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Segunda-feira, 15 de outubro de 2018
O ORADOR ATRAPALHADO

A política nos reserva sempre momentos interessantes, folclóricos enfim. Não se pode deixar de fazer o devido registro. Folclore político é um manancial que deve ser explorado para que fique marcado nos anais da história. Tais momentos engraçados envolvem a todos, quer letrados ou incultos que trilhem o apaixonante caminho dessa ciência.

O compadre Alexandre Tabajara garante que o fato a seguir – um dos muitos na aquarela política, portanto digno do melhor registro –, aconteceu numa cidade do sertão da Paraíba. O prefeito Herculano Penteado, semianalfabeto, tinha uma verdadeira paixão em discursar em público, embora não ligasse coisa alguma para aprimorar o linguajar que utilizava. Na tentativa de imitar os grandes tribunos, ele procurava enfeitar seus discursos construindo frases com figuras ilustrativas para dar um sentido mais profundo naquilo que desejava dizer.

Era empolgado pela educação, embora não procurasse melhor se instruir. Uma de suas primeiras obras foi uma biblioteca pública, promessa de campanha. A inauguração foi com uma grande festa. No dia aprazado lá estava ele pronto para proferir o seu belo discurso. A multidão que se fez presente ao ato inaugural era praticamente composta por estudantes, professores e várias autoridades. Abrindo a sua falação, dizia Herculano:

– A brioteca é do povo, e o povo é da brioteca! Cada valume qui aqui tá, nada mais vale e nada meno constitui qui o ressocino desse mermo povo.

O publico conhecia muito bem a fama do velho Herculano. Era um homem sem os brilhos dos refinos educacionais, por isso dizia sua verdade de forma certa, direta, embora com palavras erradas. Era engraçado ouvi-lo discursar. Não havia como deixar de rir, e, também aplaudi–lo. Mostrando-se alheio continuava seu discurso com muita ênfase.

– Se amenhã proguntarem a argum de vois se fôro vois que afundaru essa brioteca vois responderão pur uma boca só: fumo, fumo, fumo!

Era impressionante a impavidez com que ele proferia seus desencontros orais, sobretudo quando se aventurava na construção de imagens ilustrativas ao seu discurso:

– Nois semo, meus amigo, cuma uma licomotiva fumegante, atravessano o oceano e fonfonano danadamente: fon-fon-fon, fon-fon-fon, fon-fon-fon! Nois semo, meus amigo, cuma os aruá caino lá de riba das cachuêra e lá se vem cum a gota serena: frummmmmmmmmmmmm! Nós semo, meus amigo, iguá a ispada amoladinha do marechote Floria Pêxano, zinino com a mulesta: zim, zim, zim, degolano gente, degolano gente!

Era um estranho palavreado do ilustre orador! Mesmo assim ainda existia algum puxa-saco que gritava tanto no palanque como no meio da multidão:

– Muito bem dotô! O sinhor num é dotô, mais suas palavra é de ouro!

A inquietação já tomava conta da plateia no meio da qual os professores disfarçavam o riso em sinal de respeito àquela autoridade que pensava está realmente agradando. Como no meio da multidão sempre surge um bêbado, lá estava um que era adversário político, e gritou:

– Tá bom, encerra logo essa merda negro besta! – Herculano não perdeu a pose rebateu a ofensa:

– Isso de ipidermes num infulói nem contribói, purque o qui infulói e contribói, evidenticamente, é as ação qui aqui se pratica, pois nego é o petrói, riqueza mundiá que move o progresso nacioná.

Os achincalhes era de pessoa da oposição. Continuou impávido em seu posto segurando o microfone, como se fosse uma espada que lhe abrisse caminho. Foi quando o dito bêbado voltou a carga e resolveu desacatar novamente o líder chamando-o de burro e analfabeto. Foi o bastante Herculano perder a pose e encerrar seu discurso:

– Cum essa eu tô fora de si. É u’a farta de educação. E é purisso qui essa merda de cidade num progrede, só faz regredé!

E fazendo gestos impróprios para a multidão retirou-se bastante irritado do local sem inaugurar a biblioteca.

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