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Sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
BRINCANDO DE ENFERMEIRO

EM TEMPOS DE criança tudo é diferente, engraçado, lúdico, encantador. Nada parece ter fim. Tudo é mágico e colorido. As brincadeiras são coisas indispensáveis a tomar nosso tempo. 

A inocência nos leva a mundos distantes, colocando-nos a fazer coisas impensadas. Nesse mundo maravilhoso ficamos com a impressão de ter diante de nós uma grande enciclopédia, um mágico portal para o enigmático e perverso mundo dos adultos.

Hoje, sabemos que fora daquele universo nada é interessante. Aliás, nossa atenção só era tirada pela fome, mesmo assim o limite dependia da atração em nós despertada pela brincadeira. Infelizmente, coisas que poucos adultos entendem. Por isso, muitos castigam covardemente seus pequeninos, todavia, esquecem as estripulias, as peraltices praticadas no seu tempo de criança. Muitos foram além da conta nas suas traquinagens.

A prática de travessuras na infância tem um preço bastante elevado. Muitos trazem hoje as marcas daqueles tempos mágicos de inocência. Claro, não souberam entender o mundo e os quereres dos adultos, a partir do seu mundo lúdico transcendental.

Da infância, com certeza eu e um primo trazemos marcas de uma surra que levamos. Minha tia amanheceu certo dia queixando-se de uma enxaqueca das brabas. Mal saiu da cama e voltou a se deitar. Gemia, chorava. Explicava ao seu marido que ao tocar o pé no chão sentia sua cabeça quase explodindo. Tinha de ficar quietinha, ao menor movimento parecia ter o cérebro solto e batendo nas paredes do crânio, daí seu choro e gemidos. Nós moleques não entendíamos nada, apenas o sentido da dor.

– Até abrir os olhos é doloroso. As veias do cérebro parecem que vão estourar tamanha é a pressão. – Explicava a pobre tia, queixando-se, também, de muita azia que lhe aumentava o mal-estar.

Seu marido saiu para o trabalho, pediu que o acompanhássemos até a farmácia. Lá comprou dois sonrisal – novidade no mundo farmacêutico – e nos mandou entregar à tia. Voltamos e entregamos o remédio que ela nunca havia experimentado. Pediu ao filho que trouxesse um copo d’água. Enquanto o primo foi até a cozinha, rasguei um dos envelopes – tia não tinha visto o tamanho da coisa. De olhos fechados e deitada, abriu a boca enquanto eu sapecava o dito cujo lá dentro.

Ao toque da saliva o tal sonrisal começou a ferver. Ela arregalou os olhos e fez um esforço pra se levantar. A coisa piorou e foi ficando sem respiração e tentava jogar fora o tal comprimido efervescente. Vendo-a desesperada tentei ajudá-la a sentar, sem entender nada do que estava acontecendo. Gritei para o primo trazer a água.

Sem nenhum adulto por perto a coisa estava ficando feia. Minha mãe estava em nossa casa ao lado e nenhum de nós pensou chamá-la. Tia estava sufocada, vermelha, espumando bastante e quase desfalecendo.

A coisa piorou quando tentamos fazê-la beber um pouco d’água. Nosso desespero aumentou, porque o comprimido já mais reduzido desceu para o estômago da doente que, felizmente conseguiu vomitar aquela gosma. Foi quando lembrei de chamar minha mãe. Ela chegou apressada e encontrou sua irmã tremendo e espumando, olhos tufados. Deitou-a de bruços, cabeça para fora do leito, enquanto lhe massageava as costas. A doente foi retornando e melhorando.

O pior mesmo aconteceu depois quando tia se recuperou. Responsabilizou eu e o primo de tentar matá-la e narrou detalhadamente o acontecido. A sova que levamos foi pesada. Não tínhamos a menor noção da travessura praticada. Dois moleques de 8 anos tentando dar uma de enfermeiros. Hoje parece engraçado, mas na lembrança está a dor da surra que levei.

Gonzaga de Andrade

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