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Domingo, 7 de julho de 2019
Reaprendendo o Nordestinês

Lembrando-me do extraordinário folclorista norte-rio-grandense Luís da Câmara Cascudo, vejo-me às voltas com o complexo falar da gíria do Nordestinês - idioma próprio dos fa falares do povo do Nordeste, tão apreciado, sobretudo no período junino. É uma cultura diferenciada e que muita agrada e nos faz rir.

Pra matar a saudade fui ver minha querida Campina Grande (PB) – a terra do Maior São João do Mundo. Fui em direção ao Parque do Povo, encontra amigos. No calor da folia junina escuto alguém gritar – “Oxe, mãinha, aquele ali de camisa xadrez é Gonzaga fio de dona Nina”. Virei-me pra conferir e, mesmo com o passar dos anos reconheci-o.

Aproximei-me da barraca onde ele estava. Sou eu mesmo Araújo. O cabra da peste me olhava com os olhos arregalados. Entrei no embalo dos falares da minha terra. Cumprimentar os que estavam com ele, inclusive sua mãe, dona Severina.

– “Eita mulesta, danôsse, tu é o primeiro daquela nossa tropa antiga que eu encontro. – Comentou Araújo – Tu arredõ o pé daqui, sumiu. Deixe de pantim, me dê cá um abraço.

Danou-se a falar e a me apresentar as pessoas. Pegou o telefone, ligou para outros amigos falando da minha presença. – Oia, arrudeia e senta qui e num arrede o pé porque hoje o dirmantelo vai ser grande, visse! A mundiça dos amigo tá chegando.

E mudou de tom: – Homi a donde foi mermo qui tu foi amarrar teu jegue? – Expliquei que desde que sai de Campina Grande moro em Boa Vista capital de Roraima. Demorou pouco tempo e começaram a chegar velhos amigos. Outro abestalhado que ficou espantado foi um velho parceiro de imprensa:

– Que presepada é essa! Tu aparece assim sem avisar. Eita catrevagem! Mai rapaz, a gente nunca mais se falou derna qui tu pegou o beco. –  E olhando bem pras minha cara alarmou-se: – Oxente, e num fica veio não, pelo jeito tu se deu bem lá pras banda de Roraima.

E haja chegar uma ruma de amigos. Iapois, vamos então comemorar, gritei. A mãe do Araújo já estava nos servindo comidas juninas. – Deixe de aperrei e num se avexe. –Disse o recém-chegado Arnaldo. –  E o cortejo ia aumentando, o que me deu muita satisfação em ser bem recebido por aquela tropa.

E todo mundo entrou naquele mesmo compasso do Nordestinês, como a gente diz lá, virado na gota serena. Cada um que quisesse contar uma prosa e me deixar a par de tudo. Foram histórias maravilhosas, cada um que falasse mais alto e eu tive que me esforçar para acompanhar as gírias engraçadas que fazia muito tempo que não ouvia.

Eram coisas do tipo: “virado na peitica”, que é quando o cabra fica muito brabo; “fi duma égua”, modo carinhoso de chamar o cara de filho da puta; maluvido, quando não está nem ouvindo o que o outro tá dizendo; “Varei”, tom de dúvida e exagero por não acreditar no que se está dizendo.

Lá pras tantas chega o meu irmão Neu com o filho que vai logo dizendo: bença tio. E os amigos olhando para o mano dizem: – Mai espia, o Neu é cagado e cuspido a fuça do vei Gonzaga. Fiz um gesto de meio brabo e outro gritou: – Dexa de brabeza, miserave, o bom mermo é qui tu é arriado os 4 pineus por essa tropa e essa terrinha. Né verdade?

Para o riso geral eu gritei: vôti, disgrama qui diabéisso! Tudo muita brincadeira que se arrastou durante horas ouvindo as mais belas músicas juninas e muito Nordestinês. Lá se fala pitoco e não botão, pixototinho ao invez de miúdo. Lá resto e franzino é xôxo, estranho é tronxo; medroso é frôxo, coisa ruim é peba; rir dos outros é mangar, entrar sem licença é imburacar.

É muita coisa louca que me levaram ao passado e ligações fortes com minha terra e minha gente. Deram-me até uma cartilha do Nordestinês recomendando que eu não esquecesse as raízes. Volto a lembrar do folclorista Câmara Cascudo quando deixa claro que mesmo se falando errado expressa a coisa certa.

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