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Terça-feira, 09 de agosto de 2016
AFINAL, CONTRÔ OU NÃO?

O passageiro, um cidadão de quase 70 anos, visivelmente nervoso, nunca tinha viajado de avião. O começo do voo rumo a Brasília foi difícil para ele. A decolagem, as turbulências, o incômodo causado pela pressurização: tudo era infernal!

O comportamento do anônimo passageiro era justificável estatisticamente. Em qualquer voo, só 1% a 2% das pessoas estão tranquilíssimas; 23% estão com medo, os outros 75% estão numa graduação maior do medo que é o pavor. Assim ele se sentia!

Aos poucos foi controlando o seu pavor, também graças ao amigo que viajava com ele. Antes no crescente nervosismo ele chegou até a comer duas daquelas toalhinhas quentes e úmidas para limpar as mãos. Ele pensava que eram tapiocas ensopadas ao leite de coco. O fato só foi notado, por causa dos comentários dele.

– Isso é uma tapioca isquisita. Fina, sem sal e com gosto de papé. Qui diacho é isso! – Afora isso, a partir dali tudo foi entrando num clima de normalidade, até que foi iniciado o serviço de bordo. À época havia ainda conforto, comodidade e um impecável serviço de bordo. Era luxuoso viajar de avião, naqueles anos dourados da aviação brasileira.

Servida a refeição ele a devorou rapidamente e resolveu fumar um cigarro. Vira-se para a aeromoça e a chama com um psiu e diz num linguajar rústico.

– Gaçonete, me arranje um fosfo pr’eu acender meu cigarro. – Isso, evidente, naqueles velhos tempos em que fumar a bordo era permitido. A jovem retira-se para atender a solicitação, enquanto o amigo sentado ao lado do nervoso passageiro advertiu-o de que no avião não existe garçonete e sim aeromoça. Não acostumado aos refinamentos o solicitante diz:

– Sei lá s’ela é moça ou mulé. Quero é acender meu cigarro pra vê se me acarmo mais um pouco. Quero acabar cum essa agunia!

Esse anônimo passageiro era vereador na sua pequena cidade nordestina. Vice-presidente da Câmara Municipal e estava indo a Brasília, com seu amigo participar de um encontro da União Nacional de Vereadores. Nunca tinha chegado nem perto de um avião que ele chamava “bicho de lata”.

– Arre! Diabo, vô tê de infrentar essa coisa. – Dizia antes de embarcar. – Entrar dento desse bicho. Num vô! Nem qui a vaca tussa! – Foi seu protesto de resistência antes do embarque, “forçosamente” na aeronave.

Apesar disso, ele tinha consciência da missão a cumprir, como um representante da legislativo de sua cidade. O que não queria era servir de chacota para seus colegas, acostumados a pegarem no seu pé, por causa do jeito rude de homem simples.

Ele aguardava que a “garçonete” lhe trouxesse algo para acender o cigarro, uma vez que ali por perto ninguém fumava.

Naquele exato momento outra comissária de bordo começou a servir aos passageiros o digestivo licor Cointreau, como era a tradição naqueles velhos tempos, após as refeições. Ela aproxima-se do vereador e pergunta:

– Senhor, Cointreau? – Ele se vira para a jovem ao seu lado e diz:

– Ainda não. A outra moça disse qui ia buscar e até agora num vortô.

– Desculpe senhor, não entendi. – Disse a aeromoça, olhando para ele, enquanto um amigo entra na conversa e explicar:

– Meu amigo, ela não está perguntando se você encontrou o acendedor de cigarros. Está lhe oferecendo essa bebida que se chama Cointreau. Entendeu?

A aeromoça fez um gesto de riso, ao mesmo tempo em que metia a mão no bolso do avental e tirando isqueiro para acender o cigarro dele. E quando já ia saindo, ele a chamou.

– Ô essa minina, agora dêxa aqui o copim desse tá de encontrô.

Os risos foram inevitáveis. Finalmente, falando-se o mesmo idioma, por vias diferentes chegou-se a um entendimento.

Gonzaga de Andrade

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