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Sexta-feira, 10 de novembro de 2017
O DENTE DE CHIQUINHO

DEMOROU, MAS finalmente Chiquinho retornou do consultório do dentista onde havia ido colocar dois pivôs para fixar os dentes incisivos superiores. Foi o preço de sua valentia, por sempre querer provar ser mais macho que todo mundo. Todavia era um cara legal, espirituoso, brincalhão. Perdeu os dentes durante uma briga no Bar do Arnaldo.

O cara lhe aplicou um soco de direita aplicado pelo estivador atingiu-o em cheio a boca. A sorte do Chico foi grande porque o sujeito estava meio embriagado. Até hoje ele não sabe se com o impacto engoliu os dente. Acordou duas horas depois na emergência do hospital.

Sorte dele! Perdeu apenas dois dentes e teve o maxilar deslo-cado. Menos mal! Pelo volume da mão e do braço do agressor poderia ter sido bem pior. Durante bom tempo Chiquinho – cantor famoso das noites de seresta – ficou sem poder exercer a profissão. Felizmente o martírio estava chegando ao fim.

Até segunda-feira os dentes que ele usava eram provisórios. Chiquinho era só alegria. O nosso cantor galã finalmente voltou a sorrir daquela sua maneira bem debochada e espirituosa.

Lembrava o conselho do dentista sobre as peças provisórias. Ele fazia questão de contar detalhes aos amigos que partilhavam da sua alegria. Apesar de ser um exibicionista convicto, era um grande companheiro.

A noitada prometia ser bastante animada. Tínhamos uma longa agenda a cumprir naquela sexta-feira. Afinal, havia pelo menos um bom motivo para comemorar: a inauguração do novo sorriso de Chiquinho.

O roteiro, como sempre, era bastante longo e terminava na seresta da churrascaria do Onofre. Ponto referencial para os ca-sais românticos, que gostam de dançar ao som de uma boa músi-ca. Aquele era o momento ideal para o nosso cantor “dar uma canja”, cantando algumas músicas. Seria uma avant premier do seu retorno depois de uma pausa forçada.

Àquela altura da madrugada, Chiquinho sequer lembrava mais da recomendação do dentista. Até ali tivera certo cuidado seu sorriso continuava impecável.

Ele não perderia aquele momento por coisa nenhuma do mundo. Por isso mesmo aventurou-se a cantar algumas musicas. Só ouvir a aclamação do povo, quando citaram seu nome, sabia que não poderia voltar atrás. Lá se foi o nosso Chiquinho inter-pretando extraordinárias canções para o deleite dos amigos e fãs.

Entre uma canção e outra, muitos aplauso para o cantor pre-ferido. Imagine o entusiasmo dele, alvo de todas as atenções. No entanto, aconteceu um fato naquela noite que nós achamos muito engraçado e sempre que nos encontramos é difícil não lembrar. Foi realmente hilário. Nada teria chamado nossa atenção se não fossem os gestos de disfarçado desespero do nosso cantor e que nós de imediato compreendemos.

Ele interpretava Tortura de Amor, grande clássicos da música popular brasileira, de autoria do Baiano Waldick pressão da língua e saltou ricocheteando no microfone. A peça Soriano, cuja letra diz: “Hoje que a noite está calma e que minha alma esperava por ti, apareceste afinal torturando esse ser que te adora...”

Foi nesse ponto que um dos dentes postiços não resistiu a foi parar bem à sua frente, só que aos pés dos dançarinos que nada notaram.

Sem perder a pose Chiquinho seguia firme na impecável in-terpretação da música e na esperança de ser socorrido por nós. Carregou no agudo, inflou o peito e mandou ver, enquanto apontava para o chão:

– Volta meu amor, fica comigo, não me desprezes que a noite é nossa e meu amor pertence a ti. – Seus gestos acompanhavam sempre o deslocamento do dente chutado ocasionalmente pelos dançarinos e que acabou sumindo.

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