Sábado, 28 Março 2020 13:22

O JOGO DO CAPITÃO

Escrito por Gaudêncio Torquato

A politização da pandemia era bastante previsível por
esses nossos trópicos. Afinal, a tensão que alimenta as
correntes pró e contra o governo Bolsonaro é detectada no
radar da política desde os idos eleitorais de 2018, e o
comportamento açodado do chefe do Estado, nos últimos
tempos, tem funcionado como lenha na fogueira. A esta
altura, não há arquitetura diplomática que consiga conciliar
as duas visões que impregnam o pensamento nacional.
De um lado, a banda da intelligentzia, liderada por
cientistas e especialistas, que recomenda a rígida

quarentena com ênfase nas pessoas com mais de 60 anos,
e, de outro, a ideia de abrir o portão travado da economia,
com a volta ao trabalho daqueles que não estão na área de
risco, pressupondo, ainda, a abertura das escolas e das
atividades produtivas.
A primeira linha é compartilhada pelas principais
lideranças mundiais, governos e instituições, a partir da
Organização Mundial da Saúde; a segunda tem na
vanguarda de defesa o nosso presidente Jair Bolsonaro.
Que quer jogar um jogo usando suas próprias regras. Até
sua fonte de inspiração e exemplo, Donald Trump, teve que
recuar de sua posição inicial – de considerar passageiros os
efeitos do Covid-19, e aceitar o regime de quarentena nos
Estados Unidos, que agora se transformam em epicentro da
pandemia.
A tese de que a economia fechada pode ser pior que
fechar a população em suas casas é polêmica, mas a maior
parte dos pensadores, incluindo os economistas, aponta
como absoluta prioridade a luta para "salvar vidas".
Deixemos a discussão para os especialistas e vejamos o que

poderá ocorrer ao país na roça da política, a partir das duas
correntes que continuarão a pelejar na arena da disputa
político-eleitoral.
Primeiro, é fato que o presidente Bolsonaro perde
razoável parcela de seu vetor de forças. Os governadores
fazem um cerco a ele. Os seus 30% de votos dão sinais de
arrefecimento. Já não teria hoje 57 milhões de eleitores.
Seus exércitos nas redes sociais já não mostram o sentido
aguerrido dos primeiros meses de governo. Segundo, fortes
parcelas das classes médias, que nele votaram, se
distanciam de um discurso cada vez mais assombrador.
Terceiro, o Congresso, mesmo disposto a aprovar as pautas
de interesse do Executivo, sob a sombra aterradora do
coronavírus, tende a agir com independência. Os
presidentes do Senado e da Câmara, Davi Alcolumbre e
Rodrigo Maia, fizeram duros pronunciamentos sobre a
manifestação presidencial tratando da crise pandêmica.
O capitão não dá sinais de que vai mudar de ação ou de
expressão. Os generais que o cercam com ele se alinham,
mesmo com imenso esforço para interpretar o que ele disse.

O vice Mourão até tentou dizer que ele teria se comunicado
mal ao ser contra a quarentena. Ora, é contra mesmo. O
ministro da Saúde, Henrique Mandetta, também tentou
driblar o verbo para não desdizer o chefe. O chamado
gabinete do ódio, com presença dos olavistas e do filho
Carlos, é quem dá o tom do discurso presidencial.
O nó está feito. Quem poderá desatá-lo? Apenas o
desfecho da crise contém a resposta. Se a curva da morte
continuar a subir em escala progressiva e acelerada, os
defensores de rígida quarentena elevarão sua expressão. A
recíproca é verdadeira. Portanto, o resguardo da imagem
presidencial está a depender da evolução – negativa ou
positiva – da crise.
Os governadores, unidos na guerra contra a pandemia,
poderão se transformar em grandes cabos eleitorais das
eleições de outubro (se não forem adiadas sob o calor de
uma luta que deixará marcas profundas no corpo nacional).
A esfera política tenderá a agir com pragmatismo. Nesse
caso, mais adiante, levarão para a balança os pesos a favor
e contra Bolsonaro. E se este continuar a acirrar a

animosidade, terá contra ele a maioria do Parlamento. Será
muito difícil ao presidente subir ao pódio de 2022 caso
continue a apostar no confronto com alas contrárias e a
repudiar as pressões dos conjuntos parlamentares. Claro,
2021 poderá apresentar um PIB de índice mais elevado.
Esta será a esperança do capitão. Que já pode inserir 2020
em seu arquivo de tempos perdidos. Mesmo com o jogo
ainda no primeiro tempo, sua posição já está reservada na
galeria dos líderes mais estrambóticos do planeta.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político