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 Quarta-feira, 18 de setembro de 2019
Abro a coluna com um "coroné" das Minas Gerais

Eclipses? Aqui não - O coronel Zé Azul, chefe político de São Gonçalo do Abaeté, em Minas, era candidato a prefeito pela UDN, às vésperas de um eclipse do sol que a imprensa vinha prevendo para começo do ano seguinte, como o mais forte já visto no Brasil. O medo generalizou-se. Espraiavam-se relatos de crianças que iam nascer defeituosas, galinhas que deixariam de pôr ovos, cabritos que não mais berrariam e a cachaça que ficaria envenenada. No dia 1º de outubro, o coronel Zé Azul fez o último comício da campanha e acabou com um juramento sagrado:

– Pode ser que, na prefeitura, a partir de janeiro, eu não consiga fazer tudo que pretendo por esta terra. Mas juro para vocês que meu primeiro decreto será proibir definitivamente eclipses em São Gonçalo do Abaeté.

Ganhou a campanha.

Um projeto indecente - Um dos grandes absurdos de nosso tempo foi aprovado a toque de caixa pela Câmara dos Deputados e está para ser votado no Senado. Trata-se do projeto de lei 5.029/2019, que propõe mudanças no sistema partidário e nas regras eleitorais a partir do ano que vem. Começa pelo preço: os políticos querem elevar o Fundo Eleitoral de R$ 1,7 bilhão para R$ 3,7 bilhões, no momento em que o governo está precisando raspar o tacho para manter o país em funcionamento. O Ministério da Saúde, por exemplo, quer cortar R$ 393,7 milhões do previsto com compra e distribuição de vacinas em 2020, em meio a um surto de sarampo e outras doenças que infernizam a população.

A favor do caixa 2 - Mas não é só. Pelo projeto, os políticos ficam imunes a qualquer punição de malfeitos e praticamente retiram da Justiça Eleitoral o poder de investigar desvios dos malfeitores. Além de indecoroso, todo o texto é favorável à prática de corrupção. Entre outras aberrações, o projeto permite que advogados e contadores que prestam serviços para filiados - inclusive aqueles acusados de corrupção - sejam pagos com verba partidária, o que abre margem para prática de caixa dois e lavagem de dinheiro, segundo a Transparência Partidária e a Transparência Brasil. No fundo, é o dinheiro do contribuinte sendo usado para garantir a impunidade.

Vale tudo, menos prestar conta - Enfim, aqueles que se reuniram para aprovar o PL na Câmara querem que o dinheiro gasto em campanha seja liberado sem prestação de contas. Outros absurdos do texto: permite que o Fundo Partidário seja utilizado para pagar passagens aéreas para qualquer pessoa e custear ações judiciais de controle de constitucionalidade; retira as contas bancárias de partidos dos controles de PEP (pessoas politicamente expostas); isenta legendas de obrigações trabalhistas em relação a seus funcionários. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, se disse contra a elevação dos recursos este ano para o Fundo Eleitoral.

Fora de pauta - Davi Alcolumbre, presidente do Senado, retirou da pauta o projeto de lei que afrouxa regras eleitorais para partidos, abre brecha para o caixa dois e dá margem ao aumento da quantidade de dinheiro público destinado às legendas. O texto será analisado pela Comissão de Constituição e Justiça da Casa.

Bolsonaro na ONU - O presidente Jair Bolsonaro vai à Assembleia Geral das Nações Unidas. E como cabe ao Brasil o discurso de abertura, chegará a NY com a arma engatilhada. Dirá: a região amazônica, no que toca à parte brasileira, é uma questão de soberania nacional; as queimadas desse ano fazem parte do ciclo de fogo na região. Não dará muita importância à expansão da devastação quando comparada a anos anteriores. Valores conservadores serão lembrados com recados a alguns países devidamente embalados em linguagem direta. Aliás, o chanceler Ernesto Araújo está tratando com Steve Bannon as linhas do discurso de Bolsonaro na ONU. Esse Bannon é o ultra ultraconservador que já assessorou Trump. O que pode ocorrer? Alguma agitação no plenário com a saída de participantes da sessão.

A imagem do Brasil - O fato é que a imagem do Brasil está muito chamuscada. O presidente não é de fazer média. Por isso, é previsível que mantenha as linhas básicas de um discurso conservador, sob o alinhamento automático e incondicional aos EUA. Bolsonaro, como Trump, deseja imprimir identidade direitista a seu governo. Leva em consideração a crise das esquerdas que consome a imagem de muitos protagonistas.

A dúvida se expande - Por todos os lados, a pergunta é a mesma: Bolsonaro terá longa vida política? Temos tentado cercar essa questão sob diversos ângulos. Mas a abordagem da economia se firma como a mais forte. Se a economia se recuperar no médio prazo, a ponto de gerar resultados já em 2020, é razoável prever a eleição de uma miríade de prefeitos sob as asas do bolsonarismo. A prefeitada de outubro de 2020 formará os pilares da base de onde decolarão as naves rumo a 2022. Serão 5.570 prefeitos. Milhares de vereadores completarão os alicerces do edifício político.

O poder da caneta - Digamos que a economia não mostre grandes resultados, a ponto de não entusiasmar as margens, suscetíveis à equação BO+BA+CO+CA= Bolso, Barriga, Coração, Cabeça. Ocorre que o presidente é o protagonista com o maior poder de usar a caneta. Trata-se da prerrogativa insubstituível do presidencialismo. Portanto, Bolsonaro continuará a usufruir grande parcela de mando e influência. Será um grande eleitor nas eleições municipais. Terá contra ele a força das oposições que tentarão se unir. Não será fácil.

A união das esquerdas - Ciro Gomes tem sido um crítico ácido do petismo. Prepara-se, mais uma vez, para o embate presidencial de 2022. Mas terá de atravessar as águas turbulentas de 2020. Será difícil contar com ele na bacia das oposições, incluindo PSOL, PT, PSB e outros. O PDT de Ciro quer caminhar em faixa própria. Lula seria o artífice de uma nova união das esquerdas? As hipóteses abrigam sua saída da prisão de Curitiba. Há, ainda, um forte grupo que deseja vê-lo distante do pleito. Não aceita que o "Lula Livre" continue a ser a bandeira oposicionista.

"Adereço? Não aceito" - Lula tem dito que só aceita a liberdade se ela vier com o figurino completo, ou seja, sem adereços para incomodá-lo, caso de tornozeleira eletrônica. Ademais, há dúvidas se ele, solto, continuaria a usufruir direitos políticos. A interpretação vigente é a de que o ex-presidente, mesmo libertado, só poderia ser candidato ao completar 89 anos. Mas teria condição legal para liderar uma frente oposicionista?

Saturação das classes médias - A polarização entre direita e esquerda, particularmente puxando os polos extremos do arco ideológico, interessaria a Bolsonaro e ao PT, que gostariam de se ver digladiando na arena presidencial de 2022. Este consultor, porém, enxerga certo cansaço com o bolorento discurso polarizado. Poucos suportam ouvir lengalenga entre bolsominions e seus contrários.

Circunstâncias - A política, como água, caminha sinuosa entre as reentrâncias das pedras. Não depende apenas da vontade de seus comandantes. Depende de fatores como satisfação social, segurança coletiva, sensação de que as coisas estão melhorando. E, que fique claro, a política navega ao sabor das circunstâncias. Sob essa hipótese, podemos projetar a continuidade do discurso polarizado entre direita e esquerda, o bolsonarismo e seus contrários. Aduz-se que amplos segmentos do meio da pirâmide não suportarão conviver por muito tempo com a verborragia raivosa, um cabo de guerra puxado por duas alas litigiosas.

Não à mesmice - Essa sensação de mesmice é particularmente rejeitada nos estratos medidos, motivados a refazer caminhos e a sair das veredas erráticas da velha política. Daí a sinalização que já começa a tomar vulto de um corredor central, onde desfilarão as classes médias-médias, ansiosas para respirar oxigênio novo. Em suma, sairemos do apartheid social para ingressar num espaço de convivência e ouvir um discurso menos conflituoso. A imagem é utópica? É possível. Mas nossa índole não se acostuma com a beligerância que consome energias e dispersa esforços.

Quem ocupará o meio? - Há consenso de que os opostos extremos do arco ideológico deixam ver alguns protagonistas: Bolsonaro, um perfil petista ou do PSOL, Ciro pela esquerda mais central. A dúvida maior é sobre a ocupação do centro. Os mais prováveis precisam mostrar a que vieram: Witzel, no Rio, é uma figura muito polêmica; o caixeiro-viajante João Doria, que corre o mundo para "vender" oportunidades do Estado de São Paulo, tem viés "oportunista" e há até quem o veja como "carreirista"; Romeu Zema, do Novo, está cercado de dificuldades. Rodrigo Maia é um grande perfil para compor uma chapa majoritária, mas teria de "popularizar" a imagem. Por enquanto, o meio acolhe uma enorme interrogação.

Reversão de expectativas - Devemos contar, em 2022, com o voto bem embalado no celofane da "reversão de expectativas". Os escolhidos não atenderam aos compromissos e promessas. Aliás, esse voto com a marca de frustração já se fará presente em 2020 na eleição da bacia de prefeitos.

O balão da OP - Mais cedo ou mais tarde, o presidente da República cairá na real. Não fará uma boa imagem sem considerar a imensa tuba de ressonância da mídia massiva. Só com redes sociais, não fará subir o balão da imagem. Como é sabido, a formação da opinião pública é um processo que leva em conta o nível de conhecimento das pessoas, que acabam registrando em seus sistemas cognitivos parte dos conteúdos que lhes chega por meio das mídias eletrônicas (rádio, televisão, redes sociais) e impressas (jornais e revistas). Dois tipos de receptores aparecem: os que recebem mensagens dos telejornais/rádios e os que têm acesso aos meios impressos, além dos eletrônicos.

Bombardeio midiático - É difícil resistir ao bombardeio midiático de um poderoso telejornal, com imagens de dutos enferrujados jorrando dinheiro, sob a voz de tenor de William Bonner e dos agudos de Renata Vasconcelos. Os índices de audiência bruta (que a publicidade designa como GRP – Gross Rating Points) - são cavalares, somando mais que pesadas campanhas publicitárias juntas de grandes grupos. Os telespectadores acabam "comprando" o cenário negativo que cerca os personagens do tiroteio televisivo. O estrago sobre sua imagem é fatal.

Efeito destrutivo - O poder destrutivo é tanto mais letal quanto mais forte seja o calibre da arma. Maior a dose, maior o efeito. O mais visto dos telejornais dedica a maior parte de seu horário à política. E mais: a cobertura da operação Lava Jato é farta de imagens repetidas. Logo, imagem com malas de dinheiro acaba colando nos personagens do noticiário. Os personagens descritos no roteiro da cobertura noticiosa acabam todos com a marca de malfeitores.

Repetição - Eventuais respostas ao bombardeio midiático por parte dos atores políticos ganham pouco espaço, sobrando, sempre, para os "donos do poder informativo" a sua "verdade". Em Minha Luta, Hitler diz: "o êxito de um anúncio, seja ele comercial ou político, se deve a persistência e assiduidade (periodicidade) usadas". Goebbels chegou a alinhar princípios da propaganda, entre eles, os da orquestração e da repetição.

Amanhã - Se o tom televisivo continuar sendo crítico ao governo, a má avaliação do bolsonarismo terá longa vida. A recíproca é verdadeira.

Rebuliço no PSL - O partido do presidente é uma fonte de querelas e quedas de braço. Há quem duvide da sobrevivência da sigla. Luciano Bivar, o presidente, pode perder o cargo.

DEM em crescimento - Já o DEM tende a se fortalecer na esteira do prestígio dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre.

PSDB, ampla convocação - Bruno Araújo, presidente do PSDB, informa que mandou uma carta ao partido, convocando 1,4 milhão de filiados a se posicionarem sobre temas como Estabilidade do funcionalismo público; Redução da maioridade penal; Mensalidade nas universidades públicas para alunos de alta renda; Descriminalização de drogas leves; Liberação da posse e porte de armas; Foro privilegiado das autoridades públicas; Cotas sociais e/ou cotas raciais; Exploração sustentável de riquezas naturais em áreas de preservação ou indígenas; Voto facultativo e Liberalismo social como sistema econômico. O Congresso tucano será nos dias 6 e 7 de março do próximo ano.

Quem se encaixa? - Há um protagonista de nossa política que cabe por inteiro na frase deste cientista político. Você é capaz de dizer quem é? No meu livro Marketing Político e Governamental, cito um pensamento do cientista político Robert Lane, em Political Life, que explica como a ambição desmesurada pelo poder funciona como um bumerangue. "A fim de ser bem-sucedida em política, uma pessoa deve ter habilidades interpessoais para estabelecer relações efetivas com outras e não deve deixar-se consumir por impulsos de poder, a ponto de perder o contato com a realidade. A pessoa possuída por um ardente e incontrolável desejo de poder afastará constantemente os que a apoiam, tornando, assim, impossível a conquista do poder".

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