Sábado, 29 Fevereiro 2020 14:36

DEMÓCRITOS E HERÁCLITOS

Escrito por Gaudêncio Torquato

Demócrito e Heráclito, dois grandes filósofos, tinham
concepções diferentes sobre a condição humana. O
primeiro ridicularizava a vida e o homem. Só aparecia em
público com um ar arrogante e zombeteiro; o segundo, ao
contrário, tinha compaixão pelo ser humano,
demonstrando solidariedade com seu semblante sempre
entristecido e os olhos marejados de lágrimas.
Nos últimos tempos, a índole de Demócrito tem
povoado os espaços nacionais, com uma verve cheia de
malícias em defesa de posições extremadas, e que resulta

em um processo de flechadas recíprocas entre grupos da
sociedade. Já os valores humanos são desprezados ou
colocados em segundo plano. O clima de emboscada
permanente que acirra os ânimos vai cada vez mais
aumentando a distância entre o território, o País e a
Nação.
Expliquemos. O território é o porte continental que
abriga nossas belezas e riquezas naturais. O território não
tem alma, é um diamante bruto. Lapidado por leis,
códigos, processos, habitado por pessoas, e governado por
representantes do poder popular, adquire o status de País.
Mas a Nação continua ainda muito distante. Pois a
Nação é um ente com alma, é o espaço dos direitos,
deveres e seus atributos: o civismo, a solidariedade, a
justiça, o desenvolvimento, a liberdade, a ordem, a
democracia, a autoridade, a cultura, a soberania e a
cidadania.
E o que vemos na paisagem? Milhões de brasileiros,
em seus espaços, mais se assemelham a incrustações de
conchas em rochedos brutos, assolados por tempestades e

furacões. É o desemprego em massa; são as doenças,
algumas de séculos passados, que nos assolam, e outras,
de nomes estranhos que aqui aportam trazendo medo; é a
autoridade máxima que convoca o povo a atirar pedras
nas instituições, incentivando a batalhas nas ruas; são as
nossas Forças Armadas, que se recolhem ao silêncio em
vez de proclamar sua crença na ordem democrática; são
xingamentos em cadeia contra meios de comunicação e
jornalistas, alguns recheados de baixo calão.
A esperança vira um pontinho aceso nos céus.
Não por acaso, o clima de faroeste transpira violência,
aqui e ali, com estranhas armas (empilhadeiras, por
exemplo), e cowboys exibindo suas cartucheiras cheinhas
de balas, alguns com o selo de milicianos pregados na
testa. Onde já se viu, gente de Deus, policiais fazendo
motim?
Não por acaso, a poeira tórrida do território vai
obnubilando o desenho de civismo que habita a Pátria,
esse sonho que teima em permanecer na consciência dos
homens de bem.

E assim o país vai se locupletando de Demócritos,
apesar da imensa carência de Heráclitos.
Quem ouviu, nos últimos tempos, um grito de “Viva o
Congresso”? Mas é ali que vicejam as condições para a
grandeza da Nação. Quem acha que os impostos e tributos
estão diminuindo? O que se ouve, com certa intensidade,
é uma voz cavernosa que promete a ressurreição de
malfadada CPMF. A obsoleta legislação trabalhista da era
getulista até foi mudada, mas há guerreiros da maldade
que teimam em querê-la de volta.
Quem acredita que a violência está diminuindo? O
Ceará até parece um abatedouro de pessoas. Alguém acha
que professores e alunos estão satisfeitos com as
condições de ensino ou com a gestão de um ministro que
passa o tempo azucrinando quem não concorda com suas
extravagâncias? Que felizardo consegue encontrar uma
bandeira brasileira para adquirir antes da bandeira de
qualquer grande time de futebol? Quem acha que o PIBF
– Produto Interno Bruto da Felicidade – está crescendo?

O tom do mundo, escreveu Montesquieu em Meus
Pensamentos, consiste muito em falar de bagatelas como
se fossem coisas sérias, e de coisas sérias como se fossem
bagatelas. Pois é, quantas autoridades não fazem essa
inversão, tentando amaciar o cotidiano com pitadas de
riso, mesmo que a estação do ano seja repleta de dor e
angústia? Tem muita gente debochando com coisas sérias
da política, inclusive gente estrelada.
Será que o interesse comum, em nossas plagas, não
passa de abstração? Que saudades dos tempos bucólicos,
aqueles idos em que homens, simples em seus costumes e

firmes nas crenças, cultivavam a solidariedade, as lem-
branças dos antepassados, o amor paternal, o amor filial, o

respeito aos mais velhos, enfim, uma bagagem de vida
descomplicada que proporcionava aos cidadãos certa
doçura de viver. Hoje, vivemos sob o signo da
radicalização, das ameaças e do medo.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da

USP e consultor político