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Terça-feira, 17 de abril de 2018
DIÁLOGO INSÓLITO

O clima não era nada amistoso depois de tudo que havia acontecido entre ambos. Além do mais, a brutalidade norteava aquele instante de enfrentamento de duas pessoas amigas há tanto tempo.

Eram pessoas brutas, incultas nas letras, embora sábias na troca de acusações e nas interpretações da vida simples. Verdadeiras! Tipos assim eram admirados pelo grande pesquisador da cultura popular nordestina Luís da Câmara Cascudo, um grande entendedor dos falares do povo.

Ali não importava os floreios da língua, mas os falares do povo humilde, com a intelectualidade natural do matuto que sabe traduzir sentimentos com a força das suas expressões.

Era um diálogo insólito, mas sincero, apesar de cacofônico. Depois de muito conversar os dois chegaram a um acordo para retornar ao velho ritmo da amizade.

– Discupi intão.

Afirmou Joaquim depois que o amigo foi tomar satisfações, sentindo-se magoado com o acontecido recente.

– Tu num tinha o direito de mi atacar por trás.

– Má rapai, eu só brinquei daquele jeito pruque tu falô qui num ia me pagar.

Finalmente entendi que se tratava de calote ou coisa semelhante. Continuei escutando, disfarçando riso e escancarando bem os ouvidos.

– Aquele fila da puta do Zé Gomi ficou gozano o tempo todo na minha cara.

– Num sei pruque tu tá assim. Quem meteu o pau em você pur ditrais foi o Manezim de seu Tota. E tu num disse nada.

No meu entendimento a coisa começava a se complicar. Se eu não fosse um bom entendedor dos falares daquela gente simples eu pensaria outra coisa.

– Cê besta, rapai. Pensei qui tu num ia ficá chatiado. Foi só u’a brincadêra.

– Toma essa merda de dinheiro. Tão cedo num vô isquecer o qui você me fez.

Aquilo foi uma tapa no amigo que se sentiu muito mal em ver uma amizade tão antiga prestes a ser terminada por uma brincadeira. Naquela hora valeu a interferência de terceiros que conheciam os dois e resolveram apaziguar os ânimos. Conseguiram que voltassem às boas e se dessem um abraço afetuoso se seguindo um pedido de desculpa e um brinde no melhor estilo de confraternização.

– Então, meu amigo, discupi se eu lhe feri por trás e te machuquei por dentro! Mai num era minha intenção.

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