem partido? – Não será um mero decreto que imprimirá o selo "Escola sem Partido". Trata-se de uma questão que não pode ser resolvida por decisões de Justiça (STF) ou via Parlamento. A questão é cultural. Envolve um debate permanente com a sociedade organizada. Enquanto exércitos de ambos os lados azeitam seus armamentos, o foco das modalidades educacionais acaba sumindo na algaravia da Torre de Babel que se criou.

Refinamento – O presidente eleito dá mostras de estar mais contido. Cumpre a liturgia do poder. Visita autoridades. Anuncia, via Twitter, escolha de ministros. E tem escapado das "cascas de banana" que a mídia frequentemente joga com algumas perguntas mais polêmicas.

Lula na pior fase – Fernando Haddad visitou Lula nos últimos dias e anunciou: Lula está na pior fase de sua prisão. Isolado. Preocupado. O pior é que continua a ser alvo da Justiça. Denúncias aparecem quase todas as semanas. O PT está atravessando seu "corredor polonês".

Rodrigo Maia – Há alguns nomes que postulam a presidência da Câmara, inclusive deputados do PSL, partido de Bolsonaro. Mas Rodrigo Maia desponta como o mais forte. Trata-se de um grande articulador. Tem gente fazendo intriga contra ele. Para o governo Bolsonaro, seria a voz da experiência no comando da Câmara.

No Senado – No Senado, Renan Calheiros reúne uma boa bancada em torno de seu nome. Mas pode haver um acordo para guindar o senador Tasso Jereissati à presidência.

Governadores do NE – Os governadores do Nordeste fizeram mal em boicotar a reunião de governadores com o presidente eleito, Jair Bolsonaro. Dias depois, apareceram em Brasília, sem marcar audiência, e não foram recebidos pelo presidente eleito. Que falta de compostura. Estados falidos e os governadores oposicionistas querendo botar banca? Que coisa imperdoável.

O que é tática? – No futebol, quando o atacante joga a bola para trás, recuando-a para seu próprio campo de defesa, parece realizar um movimento covarde. Às vezes, é apupado. Muitos acham que a jogada não tem lógica. Mas essa bola recuada pode abrir espaços, deslocar o adversário, obrigá-lo a avançar de maneira descuidada e abrir a defesa. Pois bem, tal manobra pode gerar uma sequência de ações que culminarão com um gol. Essa é uma operação clássica. Um gol assim é uma tática de caráter terminal. E é construído por jogadas intermediárias. A tática é ferramenta de vitória.

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