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Quarta-feira, 01 de março de 2017
A PROCISSÃO DAS CINZAS

Essa já está no anedotário popular, mas vale apena ser recontada. A procissão seguia arrastando-se pelas ruas tortuosas e enladeiradas da pequenina cidade. Era um serpentear lento, melancólico, embalado por rezas infindáveis e cânticos lamuriosos. Não podia ser diferente, depois de tantos pecados e heresias cometidas durante mais um carnaval. A hora exigia muita penitência e rogos de perdão ao criador para a purificação dos espíritos atribulados e arrastados ao mundo das sombras, como afirmava o vigário naquela abertura da quaresma.

Era manhã de quarta-feira de cinzas. Um mar de gente compenetrada em orações e penitências, buscava a remissão dos pecados acumulados durante a festa pagã de Momo - o Rei da Folia - em meio a tantos excessos. O padre Herbet Oreindthe – holandês naturalizado francês – exercia o santo mister de pároco da pequena cidade. Ele sabia como ninguém, apesar do seu português atrapalhado, conduzir seu rebanho de criaturas.

A igreja matriz estava, superlotada. Os fiéis vinham de todos os locais e nos mais variados meios de transporte. Não importava a distância. A fé falava mais alto. Desde a madruga, não paravam de chegar carros, animais, bicicletas e, principalmente as famosas e sempre requisitadas Jardineiras da Empresa de Transporte Eudázio. Elas chegavam às dezenas e velozes, apesar do precário estado de conservação.

Durante a homilia, o padre Herbet Oreindthe foi bastante enfático quanto à posição da Igreja com relação ao carnaval. Para ele, uma festa alegre, mas cheia de excessos e que todo cristão deveria ter muito cuidado para não cair em pecado.

– A Igreja non prroíbe ninguém de parrticipar da carnavale. É uma fersta como tarntas outras. A alergria é una coisa munta bonita. Non tem nenhum prroblema dançar uma frrevo, uma marcha da carnavale. Eu até gostar de umas músicas dessa, porque son munto alergre e faz bem a nossa espírrito.

Terminada a missa, começa a procissão, e por onde passava, deixava um delicioso aroma evaporado do incensório caprichosamente conduzindo em balanços lentos por um diácono.

Tudo muito diferente da noite anterior, nos últimos bailes de carnaval. Grande parte daqueles fiéis saltitavam pelos salões ao som de Vassourinha, Abre Alas e outros frevos inesquecíveis. O som do frevo era agora abafado pelos hinos sacros. Mãos trêmulas deslizavam os dedos pelas contas de rosários, em rezas intermináveis. As pernas, antes firmes nos passos ágeis da música nos salões, mostravam o cansaço e seguiam em movimentos tímidos no sobe e desce ladeira.

A procissão começava subir a avenida principal da cidade. Uma ladeira enorme! Lá distante, surgia no começo da ladeira um ônibus tipo jardineira. O motorista desesperado, fazia gestos largos com o braço esquerdo do lado de fora, para abrissem caminho. O carro estava sem freios e ele nada podia fazer.

O veículo vinha deslizando em velocidade crescente, mas a multidão de cabeça baixa, compenetrada em orações e cânticos não havia notado ainda. Apenas o padre Herbet deu-se conta do iminente perigo sobre rodas que avançava com rapidez. Quase que em desespero gritou, ao microfone do carro de som:

– Atencion, minhas irmon, a jardinerra! A jardinerra! A jardinerraaaaa!

A multidão foi arrebatada violentamente daquele momento de torpor, pela advertência do padre. Sem se dar conta do perigo, despertava a lembrança do maravilhoso baile da véspera e começou a cantar alegremente o maior sucesso daquele carnaval:

– “Oh! jardineira por que estás tão triste? O que foi que te aconteceu? - Foi a Camélia que caiu do galho, deu dois suspiro e depois morreu...” – o motorista fez um movimento brusco e felizmente o veículo tombou a uns 100 metros da multidão que, finalmente, se deu conta do perigo.

Gonzaga de Andrade

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