Sábado, 14 Março 2020 21:45

O PÂNICO SE INSTALA

Escrito por Gaudêncio Torquato

A vida é um eterno recomeço. Fosse escolher a lenda
que mais se assemelha à sua vida, provavelmente o povo
brasileiro colocaria a história do castigo de Sísifo entre as
preferidas. Sísifo, que viveu vida solerte e audaciosa,
conseguiu livrar-se da morte por duas vezes, sempre
blefando. Rei de Corinto, não cumpria a palavra
empenhada, até que Tânatos veio buscá-lo em definitivo.
Como castigo, os deuses o condenaram impiedosamente a
rolar montanha acima um grande bloco de pedra. Quase
chegando ao cume, o bloco desaba montanha abaixo.

A maldição de Sísifo é recomeçar tudo de novo, tarefa
que há de durar eternamente.
O povo se sente no estado de eterno recomeço. Padece
das previsíveis tragédias provocadas por chuvas, com
mortes que sobem no ranking das catástrofes; angustia-se
nas filas do INSS; vê o dinheiro sumindo do bolso com a
economia em recuo; e, agora, passa a temer com a foice
da morte, que aparece aqui e ali escondida na forma de
um vírus, de nome coronavírus, que não escolhe vítimas,
atacando ricos e pobres. O mundo todo está tomado de
pavor.
O pânico que começa a se alastrar deflagra uma cadeia
de eventos e situações inesperadas. O corpo social é
ferido de todos os lados. Suspensão de aulas, com efeitos
sérios sobre o cronograma da vida escolar; diminuição de
aglomerados e mobilizações de ruas e ambientes
fechados, apesar de grupos com a síndrome do touro
(arremetem com a cabeça e pensam com coração) não se
incomodarem com isso; isolamento em casa ou em
estabelecimentos hospitalares em quarentena, com

semanas perdidas de trabalho; paralisação parcial de
setores vitais da produção e dos serviços, perdas
monumentais para a economia; débâcle das bolsas
mundiais e da brasileira, que já perdeu cerca de 1 trilhão
de reais com a desvalorização das companhias ali
presentes; falta adequada de respostas à pandemia, seja
por insuficiência das estruturas de saúde governamentais e
privadas, seja por ausência de planejamento para enfrentar
a crise.
Ao fundo desse panorama de desolação, enxergam-se
paisagens de destruição, pequenas e grandes catástrofes:
afundamento de barcos nos rios, quedas de barreiras nas
rodovias e desabamento de casas; escândalos envolvendo
governantes, políticos e empresários; ameaça de novos
impostos; tensões acirradas entre os três Poderes;
politicagem que se acentua em ano eleitoral, entre outros.
Os efeitos são catastróficos, pois o sistema de vasos
comunicantes acaba contaminando os poros da alma
nacional, inviabilizando aquele espírito público, fonte
primária do fervor pátrio, que Alexis de Tocqueville, há

quase 200 anos, constatou no clássico A Democracia na
América: “existe um amor à pátria que tem a sua fonte
principal naquele sentimento irrefletido, desinteressado e
indefinível que liga o coração do homem aos lugares
onde o homem nasceu. Confunde-se esse amor instintivo
com o gosto pelos costumes antigos, com o respeito aos
mais velhos e a lembrança do passado; aqueles que o
experimentam estimam o seu país com o amor que se tem
à casa paterna”.
Que amor à Pátria pode existir em espíritos tomados
pelo pavor, pela violência de tiros a esmo, mortes por
balas perdidas, marginalidade comandada de dentro das
prisões? Que espírito público pode vingar no seio das
massas quando grupos polarizados teimam em querer
dividir o país em duas bandas, impulsionando os eixos da
discriminação e bradando contra a liberdade de imprensa?
Brasileiros motivados a emigrar para realizar o sonho
de uma vida melhor na América do Norte voltam à terra,
expulsos, algemados, estampando frustração. Emigrar foi
para eles a opção de milhares nesses tempos bicudos.

Hoje, retornam à casa sob angustiante interrogação: o que
vou fazer?
Onde e quando chegaremos ao andar da estabilidade?
Por que a economia não melhora o nosso viver? Um fato:
as margens embolsam seu dinheirinho no início de cada
mês e, ao final, contam migalhas. Para piorar, com esta
crise nas bolsas, viver sob a ilusão de ganhos
inflacionários já não mais faz a cabeça do poupador.
A verdade é que o fator econômico dá o tom das
nossas vidas. Consequentemente, os serviços sociais
ficam com poucos recursos. O processo de reformas
nunca chega ao fim. Mudanças na política? Quem sabe?
Poderemos ver mais um levante em outubro próximo.
Parecido com o que vimos em 2018.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político