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Segunda-feira, 28 de maio de 2018
Povo sem esperanças e um rio seco

Um povo descrente é como um rio seco, uma árvore desfolhada, sem viço, cor de coisas mortas. O povo brasileiro pena suas amarguras no deserto frio das desesperanças. Pesquisas recentes mostram uma apatia geral. As eleições ocorrerão dia 7 de outubro. Pelo que se vê, o povo não está se tocando para o maior evento cívico do ano. Avança grau de desânimo e definha um pouco todos os dias na febre de sonhos desfeitos. Um povo sem sonhos é uma entidade sem espírito e sem direção.

Cassam sua vontade, a admiração pelos ritos da Pátria e o respeito às instituições. Clima de terra devastada em que se transformou o País, acusações de todos os cantos, interesses em choque e disputas entre grupos afastam a população do sistema político, abrindo imensos vazios entre os poderes decisórios e a sociedade.

Vivemos em dois Brasis. No primeiro, gigantesco e periférico, habitam estômagos famintos e bocas sedentas; no segundo, pequeno e central, uma disputa entre bolsos gananciosos e mentes matreiras. O primeiro é o mundo dos desvalidos, que provam o gosto do suor e amargam o cansaço das filas. O segundo gira em torno de núcleos nas médias e grandes cidades. Nele gravitam contingentes de profissionais liberais – esses, sim, trabalhadores de garra -, mas também donos de capitanias hereditárias, comerciantes de favores, sultões e mandarins de mil e uma noites. E, há, ainda, um grupo que se encastela na Ilha da Fantasia, conhecida por Brasília.

Observatorio de GaudencioO Brasil do centro conta com instrumentos poderosos. Penetra em vasos capilares e corre até o último dos habitantes das margens. Sua voz é forte e é de se esperar que ecoe longe. O Brasil distante fala por meio de onomatopéias, mais ouve do que diz. Até chegar a um limite de saturação. (Será que não já chegou a esse estágio?)

Na Ilha da Fantasia, desfiles de siglas e representantes do povo se sucedem, juntando gladiadores, filhotes de Maquiavel, crentes de prontidão, dispostos a jogar a alma a serviço da Pátria e comerciantes de plantão fazendo trocas de ocasião. São esgrimistas da política.

A festa da política, em ano eleitoral, apenas se inicia e não gera entusiasmo ou engajamento. Está cedo, dizem. Mas, em final de maio, o Brasil do centro já deveria estar se aproximando do Brasil das margens. Há algo estranho no ar.

O Brasil real está distante do Brasil artificial, dos discursos e das promessas. A crise que corrói as populações pobres parece não acabar. Mas nunca se ouvirá tanto a palavra POVO como nos próximos tempos. Claro, é sempre lembrado quando querem lhe tirar algo. Vão tentar se aproximar, afagar, prometer mil coisas. Um detalhe: pelo que se vê, se ouve e se sente, o povo não vai deixar que arrombem sua cabeça ou seu coração para lhe roubar a única arma de que dispõe - o voto. Essa o povo saberá usar com maestria. É o que a Pátria espera.

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