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Quinta-feira, 03 de novembro de 2016

Não tô morto, não

O caso deu-se em São Bento do Una/PE, nos idos de 60. O caminhão, entupido de gente, voltava de um jogo de futebol, corria muito, virou na curva da estrada. Foram todos para o hospital. Uma dúzia de mortos. Lívio Valença, médico e deputado estadual do MDB, foi chamado às pressas. Pegou a carona de um cabo eleitoral, entrou na sala de emergência do hospital e foi examinando os corpos:

- Este está morto.

Examinava outro :

- Este também está morto.

O cabo eleitoral se empolgava :

- Já está até frio.

De um em um, passaram de 10. Lá para o fim, dr. Lívio examinou, reexaminou, decretou :

- Mais um morto.

O morto gritou :

- Não estou morto não, doutor, estou só arrebentado.

O cabo eleitoral botou a mão na cabeça dele :

- Cala a boca, rapaz. Quer saber mais do que o dr. Lívio ?

(Historinha do incomparável Sebastião Nery)

Uma leitura do pleito

1. Antipolítica tradicional

O eleitor deu um conjunto de recados no pleito encerrado domingo passado. O primeiro foi um puxão de orelhas na velha política, nas práticas predatórias da politicagem e de politiqueiros. Foi um aviso de basta às falsas promessas, aos dribles que candidatos costumam dar nos eleitores nos ciclos eleitorais. Portanto, o repúdio à antipolítica tradicional ficou evidente nos números de abstenção, votos nulos e brancos. Dos cerca de 25,8 milhões de eleitores que compareceram ao segundo turno, 14,3% invalidaram o voto. No Rio, abstenções, votos nulos e brancos somaram quase 47% no segundo turno. Dos 32,9 milhões de eleitores aptos a votar no país, 21,6% não compareceram às urnas, crescimento de 13% em relação ao pleito de 2012.

2. Rumo ao centro, contra extremismos

A segunda leitura que se pode extrair é a de que o eleitor deu um não aos extremismos e radicalismos, optando por um ponto no meio do arco ideológico. Essa opção pode ser aferida não apenas pelos votos conferidos ao PSDB, com seu escopo social-democrata (um braço no centro-direita, outro braço no centro-esquerda), mas pela votação dada a quase 30 siglas, a maioria delas sendo de médias e pequenas, quase todos integrantes da base governista. Alguns falam de guinada conservadora, à direita. Mais adequado é apontar para uma fixação eleitoral no espaço central do arco ideológico.

3. Os tucanos

O PSDB foi o grande vencedor do pleito que se encerra. Administrará 805 municípios, com uma população de 34 milhões de pessoas, 16% a mais do que obteve em 2012, e um orçamento de R$ 160,5 bilhões. A vantagem dos tucanos se dá principalmente na esfera das 92 maiores cidades brasileiras. Sua vitória permite divisar horizontes. Também representa um veto do eleitor ao PT e suas lideranças, a partir de Lula e Dilma, aos quais se atribuem a derrocada da economia e a maior recessão de nossa história. Portanto, o maior derrotado é o PT, que leva a fama de ter coordenado monumental esquema de corrupção, objeto de investigação da operação Lava Jato. O último bastião petista, João Paulo, ex-prefeito do Recife, perdeu para o atual alcaide, Geraldo Júlio, do PSB.

4. Alckmin, o maior vencedor

Três tucanos se apresentam como protagonistas centrais : Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra. Alckmin certamente assume posição de maior relevo em função da extraordinária vitória de João Doria no primeiro turno em São Paulo, metrópole de maior densidade eleitoral do país. Já a derrota do tucano João Leite, em Belo Horizonte, enfraqueceu Neves. José Serra, atual chanceler, se quiser ser candidato à presidente em 2018, poderá sê-lo em outra agremiação.

5. Capilaridade do PMDB

O pleito mostrou ainda um PMDB muito capilar. Administrará 1.038 municípios, com uma população de 20,6 milhões de pessoas. Além de médios, abarca considerável quantidade de pequenos municípios. O PMDB simboliza o equilíbrio da balança do poder, fazendo alianças à esquerda ou à direita, detendo, assim, imensa capacidade de ser o maestro da orquestra. Sua força poderá ainda ser avaliada pelo maior número de vereadores eleitos, ao qual se somam as maiores bancadas de deputado estadual, Federal e de senadores.

6. Pulverização

Partidos médios e pequenos avançam nas cidades, sendo mais competitivos que na eleição de 2012. Vejamos os números da pulverização de votos com a planilha dos eleitos pelos partidos : PMDB - 1.037 ; PSDB - 803 ; PSD - 541 ; PP - 492 ; PSB - 413 ; PDT - 335 ; PR - 300 ; DEM - 267 ; PTB - 262 ; PT - 254 ; PPS - 122 ; PRB - 105 ; PV - 104 ; PSC - 86 ; PC do B - 81 ; SD - 63 ; PROS - 53 ; PHS - 37 ; PTN - 31 ; PSL - 30 ; PMN - 29 ; PRP - 18 ; PTC - 15 ; PEN - 14 ; PTdoB - 14 ; PRTB - 10 ; PSDC - 9 ; REDE - 7 ; PPL - 4 ; PMB - 4 ; PSOL - 2 ; PSTU - 0 ; PCO - 0 ; PCB - 0 ; NOVO - 0.

7. A base governista

Os partidos que formam a base do governo administrarão 81% dos eleitores do país. Esse pode ser um trunfo do governo. Sobre o território municipalista que hoje estabelece nova base serão edificados os pilares das campanhas estaduais e Federal de 2018. A radiografia política que começa a ser vista exibe um corpo intensamente situacionista, formado por um aglomerado de partidos inseridos na base do governo. Os traços oposicionistas, fragmentados e dispersos, sugerem que as forças por eles representadas terão chances reduzidas de marcar forte presença na paisagem eleitoral de 2018. O PT foi praticamente triturado do mapa político, transferindo ao PSOL, que fica em último lugar, a herança de oposição ideológica no espectro partidário. Apesar de suas derrotas, o PSOL ganhou muita visibilidade com a candidatura Freixo, no Rio.

8. Ciclo das vacas magras

Os 5.568 municípios entrarão no ciclo de vacas magras. Viverão em estado de penúria. De pires na mão, baterão às portas do governo Federal. Por conseguinte, é viável supor que, mesmo fazendo parte da aliança governista, muitos prefeitos ficarão frustrados caso não vejam o braço estendido da administração Federal. E quem vai determinar o comportamento do Executivo em relação aos prefeitos será a economia. Arrumada, organizada, trará confiança ao mercado, recuperará investimentos e diminuirá o tamanho da massa desempregada. Sob essa hipótese, é provável que o aumento do Produto Nacional Bruto da Felicidade e da Harmonia produza intensa adesão à gestão governamental. E o governo teria, assim, condições de amparar os cofres da municipalidade.

9. Pacto federativo

O governo, por sua vez, defende com força a ideia de um pacto federativo, com foco na redefinição de competências e recursos envolvendo a União, Estados e municípios. Poderia ser a redenção da municipalidade, a base do edifício político. Mesmo assim, é remota a hipótese de confortabilidade para as administrações municipais. Que tentarão adotar uma nova planilha de critérios ancorados nos seguintes valores : racionalidade/enxugamento de estruturas ; clareza/transparência/ ; eficiência/eficácia ; zelo ; acuidade ; maiores cobranças do munícipe, entre outros. Não serão contempladas grandes obras. O foco estará na qualificação dos serviços básicos : saúde, educação, mobilidade urbana, segurança, etc.

10. Protagonistas de 2018

Se a conjuntura econômica, portanto, se apresentar favorável, é viável apostar na hipótese de que candidatos mais competitivos em 2018 serão aqueles que colaboraram para a melhoria de vida da população. PSDB, PMDB, PSD, PSB ou DEM, por exemplo, serão motivados a lançar candidatos. Nesse caso, dois, três ou mesmo quatro competidores deverão surgir, representando sentimentos e posicionamentos de um gigantesco centro social : um mais centro-direita, outro mais centro-esquerda e até outro que encarne o papel de antipolítico, nos moldes de João Doria, em São Paulo, ou Kalil, em BH.

11. Crivella, o evangélico

A administração de Marcelo Crivella, no Rio, deverá ser uma das mais monitoradas pela mídia. O senador é bispo licenciado da Igreja Universal. E sobre ele recaem muitas suspeitas, entre as quais a de que sua eleição faz parte de um projeto hegemônico do grupo evangélico sob o comando de Edir Macedo para tomar conta dos Poderes. O projeto incluiria o adensamento das estruturas dos Poderes com quadros evangélicos. A evangelização do país, sob a infiltração da religião nos vãos e desvãos da política, puxaria uma onda de conservadorismo.

12. 147 pendentes

Dos candidatos eleitos, 147 aguardarão desfecho de processos que correm contra eles no Tribunal Superior Eleitoral. Há um certo travo de amargo na boca de alguns vitoriosos.

13. Cinturão vermelho sumiu

O cinturão vermelho na região metropolitana de São Paulo sumiu. O PT deixará de ter prefeitos em seu berço, o ABC paulista. Foi escorraçado. Em seu lugar, emerge um cinturão azul, dos tucanos de Geraldo Alckmin. Que sai do pleito como o maior vencedor individual.

14. Lula e Dilma

O civismo recomenda obediência às leis e aos bons costumes na via eleitoral. Lula e Dilma deram um péssimo exemplo, ao deixarem de votar no segundo turno. Como é possível um líder popular como Luiz Inácio, acostumados aos palanques, fugir das urnas ? Tem o direito de se valer da prerrogativa de não votar, eis que é um setentão. Mas a idade não é desculpa para dar as costas às urnas. Papelão.

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