Mon, Jul 24, 2017

Sexta-feira, 21 de julho de 2017
"Remédio de doido é outro na porta"

ELE CHEGOU por volta das 10 horas da manhã. Era uma quarta-feira de cinzas e ainda vinha no embalo do carnaval. Em seus ouvidos era bem presente o som da orquestra tocando marchas inesquecíveis. Entrou em casa e começou o sururu.

A mulher esperava ele desde a noite anterior. A raiva era tanta e estava fervendo igual Coca-Cola. Não largava o rolo de esticar massa. O cilindro parecia uma extensão do braço e dava fortes batidas na palma da mão. Olhos vidrados na TV que mostrava as últimas imagens do baile de carnaval da noite anterior. Seu pensamento vagava! Onde estaria o marido safado e irresponsável? Ela se perguntava, a ponto de quebrar na porrada o aparelho de TV. Bastaria aparecer na telinha o marido pilantra entre os foliões. Não pensaria duas vezes.

Foi nesse estado mórbido de ira incontida que o sem vergonha do Barretinho – como mais conhecido – encontrou sua mulher. Como se não bastasse a noitada, estava bêbado, dançando, queimando o resto da energia. Na maior euforia gritou:

– Querida, cheguei...! – Mal terminou a frase recebeu, uma porrada na cabeça que se sentiu conduzido de volta ao grande baile de carnaval cantando "...ô abre alas que eu quero passar..." Contou depois que se sentiu voando entre milhares de estrelas. O mais incrível: à sua frente via a figura robusta da mulher, ora vestida de anjo, ora trajada de capeta. “Acho que eu morri! Onde estou?” – Balbuciava, enquanto tentava levantar-se do chão.

– Morreu o que desgraçado! Vaso ruim num quebra. – Dizia a mulher, braba igual a um siri dentro da lata. Aplicou-lhe umas tapas e o expulsou de casa, depois de lhe entregar uma lista de compras, mandando que fosse buscar comida. Nada havia para comer e ele estourado tudo no carnaval.

– Mas querida e o dinheiro – Ela não quis conversa: “Dê seu jeito, filho da puta, como faz pra encher a barriga de cachaça em suas farras?” A voz irritante dela eram como marteladas.

Quarta-feira de Cinzas! A cidade ainda respirava a ressaca do carnaval. O comércio fechado. Só um local encontrava-se parcialmente aberto, o mercadinho do Sobreira, onde sempre fazia compras. Porta pela metade. Entrou, deu de cara com desordeiro número um da cidade. Indivíduo violento, mal-humorado, agredia qualquer pessoa que olhasse atravessado pra ele. Onde estivesse bebendo, não admitia a outro alcoólatra. Barretinho conhecia a fama do indivíduo, mas “o remédio de um doido é outro na porta”. Voz firme e uma cara de mal disse depois de entregar a lista ao comerciante:

– Sobreira, hoje estou sem paciência e apressado – Barretinho falava apressado e sempre fitando o tal brabão, como se quisesse come-lo vivo. Sobreira, hesitante, olhava o brabão esperando que esboçasse qualquer gesto e se perguntava onde estaria a brabeza do homem mais violento da cidade. Por menos que aquilo já vira o cara bater em gente e expulsar do estabelecimento. Barretinho mandou o comerciante colocar tudo dentro de um saco grande.

Sempre encarando o seu rival pediu duas carteiras de cigarro e dois copos grandes com cachaça da boa no que foi atendido. Olhando firmemente na cara do outro empurrou até ele um copo e disse lentamente franzindo a testa e sempre olho no olho: "Agooraaa bebe! Sem derramar uma gota, senão... tu vai lamber o chão e se ver comigo cabra safado!"

O valentão estava desnorteado e bebeu gole a gole a cachaça, como ordenado. Barretinho bebeu num gole só, virou-se para o comerciante, perguntou quanto foi a despesa e mandou anotar. Botou o saco nas costas e foi embora. Sobreira muito puto da vida, virou-se para brabão disse: "Bonito pra sua cara, né? Você, o brabão do pedaço, só chega aqui arrotando valentia, borrando-se de medo desse sujeitinho que todos sabem, apanha da mulher. E agora?"

O “valentão” virou-se para o comerciante e disse todo sem jeito, acanhado e muitíssimo calmo: “Olhe aqui, seu Sobreira, fique certo de uma coisa: um cachorro sabe quando o outro tá com a moléstia! Visse!” – retirou-se do estabelecimento local apressado e nunca mais apareceu.

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