Sábado, 11 Janeiro 2020 12:16

A LUTA ENTRE RAZÃO E EMOÇÃO

Escrito por Gaudêncio Torquato

O mote da década de 50 acompanhou por muitos anos
a vida dos consumidores: “vale quanto pesa”. O símbolo
da balança, estampado na embalagem, não apenas
garantia a legitimidade do “sabonete das famílias”, mas
reforçava o conceito de verdade. O consumidor
constataria não haver um grama de peso a mais ou a
menos. Era a época da “verdade verdadeira”. De lá para
cá, a verdade passou a perder substantivos e a ganhar
superlativos, dando vazão ao bordão desses tempos
virtuais: “vale muito mais do que pesa”.

Essa versão embala anúncios de propaganda,
expressões sobre pessoas, políticos, jogadores de futebol,
entre outros.
A observação cai bem no momento em que a política
no Brasil começa a rejeitar os velhos paradigmas. Nesse
ano eleitoral, o superlativo dominará a expressão política,
a verdade se cobrirá com as cores da ficção, sob a capa de
fake news, e o mundo real dividirá suas cores com o
mundo virtual. A passarela entre esses dois universos será
pavimentada por três tipos de argamassa: a razão, a
emoção e a polarização.
O cenário da razão deixa ver, na linha de frente,
eleitores conscientes, autônomos, exigentes, que já não
agem ao estilo que o vulgo costumava recitar em ditos
politicamente incorretos: “Maria vai com as outras”.
O campo da razão disputará o processo decisório com
o espaço da emoção. Basta medir a temperatura do meio
ambiente ou ver o desfile de adjetivos nas redes sociais,

onde o palavrório bolsonarista é confrontado pelo verbo
oposicionista, expandindo a polarização.
Indignação, revolta, ódio se amalgamam nas bandas
que dividem a sociedade: os adeptos, eleitores e
simpatizantes do presidente Jair; os oposicionistas de
partidos de oposição e contingentes que não leem pela
cartilha da direita-radical-conservadora; e os centristas,
que olham para os lados e para cima, à procura de novos
protagonistas.
Bolsonaro, de um lado, e Lula, de outro, são os dois
líderes do cabo de guerra. A linguagem de ambos é
embalada por camadas de celofane emotivo. O presidente
usa a saída do Palácio da Alvorada para puxar a corrente;
o ex-presidente usa palcos de eventos do PT ou de
organizações. Ambos se esforçam para antecipar a
campanha, com desfecho em outubro, usando
metralhadoras expressivas para agregar parceiros das
bandas, tentando encantar as turbas. O perfil populista de

ambos emerge na exposição de uma semântica
desarrumada e uma estética destemperada.
Ora, quando falta água na fonte da razão, os dois
correm para beber na fonte da emoção. O ritual é
conhecido. Com uma linguagem coloquial, os dois
transmitem mensagem subliminar, querendo dizer:
“somos gente como vocês”. Metáforas aparecem aos
montes. E assim a liturgia emotiva acaba construindo um
suporte de simpatia.
Mas a movimentação social no Brasil, nos últimos
tempos, mostra que a razão, como mecanismo para a
tomada de decisões, amplia laços, inclusive nos setores
populares, tradicionalmente conhecidos por agir sob
emoção. Os comportamentos racionais estão relacionados
a um cenário de modernidade, que aponta para um
reordenamento de valores, princípios e visões dos
grupamentos sociais.
Dito isto, é o caso de perguntar: que vetor terá mais
influência em campanhas? Atente-se para o ethos

nacional, cuja composição agrega valores como
cordialidade, improvisação, exagero, paixão,
solidariedade. O resultado aparece na “alma caliente” dos
trópicos, em contraposição à frieza anglo-saxã. Em
nossas plagas, a emoção ganha da razão.
Mas se expande a cada ciclo político. Por quê? Por
causa de mudanças no campo individual. A pessoa,
escondida no anonimato na massa, descobre que pode se
transformar em cidadã. A cidadania deixa de ser bandeira
de instituições e ingressa no repertório mental do

indivíduo, passando a ser meta desejada. Ou seja, amplia-
se a "consciência do EU" em contraponto ao conceito do

"NÓS", esteira da propaganda política.
Maior autonomia fortalece o desenvolvimento de uma
autogestão técnica, pela qual os indivíduos passam a
traçar rumos e a selecionar os meios, recursos e formas
para atingir seu intento. Rejeitam ou aceitam, com
restrições, pressões do poder normativo. Equivale a dizer

que fogem dos "currais" psicológicos que enclausuram
pensamentos.
Em suma, o campo social alarga o universo do
discurso, a rebeldia das formas e provoca a rejeição a tudo
que se assemelhe a totalizações. Classes sociais e
categorias profissionais, usando suas tubas de
ressonância, desfraldam bandeiras de defesa. Se muitos
segmentos ainda votam com a emoção, outros buscam
apoio nos pilares da razão: o voto sai do coração para
subir à cabeça.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da

USP e consultor político