Sábado, 04 Abril 2020 16:01

VIDA PÓS-CRISE, COMO SERÁ?

Escrito por Gaudêncio Torquato

Há muitas questões no ar e qualquer previsão sobre o
amanhã será uma precipitação. Mas a cadeia de eventos
que se sucedem nesses dias de medo e até pânico permite,
desde já, que se façam inferências razoáveis. Por exemplo,
o mundo do trabalho se regerá por novas convenções, com
parcelas das atividades sendo desenvolvidas em casa, sem
mais necessidade de deslocamentos de alguns tipos de
profissionais para antigos escritórios. O impacto será forte
na esfera de salários e emprego.

Mais precavidos e atentos aos movimentos migratórios
e mesmo a eventuais riscos trazidos por movimentações
turísticas, os países impulsionarão seus sistemas de
segurança e controle, o que, por sua vez, acionará a visão
nacionalista de partidos e governantes. O nacionalismo
tende a se exacerbar em algumas Nações, principalmente
em territórios onde líderes procuram ocupar os palcos
como puxadores populistas das palmas das plateias.
As relações internacionais, mesmo sob a marca do
pragmatismo que impregna negócios e empreendimentos
em parceria, deverão focar um olho para áreas que
integram os conjuntos estratégicos. Nesse espaço estariam
os complexos energéticos, as reservas naturais e as
telecomunicações, por exemplo. Sobre as teles, corre até
um mote: quem delas se apodera, domina a alma de um
país. Saberá tudo que corre por suas veias.
As mudanças abrangerão os mais diversos campos. Dito
isto, puxemos a brasa para a nossa sardinha. E aqui, o que
poderá ocorrer? Sem estender os limites da reflexão,

fiquemos apenas no compartimento da política.
Começando pela galeria de nossos quadros, a visão que se
apresenta é que a sociedade como um todo estará à procura
de um líder. Uma das lições da atual crise, que ainda não
chegou aos píncaros, é de que o país está a mercê de
indivíduos sem qualidades para tocar um projeto de país.
Dispomos até de bons técnicos de gestão, mas nenhum com
capacidade para comandar, organizar, coordenar, unir o
povo em torno de uma ideia de Nação próspera e integrada
a uma nova ordem mundial.
A crise tem escancarado a pequenez do governante-mor,
a incapacidade de promover a união entre os três Poderes
para se alcançar os valores da harmonia, da autonomia e da
independência nos termos arquitetados pelo barão de
Montesquieu.
Os Poderes Legislativo e Judiciário, no vácuo aberto
pelo Executivo, têm se esforçado para dar respostas às
demandas mais prementes, vale reconhecer. Mas essa é a
hora em que se cobra do Executivo diretrizes, ação,

firmeza. Este Poder sairá menor da crise, pois a
manutenção de um rolo de tensões com outros Poderes
arrefecerá a força desse nosso presidencialismo de cunho
imperial. E se o Estado não aparece nos lugares e
momentos que mais exigem sua presença, estiola-se a teia
de credibilidade e esperança que deve salvaguardar os
governantes.
O fato é que o presidente Jair, mesmo com mudança em
seus pronunciamentos, não mais defendendo
explicitamente o isolamento vertical, continua a se manter
distante do Congresso e do Judiciário, e este, por
intermédio de seu presidente Toffoli, tem expresso a visão
que privilegia a ciência e não o "achismo" no combate ao
coronavírus. O que poderá acontecer se a corda,
intensamente esticada, arrebentar? Nesse momento, não há
condição de se sugerir ou debater coisas como
impeachment. Lembre-se que Bolsonaro ainda está
confortável nos seus 30% de aprovação. Mas certo abalo
impactará as instituições.

E se o presidente, ante uma paisagem de eventual
devastação social – ataques, assaltos, quebradeira – avocar
o direito de governar por decreto? Já é possível, a esta
altura, enxergar o presidente buscando hipertrofiar o
alcance do Poder Executivo diante de outros poderes com
um jogo de guerra na intenção de atrair a simpatia das
audiências e emplacar uma agenda que lhe permita
governar por decretos nos moldes governos ditatoriais.
Mas o Congresso se mostra precavido. Rodrigo Maia é
matreiro. Sabe administrar o número excessivo de MPs que
batem na Câmara. Alcolumbre e Anastasia, no Senado,
também se mostram atentos. No momento, cobram-se atos
do Executivo que possam desembrulhar a burocracia para
distribuir recursos aos carentes. A bola está com o governo.
Seja qual for o desfecho – tempo prolongado ou mais
curto – da crise pandêmica, nossa democracia dará alguns
passos adiante. Teremos uma sociedade mais exigente e
crítica, a cobrar transparência, melhores serviços públicos,
a partir da saúde, disposição para despachar representantes

que não cumpram promessas de campanha e a entrar com
mais vontade no tabuleiro da política.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político.