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Quarta-feira, 23 de janeiro de 2019
Abro com duas historinhas, uma de Goiás, outra da Paraíba.

Nada mudou - Miguel Rodrigues, velho e sábio político de Goiás, foi visitar uma escola primária. Ali, a professora ensinava os primeiros dias de Brasil:
– No começo do Brasil colônia, como a América e o Brasil ficavam muito longe, para cá vieram, primeiro, muitos ladrões, degredados, condenados.
O coronel Miguel suspirou:
– Então não mudou nada.

Um gato - Toninho Cabral era vereador em Campina Grande. Um opositor o acusou de não ser filho da cidade. Na tribuna, Cabral esgoelou:
- Nasci em Cabaceiras, é verdade, mas vim abrir os olhos em Campina Grande.
Um vereador lá dos fundos fez o aparte:
- Vossa Excelência não é um homem, é um gato. Pois saiba Vossa Excelência que gato abre os olhos oito dias depois de nascer.

Nuvens pesadas - Nem bem o governo Bolsonaro completa um mês, os horizontes ficam turvos sob nuvens pesadas. O affaire envolvendo o filho do presidente, o senador eleito Flávio Bolsonaro, tende a se esticar por bom tempo. O entorno do mandatário-mor já unificou a linguagem: não se trata de um caso de governo, mas uma questão do senador eleito, que significa: ele, que é foco, re-solva o imbróglio. Por mais esforço que se faça para escudar o presidente e preservar sua boa ima-gem, danos começam a surgir. Os Bolsonaros constituem uma unidade. Os filhos são colados ao pai, formando uma barreira de "guardas" que o cercam em tempo integral. Respingos atingem a todos.

Investigação - Flávio já mostrou sua resposta: depósitos e volumes de dinheiro se devem às opera-ções com imóveis (venda e compra). Um comprador admite ter pago em espécie a ele, o vendedor de um imóvel. Nessa direção, agirão os órgãos de investigação e controle. Sim, porque o processo não será sustado com as tentativas do agora senador em liquidar o assunto. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras constata. Não há o que refutar na planilha de movimentação. A solicitação que Flávio fez ao STF demonstra medo. Quer se valer do foro privilegiado que, tempos atrás, combatia. O ministro Marco Aurélio sinaliza o não acolhimento ao pedido, ancorado na tese: foro só vale para eventos praticados no mandato.

A repercussão no Congresso - O affaire entrará na agenda congressual. Não apenas por insistência e na esteira do tiroteio a ser desferido pelas oposições, mas pela pressão da sociedade. O caso chega aos segmentos do centro, o grande irradiador de pensamento, batendo inclusive nas margens, a par da sensação de "coisa errada". Na Câmara, as oposições encontrarão nas operações do senador mo-tivo para abrir um tiroteio sobre o governo. No Senado, pode haver aqui e ali uma expressão enérgi-ca, mas o novo senador tende a receber a solidariedade da maioria sob a teia de futuras recompen-sas.

Primeira instância - Fica claro que o Judiciário e o MP, a partir de suas estruturas no Rio de Janei-ro, levarão adiante as investigações. E se for comprovada a suspeita de que a operação embutiu a prática do que se chama de "rachadinha", ou seja, a apropriação por parte do parlamentar de parte dos salários da equipe que trabalhou com ele na Assembleia Legislativa? Se foi isso o que ocorreu, a hipótese do impeachment do senador até pode entrar na agenda. O grupo militar que assessora o presidente parece compartilhar do ditado: vão-se os anéis e ficam os dedos. Se as investigações mostrarem a licitude dos atos de Flávio, ele cumprirá seu mandato sob a marca da inocência.

Os filhos? Distante - Se os filhos do presidente agem como leões de chácara em torno do pai, de-vem se conscientizar que a campanha eleitoral ficou para trás; o presidente governa para todos os brasileiros; devem compreender o papel da imprensa; não podem alimentar uma guerra de acusações contra aqueles que consideram adversários. Conselho útil: afastem-se da figura presidencial; façam bom desempenho nos mandatos; defendam valores e ideário na tribuna parlamentar.

Imagem danificada - Seja qual for o desfecho do redemoinho que sacode o perfil de Flávio Bolso-naro, a imagem do bolsonarismo – pai, filhos e ideário – ganhará rachaduras. Não serão danos ca-pazes de inviabilizar a governabilidade, mas o estrago corroerá a força do governo, deixando-o mais aberto às demandas das bases de apoio nas casas congressuais. Lembre-se que Bolsonaro precisa aprovar o quanto antes a reforma da Previdência e, a seguir, a reforma tributária.

Cultura antiga - Os primeiros dias de governo deixam ver que a velha prática da política não foi de todo abandonada. Se o presidente faz questão de dizer que critérios técnicos balizaram a escolha de ministros, algumas nomeações mostram elos com o passado patrimonialista. A promoção do filho do general Mourão abriu intensa polêmica. A nomeação de amigos que ajudaram na campanha também exibe o selo da velha cultura.

Os militares no governo - Não se deve temer a presença do apreciável conjunto de militares na administração Federal. Os militares nomeados ou a serem nomeados já passam de 45 no governo. Estão espalhados por 21 áreas: da assessoria da presidência da Caixa Econômica ao gabinete do Ministério da Educação; da diretoria-Geral da hidrelétrica Itaipu à presidência do conselho de ad-ministração da Petrobras. O Exército, de onde vieram o presidente e o vice, Hamilton Mourão (PRTB), tem maioria entre os membros do governo: 18 generais e 11 coronéis da reserva até semana passada, número que tende a crescer.

A lição democrática - Ao contrário da insinuação das oposições, os quadros militares não cobrirão o governo com o manto da "militarização". Não haverá condição para se reinstalar os tempos de chumbo. A realidade é outra. Os militares que dirigiram o país de 1964 a meados da década de 80 foram sendo substituídos por perfis mais comprometidos com as normas do Estado Democrático de Direito. E estes trabalharam na caserna e cumpriram tarefas que a CF lhes atribuiu, sem acenos ex-ternos à rebeldia ou contrariedade aos governos eleitos e formados após a redemocratização. Muitos chegaram a expressar, de público, seus compromissos democráticos. Alguns radicais até chegaram a se posicionar contra investidas ideológicas das esquerdas, a partir do PT, mas não a ponto de ensaiar golpes.

Poder moderador - Se a farda chega, hoje, a comandos de importantes áreas da administração Fe-deral, esse fato se deve à plenitude de nossa vida democrática. O presidente de índole militar foi eleito em pleito democrático, abrindo o governo para acolher quadros das Forças Armadas, generais, almirantes e outras patentes, figuras conhecidas por missões que desenvolveram e afeitos à disciplina, à hierarquia, ao cumprimento das tarefas sob sua responsabilidade. Sob essa cobertura, os militares agirão como administradores eficientes. E, sob o prisma da governabilidade, tendem a ser um "poder moderador" e não uma fortaleza para garantir o exercício governamental com o uso de canhões.

Inserção natural - Em tempos de escândalos, corrupção escorrendo nos vãos e desvãos da Repú-blica, alguns valores encarnados pela caserna parecem desejados pela sociedade: zelo, disciplina, ordem, resultados, hierarquia, respeito.

As oposições - Os movimentos sociais e grupos de intelectuais, particularmente os alinhados com o lulismo, vão continuar a atirar bombas em Bolsonaro, que revidará com a espada do comandante-em-chefe do país. Alvo do tiroteio: ideologia de gêneros, armamento, demarcação de terras indígenas, direitos humanos, entre outros temas. No Congresso, partidos e lideranças entrarão na arena de lutas quando o governo se mostrar por inteiro. Ao PT interessa que o presidente entre na guerra expressiva que ele inventou: Nós e Eles. O apartheid social sempre foi o oxigênio petista.

Na área externa - A remarcação dos eixos nas nossas relações exteriores é um grande risco, a partir da reação negativa de países árabes e da esfera asiática, como a China, que, segundo Bolsonaro, "quer comprar o Brasil". Essa nova ordem certamente implicará novas decisões junto aos organismos internacionais que abrigam interesses das Nações, como ONU, UNESCO, OMC, OEA, MER-COSUL, entre outras.

A estreia em Davos - Bolsonaro fez sua estreia nesta terça no Fórum Econômico Mundial em Da-vos, na Suíça. Foram apenas seis minutos e não disse nada de novo. Mas suas palavras soam como música para aquele público: repetiu que tem condições políticas de implementar as reformas, dimi-nuir a carga tributária, melhorar o ambiente de negócios para os empreendedores, abrir a economia ao mundo, preservar o meio ambiente, melhorar a educação, etc. E, ao final, o recado de sua política externa: "Não queremos uma América bolivariana. A esquerda não prevalecerá na América".

Nota sete - Uma chama de esperança: o aumento do Produto Nacional Bruto da Felicidade (PNBF). Se chegar à casa 7 numa escala de 10, é possível abrirmos um ciclo de harmonia. Principalmente se for feita a equação BO+BA+CO+CA (Bolso cheio, Barriga satisfeita, Coração agradecido, Cabeça aprovando governo). No mais, Bolsonaro precisa se guiar pela régua do bom senso. Sem cometer deslizes programáticos e atirar petardos quase diários contra grupos que o atacaram na campanha.

João Doria - O governador de São Paulo está governando com olhos atentos à realidade: demandas prementes no combate à violência, privatização de penitenciárias, programa de privatização, entre outros aspectos. E mais: ele mesmo presta contas dos resultados obtidos a cada semana. Transpa-rência. João é determinado. Sabe para onde caminhar. Está em Davos, na Suíça, onde fará duas pa-lestras a convite do prof. Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial. João levou um vídeo muito bem produzido mostrando a investidores os potenciais do Estado. Os investimentos virão. A continuar no ritmo até agora demonstrado, o governador verá abertas as portas do futuro.

O discurso - Costumo bater nesta tecla. Muita gente se engana com a eficácia do discurso político. Pois bem, o discurso político é uma composição entre a semântica e a estética. O que muitos não sabem é que a eficácia do discurso depende apenas 7% do conteúdo da expressão e 93% da comu-nicação não verbal. Rechear o discurso com imagens populares é uma boa pista. Lula é exímio nesse drible. Esse é o resultado de pesquisas que se fazem sobre o tema desde 1960. Mais: das comuni-cações não verbais, 55% provêm de expressões faciais e 38% derivam de elementos paralinguísticos - voz, entonação, gestos, postura, etc. Ou seja, do que se diz, apenas pequena parcela é levada em consideração. Já o que não se diz, mas se vê tem muito maior importância. Portanto, senhoras e senhores que abrirão em fevereiro uma nova Legislatura, atentem para este fato. Bolsonaro tem bem acesa na cabeça das pessoas a estética que veste sua identidade: o gesto de atirar.

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