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Sexta-feira, 27 de maio de 2016
TROPEÇOS NA LÍNGUA

Os falares do povo, como dizia Luís da Câmara Cascudo são os mais interessantes pos-síveis. Um detalhe: quebram todas as regras, rompem todos os limites da gramática e não adianta correção. Essa é a melhor forma de comunicação. Não o coloquial, não o tradicional, mas aquilo que o povo sabe fazer de melhor e com simplicidade: comunicar-se, o importante é se fazer entender.

O falar errado não quer dizer uma pessoa sem cultura. O conhecimento tem seus próprios caminhos. Conheci um cidadão, chamado Zé Pequeno, tido como analfabeto, mas gostava de filosofia. Não sabia ler, mas pedia que lessem para ele. Tudo lhe era interes-sante, sobretudo a vida dos filósofos gregos. Uma vez falando a respeito do comporta-mento humano ele me afirmava: “como dizia o filoso Socrates, a comportação do homi, depende do obientes adonde ele conveve”. Errado na forma da língua, mas certo na ob-servação.

Evidentemente, onde se puder corrigir se corrija, mas há casos a demandar muita paci-ência. Mesmo estudando, sendo letrado e dominando medianamente a língua há pessoas sem o hábito de consultar uma gramática, um dicionário, não cuidam em melhorar o vocabulário, não têm a prática de se corrigirem quando errados.

Um caso de falta de cuidado aconteceu com uma senhorita. Ela buscava uma carona, para ir à casa da tia. Chega ao posto de gasolina da cidade e o primeiro caminhão truca-do que avistou, quando o seu motorista ia partir, dirigiu-se a ele toda empertigada, crente estar abafando e falou bem explicado:

– Harará uma carona pra uma sinhurita na buleia dessa camioneta?

Uma afronta à língua, pois harará nunca foi verbo e caminhão não é camioneta. São coisas da vida que entram para o folclore linguístico. Sabemos como se escreve deter-minada palavra, mas ao nos ser perguntado ficamos na dúvida? Na sala de aula lembro-me e um amigo perguntou ao professor de português em tom de brincadeira se haveria possibilidade de se cometer quatro erros na mesma palavra, o professor respondeu em cima da bucha:

– Depende das CIRCOSTAÇA.

Câmara Cascudo enfatizava ser a pressa traiçoeira, sobretudo quando se tem a fala como instrumento de trabalho. Outro dia num desses grandes prêmios de turfe do Jóquei Clube o apressado locutor a todo pique anunciava os preparativos para a largada e uma pe-quena frase dita chamou-me a atenção. Na força do seu entusiasmo ele dizia:

– E atenção, senhores e senhoras para a sensacional largada. Sobe andrenalina.

Eu imaginei tratar-se do jóquei André montando uma égua chamada Lina. Engano meu. Ele se referia à ADRENALINA. Foi traído pela pressa. Isso como diria meu amigo Edu Fernandes, um eterno gozador e conhecedor do português:

– Eu fiquei completamente fora de si.

A título de ilustração, estavam dois recrutas no quartel falando a respeito de armas.

– Esse rifle já faz bastante tempo que eu funcionia. – O outro atento, retrucou.

– Não é funcionia, isso não existe, tá errado. O certo é funcionei. – Foi bastante para começar a peleja sobre a palavra certa. O sargento ia passando, eles o chamaram para esclarecer a dúvida.

– Sargento, meu amigo aqui disse: “esse rifle não funcionia há bastante tempo”. Isso não existe, não é mesmo? Então eu disse ser a palavra certa funcionei. E ele não quer admitir o erro. O que o senhor acha? – O sargento olhou para ambos, não querendo entrar na confusão, ou talvez por desconhecimento, mandou essa pérola.

– Ambos os dois estão certos. Um está falando no plural e outro no singular. – E bateu em retirada para evitar mais perguntas.

Não foi diferente do acontecido com certa professora de português ao tentar corrigir um erro de sua mãe reclamando do neto que brincava na chuva.

– Carlinhos, minino danado, sai do terrêro tá chuveno! – A filha professora emendou: – Mãe, não diga uma coisa dessas. Os vizinhos sabem que sou professora e o que irão pensar de mim. A palavra certa não é chuveno é choveno.

É, como disse o mestre Câmara Cascudo, nos falares do povo há muitos mistérios e acertos mesmo por palavras ditas erradas.

Gonzaga de Andrade

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