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Terça-feira, 25 de agosto de 2015
MISERICÓRDIA

Estava dando uma geral na estante, quando me cai nas mãos um exemplar da história da Paraíba. Abro-o aleatoriamente e me deparo com um trecho curioso da historia do município de Itaporanga – no alto sertão parraibano – que até 1943 lideranças políticas alimentaram uma polêmica para se definir o verdadeiro nome do local.

Uns queriam o nome de Misericórdia. Era assim chamada a cidade desde 1765, graças ao desbravador português Antônio Vilela de Carvalho, que ali construiu sua casa de morada à margem do Rio Piancó. O nome consolidou-se após a Santa Casa de Misericórdia de Portugal doar uma imagem da Virge à igreja construída pelo sertanista João Madeiro. A santa ainda está lá – faz muito tempo, logo assim presumo.

Em 15 de novembro de 1938, a cidade foi denominada Itaporanga (Pedra Bonita) pelo Decreto-Lei Estadual 1.164, assinado pelo interventor Praxedes da Silva Pitanga. Em 1943, a cidade voltaria a ser denominada Misericórdia. E em 7 de janeiro de 1949, Praxedes Pitanga, novamente, devolve definitivamente o nome de Itaporanga.

Está no folclore regional, uns dizem ser verdade, outros que são apenas falácias. No entanto, conta-se até que os católicos ao rezarem a “Salve Rainha” não diziam: “Salve rainha, mãe de misericórdia...” e sim, “Sal rainha mãe de Itaporaga”. Historiadores, como Praxedes Conserva, manifestavam seu repúdio pelo nome Misericórdia, dizendo ser um atraso para a cidade.

Ali, na segunda metade do Século 20 – não serei mais preciso para não incorrer em erro cronolígico – aconteceu um fato curioso protagonizado pelo brilhante tribuno cearense/paraibano Raymundo Yasbeck Asfora. Ele havia sido constituído para defender em júri popular um acusado de hominídio. À época Itaporanga pertencia à comarca de Piancó. Por ausência de promotor, o juiz nomeou um advogado da cidade. Antes do júri ele gostava de uns tragos de aguardente pra esquentar as palavras. Isso o deixava meio avermelhado.

O tribuno Raymundo Asfora que conhecia a fama do seu adversário, em sua fala, após ouvir-se a acusação do promotor (ad hoc), resolveu colocar um pouco de pimenta nas palavras fazendo um trocadilho onde dizia encerrando o seu discurso:

– Eu não vim a Itaporanga pedir misericórida para o meu constituite. Vim a Misericórdia pedir que se faça justiça, concedendo clemência a esse cidadão injustiçado. Tenho dito!

Em seu canto, o promotor que sempre fora contra o nome de Misericórdia, estava vermelho de raiva. Quase perdeu o equilíbrio ao se levantar. Mesmo sem a permissão do juiz e de dedo em riste gritou:

– Doutor Raymundo Asfora, eu sou um trator e vou esmagá-lo! – Asfora ia caminhando para sua mesa, mas ao ver o estado do seu oponente, completa fulminantemente:

– Só que com esse combustível vossa excelência nunca chegará até aqui. – Risos incontroláveis tomaram conta da plateia. Imagine trator movido a álcool.

Gonzaga de Andrade

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