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Sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017
DESESPERO EM CENA

1702 Coluna de Gonzaga NabucodonosorNABUCODONOSOR II foi o grande rei da Babilônia, entre 605 a 562 a.C. e transformou aquela antiga cidade da Mesopotâmia ao sul de Bagdá, localizada às margens do Rio Eufrates, no maior centro cultural e financeiro do mundo antigo. Celebrizou-se como líder militar de grande energia e crueldade para com os povos inimigos, sobretudo assírios, egípcios e judeus.

O cruel Nabucodonosor II deixou para a posteridade um magistral conjunto arquitetônico, que compreende o templo Marduk com seu zigurate de forma piramidal, conhecido como Torre de Babel, com 250 metros de altura; os Jardins Suspensos, uma das 7 maravilhas do mundo; e um canal de defesa que liga os Rios Tigre e Eufrates, a 40 quilômetros da cidade, cercado por um muro em toda a sua extensão – denominado Muro dos Medas –, erguido para proteger a Babilônia das invasões.

Esse era o tema central do espetáculo “A fúria do Oriente”, peça do teatrólogo Alfredo Câmara, que ressalta o espírito beligerante daquele rei, responsável pela aniquilação dos fenícios, pela expansão dos domínios do Império Babilônico até o mar Mediterrâneo, e por deportar os judeus para a Mesopotâmia, episódio conhecido como a primeira diáspora ou "o cativeiro da Babilônia". Alguns amigos amantes da arte teatral resolveram montar a dita peça, com um elenco de 15 atores, os melhores do teatro amador.

A única fala da personagem Nabucodonosor era na metade do terceiro e último ato. Segundo o autor, o rei é convencido a invadir Jerusalém (atual Israel), fato acontecido em 586 a.C.. De acordo com o texto, o rei levantava-se do trono, dava um passo adiante e olhando para os súditos, desembainhava a espada, erguendo-a com as duas mãos e gritava:

– Eu sou o grande Nabucodonosor! – Seguindo-se os gritos dos súditos: viva o rei, viva o rei!

Foi um mês de exaustivos ensaios para que tudo saísse perfeito. O grupo estava pronto a entrar em cena. Como toda estreia é cheia de surpresas e sempre tem alguma falha, aquela não fugiu à regra. O intérprete de Nabucodonosor não pode entrar em cena. Naquele dia era seu aniversário e se achou no direito de exceder na dosagem da “bebemoração”.

A única opção que o diretor do espetáculo dispunha era o iluminador que sempre manifestou a vontade de ser ator, mas ninguém lhe havia dado uma oportunidade. O diretor apostar no rapaz. Como ainda faltava um bom tempo para se abrirem as cortinas, repassou ponto a ponto as marcações de palco e a fala final. O substituto estava perfeito e garantia não decepcionar, apesar da sua pouca capacidade de decorar. O jeito era arriscar.

Começa o espetáculo. Primeiro ato: tudo perfeito. Segundo ato, idem, afinal o tal Nabucodonosor não falava nada, apenas acompanhava a cena e gesticulava vez por outra. No terceiro veio a grande surpresa. Na hora da ação, quando recebe a notícia de que seu reino está sendo invadido, o ator-rei levanta-se do trono, desembainha a espada, erguendo-a e grita:

– Eu sou... Eu sou o gran...

O nervosismo era visível. Tremendo e suando o ator tenta lembrar o nome do rei. O diretor lá nos bastidores está prestes a ter o ataque. Desesperado, leva as mãos à cabeça, enquanto o ator continua tentando proferir a diminuta frase engasgada.

– Eu sooou o graaan...deee...

Desespera-se e a frase não sai. Volta a insistir:

– Euuu sooou... Eu.... sooou... Euu sooou um graaande filho da puta.

Larga a espada no palco e corre para os bastidores chorando muito, enquanto as luzes se apagam rapidamente. Um desastre!

Gonzaga de Andrade

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