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Quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
FELIZ NATAL?

2112 tempo de deusERA TUDO MUITO simples. Para ele, a vida resumia-se a uma forma lúdica. Num passe de mágica poderia mudar tudo, adequando seu presente aos anseios maiores de sua infância maltratada, sem perspectivas. Aos oito anos de idade, é claro, não poderia pensar dessa maneira. Entretanto, apenas tinha a certeza e conhecia a falta de um lar, carinho, apoio, segurança. Não da dura realidade impostas pela miséria.

Sentia alegrias e tristezas, essas muito mais do que aquelas, mas não conseguiam lhe roubar o riso puro e inocente da infância, mesmo sendo trágica e miserável – uma caricatura aguada do seu dia-a-dia. Ao menos isso tinha garantido!

Seu mundo era de ilusões, esperanças e fantasias. No seu pequeno mundo ainda dispunha de espaços para sonhos, deleites fantasiosos que acalentam as pessoas de sua idade. Apesar da pobreza, buscava elementos novos para sonhar, transformando sua extrema necessidade de criança pobre, desamparada, sofrida.
Seus pais? Não sabia onde encontrá-los. Quando se deu conta, estava abandonado ao acaso, com frio, fome, sede, roupas sujas. Por companhia tinha apenas o choro dos desenganados, perdidos, sem quaisquer esperanças. Tão pequeno, mas já conhecia os maus-tratos infligidos por uma turba egoísta, que não dá a mínima atenção a crianças e adolescentes atirados ao acaso e de cuja desdita não têm a menor culpa.

Quantos como ele perderam a noção do tempo. Mas o que seria isso? Não sabia. E a fome, essa sim era uma espécie de diapasão dando o tom do ronco da barriga, querendo um pouco de comida para nutrir seu corpinho esquelético.

Quantas e quantas vezes não desejou comprar para si o sonho e a felicidade mostrada na televisão ligada lá dentro da vitrine da loja, onde ficava parado comtemplando com outros colegas de infortúnio. Aquele mundo era bem diferente do seu. Muitas e muitas noites, na calçada fria e aconchegado com jornais e caixas de papelão, o sono lhe enviava àquelas paragens de fantasia. Se ao menos pudesse chegar mais perto da vitrine para ver melhor seria uma grande satisfação.

Os enfeites, as luzes multicoloridas nas ruas mostravam-lhe uma época diferente. Seus colegas de infortúnios, bem mais velhos, falavam-lhe sobre o Natal, Papai Noel, presentes, roupas bonitas. Coisas desconhecidas para ele. Apenas símbolos inalcançáveis. Nada comparado às poucas e míseras moedinhas, vez ou outra dadas por alguém, ou mesmo restos de alimentos conseguidos a duras penas, depois de muito implorar a um e outro. Era sua triste realidade. Festas natalinas, dia das mães, dia dos papais, festas de São João, dia da criança e outras datas festivas, eram fantasias de adultos.

– Agora é Natal! Festa de fim de ano. – Comentavam alegremente seus colegas de rua e de míseros dias. Porém não sabiam explicar essas coisas tão comentadas e comemoradas pelos adultos. – É quando chega o Papai Noel, seu burro. – Gritavam com ele.

– Quem é Papai Noel? – Perguntava curioso, porém desinteressado na resposta que também não lhe davam. Isso pouco importava. Ouvira falar muitas vezes desse tal Papai Noel e achava até engraçado aquelas pessoas gordas vestidas de vermelho, barbas e cabelos brancos. A primeira vez que avistou um daqueles teve medo, saiu correndo e chorando. Entretanto, a palavra papai lembrava uma parte do seu elo perdido e lhe trazia à lembrança, também, a figura de sua mãe. Eram lembranças sem rostos.

Parado alí em frente àquela grande loja, olhinhos grudados na televisão, estava bem distante do seu mundo de horror. Movimento muito grande de pessoas entrando e saindo levava-o a perguntar por que ele e seus colegas não podiam entrar ali, para ver de perto aqueles milhares de brinquedos, como todas aquelas outras crianças, muitas delas saindo com pacotes, ao lado de pessoas adultas. O que levavam? Carrinhos, bonecas, jogos? Súbito, foi arrastado à dura realidade com seus amiguinhos.

– Circulando seus trombadinhas, aqui não dá pra vocês. Fora, fora.

Ainda lembrava da pancada na cabeça, dada por um dos seguranças da loja, botando-os pra correr. Muito o fez chorar. Tudo porque queria, apenas, um pouco da felicidade daquele mundo diferente do seu, onde ouvia tanto as pessoas dizerem uma às outras, FELIZ NATAL.

Gonzaga de Andrade

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