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Quinta-feira, 26 de maio de 2016
O CAÇADOR DE PALAVRAS

A erudição não é saber falar difícil, mas o conhecimento profundo, adquirido pelo hábito da leitura, do estudo e, também observar a vida. Vez por outra encontramos os chamados caçadores de palavras, que tentam fugir da originalidade do falar do povo.

O advogado Sobral Cavalcante era uma dessas figuras. Fugia do tradicional linguajar, o coloquial e fazia questão de querer impressionar seus interlocutores com palavras difíceis rebuscadas no seu dicionário mental. Era presunçoso e se achava acima de todos. Não se nivelava aos colegas. Só de juiz pra cima. Com isso era motivo de chacota, de piadas.

No fórum da cidade havia um oficial de justiça gozador, o Tibério. Quando encontrava o advogado fazia questão de puxar conversa. Perguntava sobre esse ou aquele processo, para ouvir o palavrório difícil. Não fazia por menos e sempre perguntava o significado de uma palavra que não entendesse.

Certa noite os ladrões entraram no quintal da residência do Sobra e roubaram várias galinhas. Isso o deixou indignado, considerou um atrevimento a um defensor da lei. Pela manhã recorreu ao juiz Cleisson Vernon, que conhecia a fama do advogado. Admirou-se porque o caso era de polícia, mas abriu os ouvidos para o queixoso que foi se esmerando nos detalhes.

– Meritíssimo, o meu amplexo. Permita-me adentrar abruptamente em vossa sala. – O juiz cumprimentou-o e pediu que ficasse à vontade e foi lhe perguntando o que havia acontecido.

– Estando-me “en passant” por esta egrégia casa, não poderia furtar-me em vos dar ciência de um deplorável fato verificado essa madrugada em minha residência e, ato contínuo requestar de vossa parte presciência contra alguns larápios amigos do alheio;

– Ora, o que aconteceu doutor. – Admirou-se o magistrado. – Espero que seja algo que eu possa resolver e não algo tão grave como o senhor deixando transparecer.

– Meritíssimo, estou um tanto “ab irato”. É que hoje pela madruga, presumo, alguns meliantes, adentraram no quintal da minha vivenda de assalto e se apoderaram de alguns bípedes galináceos da minha legítima propriedade.

Seu Tibério, o oficial de justiça, que entrara na sala com alguns processos, e a tempo de ouvir toda a conversa, disse que o juiz escutava tudo e deixava transparecer a vontade de rir, enquanto o queixoso continuava.

– Meritíssimo, não é pelo valor pecuniário que representam essas insignificantes aves, mas porque eu pretendia imolar algumas delas em holocausto à data primaveril da minha genitora. – E arrematou: – O fato deixou-me indignado, e “in verbis” solicito o vosso arrimo.

O juiz gracejador fingiu que não entendia o que o queixoso dizia e respondeu: – Doutor Sobral, não estou entendendo direito o que o senhor está me pedindo. Pois, pelo que o senhor diz, foi vítima de alguns ladrões, mas isso é um caso para a polícia resolver.

O oficial de justiça, Tibério, não se conteve e emendou num linguajar bem popular e irônico: –Ah! Juiz o que ele está dizendo é roubaram as penosas, as galinhas, do quintal dele. Né isso doutor Sobral?

O queixoso não gostou nem um pouco. Fechou a cara avermelhada de raiva, não disse mais nada e retirou da sala com um gesto brusco, sem se despedir da autoridade.

Gonzaga de Andrade

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