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Quarta-feira, 14 de novembro de 2018
TRAÍDO PELA SINUCA

ERA meio de semana. Sempre me encontrava com alguns amigos no Salão Bola de Ouro, em João Pessoa (PB), para jogar umas partidas de sinuca. A peleja arrastava-se até altas horas da noite. Certa feita aparece no local o amigo Amaral Emerenciano, brilhante advogado, um bom taco, mas que por imposição de sua mulher Suzana havia abandonado de vez a prática desse esporte há muito tempo.

Ficamos surpresos com a visita. Era quase meia noite e estávamos de saída, mas sobrava tempo para trocar umas ideias. Fomos até o bar da sinuca, onde ele nos contou o porquê da aparição repentina naquele local onde fora assíduo frequentador.

Em três anos de casado, nunca havia traído sua mulher. Naquela noite, cometerá esse deslize fazendo amor com sua secretária Adriana. Como não era afeito a mentiras e a fidelidade era o seu lema, não sabia como se comportar com dona Suzana ao chegar em casa.

– Com certeza ela vai estar me esperando, porque eu nunca cheguei a essa hora, mesmo quando jogava sinuca. – Comentava preocupado.

Ficamos surpresos mais ainda, pelo fato dele haver se envolvido sexualmente com sua secretária Adriana, mulher por quem dona Suzana “botava a mão no fogo”. Não era uma pessoa de grandes dotes físicos, apenas engraçada. Não bonita. Seu modo de vestir era bastante conservador e não deixava realçar nada que atraísse um cidadão como Amaral. Todavia, como tudo tem seu dia, aconteceu!

Amaral contou-nos que ao sair do escritório, às 18h30, estava chovendo muito forte e até chegar ao seu estacionamento, ficou completamente encharcado. E pensava consigo: “quem vai pra casa não se molha” e aceitou o fato com naturalidade. No entanto, ao passar em frente ao escritório, viu Adriana na calçada sob a marquise, esperando a chuva passar. Resolveu dar-lhe uma carona, afinal iria à casa de um cliente que ficava no mesmo destino em que ela residia.

Ao chegar ao prédio onde morava, Adriana o convidou a subir, prontificando-se a secar seu terno no secador de roupas, afinal estava bastante molhado. Era questão de minutos. Homem tímido, resistiu à ideia, mas acabou aceitando. Vestiu um roupão e enquanto o terno enxugava Adriana lhe ofereceu uma dose de uísque para esquentar o frio.

– Ficamos conversando um pouco e acabei tomando outra dose e minha secretária entrou também no embalo. Foi quando a coisa foi acontecendo. – Confidenciou Amaral. Meio confuso, ele argumentava conosco querendo se justificar:

– Gente, eu nunca traí minha mulher. A princípio pensei em mentir ou inventar uma história qualquer, mas sequer liguei pra casa.

Aquele era o velho Amaral de guerra, tímido, respeitador, fiel e conservador. Disse-nos ainda que após tanto quebrar a cabeça, decidiu contar a verdade a dona Suzana, mesmo que sacrificasse o seu casamento.

– A fidelidade sempre foi o ponto forte da minha união com Suzana. – Reforçava. Por isso tinha ido nos procurar para ouvir nossa opinião. Um dos amigos sugeriu que uma mentirinha na vida não poderia fazer mal a ninguém. Você vai estragar o seu casamento se contar a verdade. Levantou-se pegou um pedaço de giz branco, colocou-o na orelha de Amaral – estilo bem clássico dos bons jogadores – e ainda passou as mãos sujas de giz no paletó azul marinho e arrematou:

– Pronto Amaral, você chega em casa e diz que estava jogando sinuca conosco. Nada de dizer que transou com a secretária.

Dia seguinte nos encontramos e ele me revelou. A caminho de casa resolveu não mentir para sua mulher. Estava disposto a arcar com as consequências. Ao entrar Suzana estava na sala e antes que ela perguntasse alguma coisa foi contando o acontecido. Suzana ouviu tudo em silêncio e pouco a pouco parecia que ia explodir de raiva e indignação. Quando terminou de contar o caso, Suzana encarou-o, puxou-o pela gola e disse:

– Amor, tenha vergonha na cara. Como você tem coragem de levantar uma calúnia dessa a dona Adriana, uma mulher que lhe tem o maior respeito. Ainda quer que eu acredite nessa história sórdida e imunda. Por que não diz logo que estava novamente na maldita sinuca. Seu aspecto não nega e por cima deu pra mentir.

Amaral tinha esquecido de limpar a roupa tirar o pedaço de giz de trás da orelha, portanto a verdade virou mentira.

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