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Sábado, 27 de maio de 2017
O RECRUTA ABILOLADO

O filho de seu Aristides, modesto fazendeiro do interior do Rio Grande do Norte, como a maioria dos rapazes de sua idade, estava recém-incorporado ao Serviço Militar. Tímido, raras vezes tinha vindo à capital. Limitava-se à vida recatada do campo, muito mais tranquila, sem atropelos.

Pelo gosto do seu pai ele teria sido um padre. Entretanto o rapaz disse que seria militar do Exército. Durante os primeiros 90 dias, viveu um verdadeiro inferno. Sentiu a dureza da vida da caserna, embora na fazenda. Seu pai era muito duro e exigente. Só uma diferença, no quartel tinha que se esforçar muito para fazer tudo como manda a disciplina militar. Mesmo assim, cometia mancadas incríveis e era motivo de gozação dos colegas.

Por não prestar continência aos seus superiores ou desobedecer a ordens, havia-lhe custado alguns dias de recolhimento ao xadrez. Eram atos involuntários, que sempre o tomaram de surpresa, não estava acostumado a tanto. Tinha verdadeiro pavor só de pensar em ficar trancado numa cela e fazia qualquer sacrifício para evitar isso.

Lembrava-se das palavras do velho pai: “A disciplina modela o caráter do homem ordenando-o para a vida”. Ele estava ficando um jovem esperto e menos tímido. Quem diria! Numa de suas folgas, ao sair do quartel, resolveu com os amigos dá um passeio no centro de Natal.

Parecia um sonho para aquele rapazola, que pouco havia ultrapassado os limites da sua região campestre! Ficou muito maravilhado com as coisas bonitas que viu na Praça Gentil Ferreira e imediações. Com os amigos, desfilava orgulhosamente, bem vestido com seu uniforme de gala, misturando-se a dezenas de outros militares, porém nunca esquecendo as formalidades da vida militar.

E lá estava ele meio atônito com tantas coisas bonitas, mas sem se esquecer de identificar a patente das pessoas fardadas que por ali passavam e lhes prestar continência. No vai-e-vem daquele mar de gente, viu um homem de estatura média com uma farda esquisita, de cor entre azul e o cinza, e que vinha em sua direção.

À medida que aquela figura enigmática se aproximava, o recruta tinha certeza de nunca ter visto coisa parecida. Pensava qual seria o cumprimento que lhe haveria de prestar. O homenzinho em uniforme de gala ostentava várias medalhas ao peito, destacados galões nos dois braços, um chapéu meio esquisito e de abas largas, lenço preso ao pescoço, calças curtas na altura do joelho e meias ao meio da canela.

– Arre égua! Essa autoridade é muito importante e com certeza não vai gostar se eu fizer só uma continência. – Lembrava-se da vez que se esquecerá de fazer continência para um tenente e pegara 15 dias de xadrez.

Era grande o desespero do recruta, à medida que o homenzinho fardado se aproximava. Tentou a ajuda dos colegas, mas estavam distantes. Ele havia ficado para trás. Tinha que tomar uma providência antes que fosse tarde. Quando se viu frente a frente com a suposta autoridade, não pensou duas vezes, atirou-se de joelhos e gritou fazendo continência.

– Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo! – O moço assustou-se, pulou de lado gritando assustado.

– Você tá doido, cabra da peste. – E implorava para que não o mandasse para o xadrez e dizia que nunca tinha visto uma autoridade como aquela e que não sabia qual cumprimento a lhe prestar.

– O que é isso recruta. Quem você pensa que eu sou? Eu sou apenas um chefe de grupo de escoteiros. E você parece que pirou de vez. Vá embora, seu abilolado!

O recruta estava passado de vergonha. Apressou o passo para fugir do vexame e encontrar os amigos que, felizmente, não testemunharam aquela cena hilariante.

Gonzaga de Andrade

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