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Publicar na sexta-feira 14
FEIJOADA DO FEFÉ

NA AUTÊNTICA feijoada tem que ser feita com feijão preto. A maioria dos ingredientes deve ser de porco: toucinho, costelinhas, pé enrolado com tripas, orelha, rabinhos salgados, carne seca, lombo, bacon e paio defumado, afora a tradicional lingüiça para feijoada. Juntado a todo isso é indispensável folhas de couve, laranjas, farofa ou farinha de milho torrada, tempero verde – alho, cebola, salsa, cebolinha, vinagre e pimentão. Para completar, suco de limão, bastante pimenta malagueta e cebolinha bem picada.

Esta é a autêntica feijoada de sabor tropical. Com um detalhe: tudo deve ser preparada na véspera, para que fique bem apurada. Deve-se ficar atento aos mínimos detalhes. A atenção é o complemento do tempero. Como afirma o amigo Feliciano Félix, conhecido na sua cidade como Fefé, gastrônomo de respeito. Aos finais de semana a Feijoada do Fefé, que só funciona aos sábados fica lotado pela clientela é numerosa, variada e cativa. 

Fefé é o mestre da feijoada. O preparo dessa iguaria é um autêntico ritual. Não deixa escapar nenhum detalhe. É uma lição vê-lo preparando a feijoada. Cada vez ele inova, adicionando algo mais para acentuar o sabor. Por isso mesmo a sua feijoada tem marca registrada! É única.

Sua fama nunca parou de crescer. O bar é um ponto referencial nos finais de semana. Por lá passa gente importante, sobretudo políticos. Até um governador do estado, numa de suas visitas à cidade, movido pelos comentários já visitou aquele frequentadíssimo recanto.

Na Feijoada do Fefé, enquanto a roda de samba agita a manhã/tarde de sábado e o bate papo vai ganhando fôlego, cada um dos frequentadores procura se servir da feijoada a seu modo. Lá não existe garçom. O dono, anfitrião sempre bem humorado não sai do balcão, apenas despacha cervejas, aperitivos e recebe o dinheiro. Um detalhe do perfil daquela figura pitoresca: Não é difícil vê-lo brincando com a dentadura superior no interior da boca, empurrando-a com a língua de um lado a outro.

O bar e seu dono têm muitas histórias. Uma delas fala de uma trapalhada, protagonizada por ele. Certo dia um ingrediente exótico foi juntar-se à feijoada em fase de preparação. No entanto, o que aconteceu antes de começar a comilança, só Fefé e seu auxiliar, Arnaldo Cacimba, foram testemunhas e muito tempo depois o próprio Arnaldo me contou, sem pedir segredo, talvez por achar ser algo absurdo e ninguém iria acreditar.

Segundo ele, Fefé estava mexendo o imenso caldeirão de feijoada despreocupado fazendo joguete com sua dentadura, quando foi tomado de surpresa por um espirro, provocado pelo cheiro forte da cebola. Tudo muito rápido! Lá se foi a dentadura superior parar dentro do caldeirão borbulhante. Sua agilidade não foi suficiente para conseguir evitar o mergulho da peça no caldeirão. Tentou pescar a peça íntima com a grande colher de pau. Quase conseguiu, é verdade! Mas, quando foi tirando-a de dentro do caldeirão fervente, aquele corpo estranho estava derretendo e começou escorrer para dentro da feijoada.

Segundo Arnaldo Cacimba, Fefé, com a mão na boca, dizia aos cochichos com sua boca de fole e num tom entre desesperado, irônico, apreensivo e preocupado:

– É material de péssima qualidade. Ainda bem que tenho outra peça. – Nada mais podia ser feito. Era amargar o prejuízo ou terminar de fazer a feijoada, como se nada houvesse acontecido. Optou pelo caminho mais curto.

Dia seguinte, quando a comilança foi iniciada, nenhuma reclamação. Tudo era alegria. Ninguém notara coisa alguma. Apenas um detalhe: entre um aperitivo e outro, um freguês, sujeito chato, encostou-se ao balcão para pagar a conta e gritou já meio de fogo:

– Pô, Fefé, vamos inovar, mas não com tanta originalidade. Usar até os dentes do porco na feijoada. É demais!

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