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Domingo, 05 de junho de 2016
A UM PASSO DA REALIDADE

Silvinha Silva fazia mil planos para o futuro. Fazia ano e meio que não nos víamos. Pa-recia bastante triste. Estava mais magra. E isso a deixava exuberante e atraente. Surpre-endia-me ao contar o drama de haver perdido o seu bebê no sétimo mês de gestação.

Estava festejando, com o marido, Gustavo, o resultado do ultrassom, um menino forte e sadio. Jubilavam-se com a notícia. Agora, mais do que nunca, podiam pensar passo a passo o futuro do bebê. No retorno para casa. Não viam a hora de contar a todos a gran-de notícia e registrar tudo, detalhadamente, no diário que escreviam a quatro mãos. Era o relato de uma bela história de amor.

Há um ano, Silvinha e Gustavo, estavam casados. Tudo que ela almejara, antes de che-gar aos 40 anos, estava acontecendo de forma bastante generosa. Era surpreendente! A felicidade, com certeza estava de complô com a alegria, pois vinham transmutando em realidade os sonhos de uma Cinderela – antes infeliz e desditosa balzaquiana que estava entregando-se ao desengano, por não ver surgir diante dos seus olhos verde oliva o tão esperado príncipe encantado. Agora isso era passado. Sentia-se em júbilo perpétuo. Gustavo era a outra parte do universo que antes lhe faltava.

Agora sua expectativa voltava-se para a chegada do fruto daquele amor abençoado, pelo qual bendizia todo o sofrimento que havia suportado. Seu estado de felicidade era com-pleto. Tinha a certeza de que ao se alimentar um sonho, pouco a pouco se constrói uma realidade. Afinal, nada é difícil para quem ama e sabe esperar o melhor de cada momen-to da vida.

Encantadora Silvinha Silva! Era uma sonhadora compulsiva. Tinha por convicção que o sonho é uma realidade no plano etéreo, subliminar. Logo, prestes a se concretizar. O casal havia superado as dificuldades financeiras e tinha condições de poder se preparar para a chegada do primeiro filho. Cada ação a ser levada a diante era detalhadamente estudada. Tudo vinha dando muito certo.

Deitada em sua confortável cama, Silvinha disse que ia passando em memória cada momento que culminou naquele encontro feliz com seu amor, Gustavo. Aguardava o retorno do marido, que tinha ido providenciar um táxi para levá-la ao consultório médi-co, aonde faria uma ultrassonografia. Ambos desejavam conhecer o sexo do para provi-denciar em detalhes o enxoval.

– É maravilhoso quando se tem boas lembranças para o amanhã. Aí está o sabor da vida, que muita gente não sabe valorizar. – Dizia-me bastante séria, que assim pensava, en-quanto acariciava a barriga, onde estava acomodado o fruto sagrado do amor proporcio-nado pelo homem que satisfazia todos os seus desejos. No útero, o bebê vez por outra dava sinais de vida. A mamãe sorria e se desdobrava em carinhos. Não via a hora de poder estreitar em seu colo aquela frágil criaturinha.

Em sua narrativa, enquanto eu lhe era todo ouvido. Silvinha contava que naquele dia estava eufórica. No quarto, ao lado do marido, comentava cada detalhe do que iriam fazer dalí em diante. Segundo Silvinha, foi naquele momento em que conferia com Gus-tavo cada pecinha comprada para o bebê que sofreu o grave acidente, quando descia da cama e para arrumar a gaveta da cômoda reservada para guardar o enxoval do futuro herdeiro. Para o meu espanto, disse que pisou em falso no tapete e escorregou caindo de costas. Bateu com a cabeça no criado-mudo. Disse-me que despertou no hospital.

– Cadê meu bebê. Meu filho! Eu perdi meu filho! – Gritava em prantos, segurando a barriga, quando era despertada de sua convulsão por dona Neuza, sua mãe. Abriu os olhos, espantada correndo a vista pelo quarto.

– Mãe, o que aconteceu? Onde estou?

– Acho que você teve outro daqueles seus pesadelos, menina! Ou está ficando maluca. – Respondeu dona Neuza – Eu já estava preocupada. Que história de filho é essa que você tava falando? Não me esconda nada, menina. Você está grávida? – Silvinha disse que raciocinou rápido para responder.

– Que nada, mãe. Aí meu Deus, que loucura! – Suspirou – Foi sonho outra vez!

– Porra, Silvinha! – Gritei para ela – E eu ouvindo essa história maluca, estava ficando até emocionado pensando que fosse realidade.

Gonzaga de Andrade

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