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Quinta-feira, 10 de agosto de 2017
O DESTEMOR DO PADRE JACÓ

DESDE QUE FOI ordenado, o padre alimentava o sonho de desenvolver um trabalho de efetiva ajuda e assistência aos fracos, pobres e oprimidos. Tempos difíceis aqueles da primeira metade do século 20. A ignorância e a brutalidade davam o toque mais forte para se comandar a vida. Era a luta pela sobrevivência! A fé mantinha a todos e substituía, por momentos, abrandava os contornos da ignorância.

Padre Jacó empreendia todo e qualquer esforço para conduzir seu rebanho à igreja e convencer a todos da importância de se manter a fé. Não desistia, mesmo diante de obstáculos, como da vez que tentou convencer um tal Tenório a frequentar a Igreja.

– Tenório, você precisa ir à igreja, meu amigo. Aproximar-se mais de Deus. Não tenho visto você nas missas, o que tá havendo? – Perguntava ao caboclo que era o símbolo da brutalidade e da ignorância. A resposta de Tenório foi pesada, mesmo assim padre Jacó se manteve insistente para trazer aquela ovelha desgarrada ao rebanho

– Oi pade, o sinhor tá perdeno seu tempo. Num vô largá meu trabaio não. Já sei como vai ser quano eu morrer. Num tem aquela reza lá qui diz: "...assim na terra cuma no céu...?” Então? A gente passa a vida intêra quebrano peda aqui imbaxo e quano morrer, se for prêsse tá de céu, vai continuar na merma lida. Brigado, pade, já tô sabeno de tudo. Tem futuro não! Num sabe?

O padre Jacó sabia que para ser forte e fazer crescer sua igreja, teria que adotar uma postura que fosse o contrário da mansidão, além de muito trabalho pela comunidade. Afora isso, para defender seu rebanho era necessário sobrepor-se aos coronéis da política em poder, força e votos.

Sua fama foi se alastrando Nordeste afora. Enfrentou os maiores obstáculos políticos, chegou a ser vereador, prefeito e deputado. Nas horas vagas ainda era parteiro, médico, juiz de paz, promotor e solucionava casos difíceis na sua comunidade.

Nos embates políticos, tinha resposta para tudo e não levava desaforos sem dar o devido troco. Sua fama atravessou as fronteiras da diocese, cujo bispo se sentia desafiado constantemente e chegou ao Vaticano, exatamente onde ele pretendia chegar um dia para estar frente a frente com Sua Santidade, o Papa.

Seu trabalho era muito importante e incomodava a todos. Ele sabia disso, a ponto de se colocar em posição subliminar. Todavia, não perdia a oportunidade de dar o tom do deboche, como fez uma vez em discussão com o bispo quando se sentia ameaçado: "Eminência, como diz o poeta nordestino, isto é apenas a volta do cipó de boi nas costas de quem um dia mandou dar”.

Era famoso, também, pelas suas tiradas repentinas e trocadilhos, que usava tão bem para dar um toque humorístico e até cativava os presentes que não o deixavam de admirar. Ademais sua fama assim o recomendava.

Uma destas tiradas espirituosas e ao mesmo tempo satírica aconteceu ao se despedir do bispo diocesano, após uma audiência. Sua eminência despedindo-se do padre Jacó, enquanto abria a porta da sala, disse em tom bem acentuado, brando e exclamativo:

– Deus de acompanhe, insigne partinte! Ao que o padre Jacó respondeu em cima da bucha e de forma bastante solene:

– Jesus fique contigo, insignificante!

Depois do feito, deu-se conta do duplo sentido da frase e o jeito foi se redobrar em desculpas à sua eminência, mesmo a contragosto.

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