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Nos falares do povo encontramos a sabedoria, a sutileza da sinceridade. Quebram todas as regras, rompem todos os limites da gramática e não adianta correção. Essa é a melhor forma de comunicação. Não o coloquial, não o tradicional, mas aquilo que o povo sabe fazer de melhor e com simplicidade: comunicar-se. Quer dizer, tanto faz seis como meia dúzia, o importante é se fazer entender.

O falar errado não quer dizer, ser uma pessoa sem cultura. O conhe-cimento tem seus próprios caminhos. Conheci um senhor, tido como analfabeto, mas adorava filosofia. Sempre gostava de participar das rodas de conversa e com pessoas intelectuais. Sempre foi interessado pela vida dos grandes filósofos gregos, pela mitologia grega. Certa vez falando a respeito do comportamento humano ele me afirmava: como dizia o filoso Socrates: a comportação do homi, depende do obientes adonde ele conveve. Gramaticalmente errado, mas certo na observação.

Chama-me a atenção o escrito brasileiro Graça Aranha em A Estética da Vida (p.194), quando afirma que o filósofo Rousseau aos 30 anos era um quase analfabeto, começou a ler e escrever aos 35. No caso do meu amigo é evidente, onde se puder corrigir se corrija, mas há casos a de-mandar muita paciência.

O grande problema do ser humano é a falta de cuidado com a língua pátria. Mesmo estudando, dominando a língua há pessoas sem o hábito de consultar uma gramática, um dicionário, não cuidam em melhorar o vocabulário. Meu amigo era um intelectual, mesmo sem saber ler.

Presenciei certa vez um caso de uma senhorita, louca por uma carona até a cidade mais próxima. No primeiro caminhão trucado que estava de saída, viu o motorista só e falou bem explicado: “Harará uma carona pra uma sinhurita na buleia dessa camioneta?” Uma desfeita! Harará nunca foi verbo e aquele caminhão enorme chamado de caminhoneta.

São coisas da vida que entram para o folclore dessa Língua Portu-guesa extraordinária. Lembro uma vez na aula de Português um colega perguntar ao professor Se haveria possibilidade de alguém cometer quatro erros numa mesma palavra, o professor respondeu sem sequer pensar e escrever no quadro: “Depende das CIR-COS-TA-ÇA”.

O mestre enfatizava ser a pressa traiçoeira, sobretudo quando se tem a fala como instrumento de trabalho. Outro dia num desses grandes prêmios de turfe do Jóquei Clube o apressado locutor estava a todo pique anunciando os preparativos iniciais para a largada e uma pequena frase dita por ele me chamou a atenção e me deixou na dúvida. Em seu entusiasmo ele dizia: “E atenção, senhores e senhoras para a sensacional largada. Nesse momento, sobe andrenalina”.

Eu imaginei tratar-se do jóquei André montando na sua égua cha-mada Lina. Engano meu. O nobre anunciante referia-se à ADRENALINA. Foi traído pela pressa. E como disse um amigo, um eterno gozador e conhecedor do Português: “Eu fiquei completamente fora de si”.

É. Como disse o mestre Câmara Cascudo que volto a lembrar, nos falares do povo há muitos mistérios e acertos mesmo por palavras ditas erradas.

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