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Quinta-feira, 21 de dezembro de 2017
O colecionador de retalhos

Ele era assim: caboclo novo e muito esperto. Contava que era dos mais fogosos no tempo da juventude. Não podia ver uma mulher, partia logo para a conquista, na tentativa de satisfazer seu incontrolável desejo sexual. Ao longo dos anos, viveu inúmeras histórias.

Ainda rapazote deixou sua cidade no interior do nordeste em companhia de sua mãe – viúva nova, em pleno fulgor da juventude. Foram busca de novos horizontes. Ela juntou as parcas economias que lhe sobraram e comprou duas passagens em um caminhão “pau de arara” – transporte comum naquela na época. Seguiram para o Rio de Janeiro, terra da promissão naquele começo dos anos 50.

Foram 25 longos dias, mas para ele era diversão, principalmente à noite. O caminhão levava mais de 30 passageiros, sobrando pouco espaço nas bancadas de madeira, improvisadas na carroceria sob uma cobertura de lona.

A boleia dupla era a primeira classe, pagava-se muito caro por um mínimo de conforto. Se os dias eram longos, as noites para matar o cansaço eram curtíssi-mas. Todos se acomodavam da melhor forma, tão logo o motorista esta-cionava, quase sempre num aceiro da estrada, próximo a árvores. Eram locais excelentes para se armar rede ou forrar uma esteira pra dormir, fazer uma fogueira e preparar a alimentação.

Apesar de curtas, as noites – segundo ele – eram divertidas, principalmente de-pois do quinto dia de viagem, quando todos já se identificavam e havia um clima de intimidade variável e até sobrava tempo para contar algumas anedotas. Rapaz fogoso, libido sexual a todo vapor, era difícil manter o controle, principalmente naquela viagem onde havia algumas mulheres.

Quando todos se acomodavam para dormir, mulheres num canto e homens no outro, ele estudava como agiria para atacar sua libidinosa vítima. Noite escura como breu. Ninguém saberia distinguir quem era quem. Tanto melhor para che-gava até à rede ou esteira e iniciava o silencioso jogo de sedução. Um pequeno toque nós pés, um alisado nas pernas. Uma apalpadela aqui, se a vítima não recusasse, um outro mais acima até que a mulher dava sinais de desejo, estágio máximo para a concretização do seu intento, um ato sexual perfeito.

A curiosidade sempre foi uma marca fundamental daquele jovem. Resolveu tirar de sua voluptuosa vítima, sempre que conseguisse transar, algo que a identificasse no dia seguinte. Ela não saberia quem tinha sido seu desejado tarado. Portanto, ao concluir seu ato, discretamente, com uma tesourinha, cortava um pedaço da barra da saia da mulher, para conferir mais tarde. Era um colecionador de retalhos! Eram os troféus da luxuriante façanha daquele rapaz que desejava, como ninguém ver o cair da noite.

Entretanto, daquela viagem ele carregava um grande trauma. Nunca se perdoou de haver cometido um erro. Afinal, depois do feito, o remédio é a consolação ou o desespero. Optou pelo primeiro. Faltavam dois dias para que o caminhão pau de arara chegasse ao Rio de Janeiro, mais uma parada, outra deliciosa noite para as façanhas daquele jovem fogoso.

Quando todos foram para seus cantos, alta madrugada ele resolveu atacar. Aproximou-se de uma das redes e começou o ritual de sempre. A pele macia de sua vítima exalava um cheiro gostoso, isso o deixava mais excitado. A mulher, demonstrando sua carência sexual, deixou-se levar pelo êxtase inebriante do desconhecido tarado, cuja fama algumas comentava aos cochichos.

Mais um pedaço de tecido de uma saia para sua coleção. Ao nascer do dia, levantou-se tirou o pedaço de pano do bolso e ficou aguardando o movimento das mulheres, como sempre, para conferir. Não conteve seu espanto ao ver quem tinha sido sua vítima e exclamou: – Oxente! Eita porra, eu comi mãe!

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