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Segunda-feira, 19 de março de 2018
O ADVOGADO MALANDRO

MERITÍSSIMO JUIZ de paz, senhoras e senhores jurados. – Exclamou o advogado após ouvir as argumentações do promotor Ad Hoc, e folhear vários livros de Direito, iniciando a defesa de uma questão movida pelo seu pai, o fazendeiro Agostiniano, contra um vizinho que invadiu parte de sua fazenda no alto Sertão da Paraíba.

Formado em Direito no Rio de Janeiro, no começo do século 20, o moço só se preocupou em gastar a mesada que o pai mandava. Não sabia absolutamente nada da profissão que escolheu por imposição do pai. Na capital carioca, gastou seu tempo em farras. Era um especialista em malandragem, à custa do dinheiro que recebia regularmente, porém nada de estudos.

Ainda bem que entrou na faculdade antes de ser instituído o exame de vestibular – o que aconteceu a partir de 1911, por força de lei elaborada pelo ministro da justiça e dos negócios interiores, Rivadávia da Cunha Corrêa. Desde sua entrada na Faculdade, sempre dava um jeito de conseguir notas razoáveis. Às vezes, ele se perguntava como havia chegado até ali. Muita malandragem!

O dia do teste chegou. O pai dele escreveu informando que o vizinho havia invadido faixa de terras de sua fazenda. Sabendo que faltava pouco tempo para o filho se formar, iria esperar mais um pouco para executar o invasor no tribunal.

– Pai, se é assim, então me mande dinheiro. Eu preciso comprar muitos livros e me preparar para a formatura.

Pedido atendido, dinheiro chegando e tome farra. Semanas antes do seu retorno, volta a pedir mais dinheiro ao pai. Começou a comprar livros de tudo que existia em matéria de Direito. Afinal, quando chegasse à sua terra teria que justificar os gastos e fazer bonito, afinal era um advogado formado no Rio de Janeiro.

– Mande transporte para buscar minha bagagem, É muita coisa! E marcou o dia da chegada. – Dia aprazado lá estava o comboio de cinco carroças de tração animal esperando o Grande Advogado – como já era conhecido na comunidade.

A caminho da cidade, ia pensando numa saída para aquela enrascada. Tentava ensaiar alguma coisa e pensava usar o Latim a seu favor, dentro do melhor estilo do Direito Romano. Sabia que num pequeno lugarejo como aquele, ninguém iria entender nada, salvo talvez, o juiz ou o promotor, mas tinha de ter coragem. Recuar não podia.

Contemplando a paisagem campestre tão familiar, ele avista no matagal um bode trepando nas ancas de uma cabra que estava no cio, deixando à mostra seu órgão sexual enrijecido. Diante da cena exclamou em voz alta: – Et bodis e boderuns, calangus atrás!
O rapaz que ia conduzindo a cherrete assusta-se e pergunta o que tinha acontecido.

– Nada não. Estou treinando o meu Latim. – Respondeu o advogado rindo. Mais adiante, um porco fuçava no lamaçal. Ele observa e resolve criar um outro palavreado:

– Et fuças e fuças et cutimpim! – Riu novamente. Estava ficando interessante. Pouco mais à frente, avista dois macacos brincando num quintal de uma casa pulando entre os galhos de uma árvore. Aproveitou para mandar um outro improviso absurdo:

– Em altus paus redunderum! – Uma risadinha maliciosa ajudava-o no tratamento das ideias. O rapaz que conduzia a charrete estava admirado com o advogado, filho do patrão.

Chegam ao local do julgamento. Pequena multidão aguardava o ilustre recém-chegado que imediatamente manda descarregar os livros e levá-los para dentro da sala. O cenário era perfeito.

Aberta a sessão, fala o promotor Ad Hoc. Chega a vez do jovem advogado. Ele vai até sua mesa repleta de livros. Abre o primeiro, o segundo, outro e mais outro volume, folheando-o atentamente por alguns segundos. Vira-se para o juiz de paz e em tom solene, erguendo o queixo num ar de superioridade, afirma:

– Meritíssimo juiz, senhores jurados! Ao tratar a questão da posse da terra adquirida com tanto esforço e invadida de assalto, faz-me lembrar as palavras de Cícero, o pensador e orador romano: Et bodis e boderuns, calangus atrás! Et fuças e fuças et cutimpim! Em altus paus redunderum!
Surpreso, o promotor nomeado, conhecedor mediano do Direito, vira-se para o juiz e afirma em tom de cochicho:

– Acho melhor vossa excelênça fechar a questão, porque esse advogado aí vem do Rio de Janeiro e sabe um latrim danado e vai deixar a gente todo inrolado!

O pedido aceito e a questão encerrada. Ganhou o jovem advogado malandro.

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