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Sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018
IRRESISTÍVEL TENTAÇÃO

FAZIA EXATAMENTE um mês que eu havia parado de fumar. Foi a segunda tentativa. Era agosto de 1987. Enfim, eu estava fazendo todo o esforço possível para largar o danado do cigarro. Aquilo pra mim foi uma lição inesquecível.

Hoje vejo o quanto é difícil se tentar de uma só investida, abandonar o maldito cigarro. Apesar de todos os percalços resolvi submeter-me a esse esforço, embora eu fosse um fumante compulsivo há 18 anos.

Naquele dia eu me encontrava no aeroporto de João Pessoa (PB), de onde embarcaria com destino a São Paulo. Minha preocupação era sentar na ala de não fumantes, pois naquela época ainda era permitido fumar dentro do avião.

Eu sabia que se sentasse no lado errado seria fatal, uma tortura, um golpe ao qual não sabia como iria reagir. Todo esforço eu fazia para me manter afastado do diabo do cigarro e na hora do check-in, falei com a atendente que eu não era fumante.

– Senhor, a companhia reserva toda a ala direita do avião aos não fumantes. – Informou que os acentos seriam determinados de acordo com a ordem de entrada de cada passageiro.

Tudo bem! O lado direito. Quando foi dada a ordem de embarque fui um dos primeiros em busca de um bom local, preferencialmente numa das janelas. A aeronave estava quase lotada, por ser um voo de escala. Procurei acomodar-me na poltrona mais próxima que encontrei à minha direita. Sem desconfiar que ali começava meu grande tormento.

Na pressa, sentei-me exatamente na ala dos fumantes. A dislexia me venceu. Eu não havia atinado, mas o lado direito do avião é o esquerdo de quem entra. Quando foram apagados os avisos luminosos, para o meu desespero começou o fumacê. Foi quando notei a mancada que havia cometido.

À minha frente, uma senhora fumava um cigarro atrás do outro. Ao seu lado direito, um cidadão também não fazia por menos. Não tinha saída! Tentava me controlar a todo custo. Chamei a aeromoça e pedi uma dose de uísque. Talvez aquilo reduzisse meu anseio. À medida que ingeria a bebida, a vontade de fumar aumentava. Comecei a tremer e pelo jeito como o cidadão ao meu lado me olhava, eu sentia que ganhava uma palidez cadavérica.

– O senhor está se sentido bem? – Perguntou-me o cidadão, para quem apenas olhei e nada disse. Apenas tremia. Era a ânsia incontrolável de fumar que me dominava. Eu queria dizer, mas fiquei envergonhado.

– O senhor está com medo? – Balancei a cabeça negativamente, enquanto de um só gole eu sorvia o resto da dose. A tremedeira era assustadora. Chamei a aeromoça e pedi outra dose para ver se neutralizava aquela tremedeira.

Uma coisa é certa, sem querer atrai a atenção sobre mim, num vexame dos maiores já vivido. Todavia, meu estado parecia incontrolável. Consegui dominar um pouco meus impulsos e expliquei ao cidadão o que estava acontecendo.

– O problema é que eu sentei aqui na ala dos fumantes por engano. Faz um mês que parei de fumar. – Ele olhou pra mim e disse que a melhor coisa a fazer era não resistir e fumar um cigarro, caso contrário pode ter um problema maior.

Sem resistir mais concordei com a ideia. Ele estendeu-me o maço de cigarros. Nunca imaginei que a coisa fizesse um efeito tão extraordinário como aquele. Na primeira tragada, funcionou como uma espécie de bálsamo. Foi como se eu estivesse dentro numa geleira e magicamente fosse transportado para um clima de 30 graus. Ao longo do trajeto fumei dois desgraçados.

Quando cheguei ao saguão do aeroporto de Cumbica, minha primeira providência foi comprar um maço de cigarros, adiando por mais alguns anos a minha decisão de largar o cigarro, o que só veio acontecer, definitivamente, em outubro de 1994. Foi dureza, mas felizmente consegui.

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