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Sexta-feira, 24 de novembro de 2017
A Matemática da administração pública

COM CERTEZA ela é bem diferente. Os resultados nunca são os mesmos da matemática convencional. Quem se aventurar em entender os intricados cálculos vai precisar de bastante exercício. Um amigo comparou-a a um longo extrato bancário, mas é vinte ou trinta vezes pior. Os números da administração pública nunca serão exatos, mesmo com o rigor da Lei de Responsabilidade Fiscal. Na maioria das vezes é preciso usar o raciocínio indutivo para se chegar a um entendimento sobre arrecadação, divisão de recursos, uso de verbas públicas e mais complicadas se forem convênios.

Nessa matemática nunca dois mais dois são quatro, pode ser menos ou mais, depende do administrador. Quando a coisa envolve títulos públicos em pagamento de dívida complica bastante. Nesse caso a matemática convencional nunca funciona, nem mesmo a usada por prefeito ou governadores esclarece coisa alguma.

Na abordagem das questões mais complexas, de maneira a se ter o raciocínio indutivo, a correlação de valores na administração pública sofre uma grande mudança. Por exemplo, não fique boquiaberto se alguém lhe provar que 250 mil é maior que 350 mil, e essa diferença some misteriosamente. Ou seja, só consegue assimilar isso quem está familiarizado com o conceito de gerenciamento da coisa pública. É comum! O importante é que o propósito tenha servido para pagamento de dívidas contraídas junto a pequenos e médios credores. Menos mau! Tudo é uma questão de acomodação, embora existam algumas pessoas que não queiram assim entender a questão.

Quando se tenta raciocinar à luz das probabilidades matemáticas da administração pública, com certeza não se chegará a um entendimento, mesmo que superficial, de algum problema de equivalência de valores, como no caso acima. Toma-se um choque – por vezes o entendimento chega muito tarde para algumas pessoas; corre-se até o risco de sofrer um curto circuito.

Malba Tahan – pseudônimo do professor e escritor Júlio César de Melo e Souza –, o homem que calculava como ninguém, exímio matemático que nos deixou problemas curiosíssimos, vistos por outro ângulo da matemática, pode explicar melhor o intricado problema da administração pública. Tudo é uma questão de simples acomodação numérica. De antemão, tenha-se como factual que em administração publica tudo é possível, como nos tempos do império dizia o conde Maurício de Nassau, aquele que fez até boi voar.

Mediante o emprego de novas fórmulas matemáticas, muitas vezes +10, isto em valor real absoluto, pode ser transformado em -45, no entanto se eliminados os excessos e sabendo-se que sinais iguais são iguais a mais e que sinais diferentes são iguais a menos, temos a questão proposta de que +10 -45 serão iguais a -6, evidentemente pelo método do administrador público. Logo, o chefe do Poder Executivo pagou o muito que devia com menos dinheiro e sempre alguém sai no lucro. Logo, por que então R$ 2,5 milhões não pode ser maior que R$ 3,5 milhões, mesmo que último tenha um valor real absoluto de R$ 5,5 milhões? Ninguém precisa saber essa verdade. É elementar! A dança dos números da administração pública é terrível!

São fórmulas matemáticas que não precisamos entender. Basta se saber que o dinheiro entrou e que sumiu pelo ralo para algum esgoto, ou melhor, para algum tanque onde será lavado. Só assim teremos o pleno conhecimento para que serve a tal matemática administrativa. Se não for assim, jamais se entenderá uma questão simples como 10 + 10 não são 20 e faltam 50 para ser 11. O trocadilho complica, mas se explica.

Certa feita, um assessor de um prefeito espertalhão lhe fez essa mesma pergunta, querendo testar a capacidade do seu chefe e amigo. O prefeito pensou bastante, pois era bom tanto na sua matemática, quanto na tradicional, mas não chegou a lugar nenhum. Usou complicadíssimas fórmulas, até que o assessor disse:

– Ah! Mestre tá perdendo muito tempo. Dez mais dez não são vinte e faltam cinquenta pra ser onze, quando são horas de relógio. Ou seja faltam 50 minutos para as 11 horas. – Só então o prefeito se deu conta da pegadinha. E exclamou:

– Putz grila! E eu pensando que você estava falando desses complicados manejos matemáticos que temos de fazer para desviar algum recurso para o caixa 2.

Na administração pública, muitas vezes, as coisas funcionam como miragem no deserto: estão no lugar que não existe e onde nunca foram colocadas. Os experts da Operação Lava Jato estão tentando desvendar os mistérios. Em resumo, não são feitas para que todos entendam. Aí reside o segredo, o caminho das pedras a ser encontrado por quem venha assumir o comando do erário. E pior ainda, terá que utilizar a fórmula certa e a matemática tradicional para resolver a complicada equação com a qual venha se deparar.

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