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Sábado, 2 de setembro de 2017
MARTELADAS

Sou insistente, tento manter meu raciocínio, enquanto no andar abaixo do meu, o pedreiro e seu ajudante continuam a quebrar paredes, cerâmica e sei lá o quê, a fortes marteladas. São pancadas fortes que fazem estremecer paredes, piso! Todavia, continuo insistindo em escrever e até busco inspiração nestas marteladas, sons desgarrados de uma grande explosão, com a diferença que elas perturbam muito mais pela continuidade.

Ainda bem que não sofro da tal dor de cabeça, enxaqueca ou coisa assim. No entanto, é desesperador e inquietante, mas tenho de manter a calma, mesmo sentindo que cada porrada dessas estremece tudo à minha volta. Martelas! Sons singulares que irão se juntar a toda barulheira do mundo, ecoas em meu cérebro abalando a linearidade dos meus pensamentos e repetem o impulso para que procure outro lugar.

Por vezes, o pensamento falha com tantas notas musicais esparsas que não formam nenhuma melodia. Martelada, forma mais expressiva para nos lembrar daquela pessoa inoportuna e irritante que tentamos dela nos livrar, mas que continua incomodando e insiste em ficar azucrinando o nosso juízo. Agora, suportando essas marteladas abaixo dos meus pés tento dá-lhes a resposta com paciência.

Marteladas são como as porradas que recebemos quando crianças, por causa de qualquer traquinagem e aqui me reporto ao escritor mineiro Nélson Faria que em uma passagem do seu livro Cabeça-Torta, narra o castigo aplicado pela mãe ao pequeno Juvenal: “As palmadas e os cascudos que ela aplicava às nádegas minguadas e à cabeça do menino magro e sonhador, eram muito menos dolorosos do que ela supunha.” Agora sinto-me igual a Juvenal e sonho com o silêncio.

Da mesma forma são essas marteladas intermináveis, como a lentidão de uma lesma. Por isso mesmo, procuro ouvi-las e buscar detalhes para esta crônica, e por isso mesmo, sou insistente, como o personagem Juvenal do livro. Se ele sonhava com um futuro melhor, saindo da pobreza em que vivia, tudo começava a mudar quando foi mandado pelo pai, Belarmino, estudar em Montes Claros, com a irmã Corina. Daqui eu não saio, porque acredito que tudo vai mudar.

Marteladas! Chicotear de dor constante cravejando minha mente. Espero que os autores de tais pancadarias lá em baixo terminem logo, para que o silêncio volte a reinar e me deixe apenas com o trinar dos pássaros, mesmo que seja uma melodia triste, mas que ao menos acalenta meu espírito elastecendo o meu pensamento. Por isso mesmo, sonho com o amanhã sem estes sons malditos que insisto continuar ouvindo, mesmo que seja até terminar essa crônica. Fui!

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