Sábado, 25 Abril 2020 16:45

O "NOVO NORMAL"

Escrito por Gaudêncio Torquato

Nesses tempos de medo e depressão, chovem platitudes
e truísmos, na esteira de profetas, videntes e assemelhados
que se multiplicam por todos os quadrantes: "depois da
pandemia, o mundo será mais solidário", "veremos avanços
nas áreas das ciências", "os países serão menos globalistas
e mais protecionistas", etc.
A ciência política não escapa da inexorável tarefa de
tentar descobrir os caminhos do amanhã, razão pela qual,
confesso, também me inclino a fazer, vez ou outra,

exercícios de futurologia. Com forte probabilidade de
acertar e cometer erros.
Em praticamente todas as projeções, prega-se o advir de
um mundo diferente, um planeta mais solidário no
enfrentamento das crises, hipótese bastante plausível ante
a constatação de que a catástrofe de uma Nação, a partir da
contaminação por um vírus, atinge a todas. E a busca pela
extinção de pandemias passa a ser missão de todos.
Na prospecção de hoje, tento enveredar pela trilha a que
muitos têm se dedicado: como seria esse "novo normal",
que pistas permitem vislumbrar mudanças de padrões,
valores, atitudes, enfim, como seria este mapa do cotidiano
pós-crise? Antes, é útil fazer rápida apreciação sobre a
paisagem social em que se abrigou este Covid-19.
Ele se infiltra numa sociedade plena de desigualdades,
diferenças culturais, modos de vida, democracias vigorosas
e outras nem tanto, enormes conglomerados produtivos,
economias competitivas, uma infinidade de micro e
pequenos negócios, desemprego em massa, debilidade nos

aparatos de defesa da saúde, competitividade, acúmulo de
riquezas por parte de grupos, extrema miséria e fome.
De pronto, a inferência emerge: o impacto é diferente
em núcleos, grupamentos profissionais e classes sociais.
Uns sofrem mais que outros. Mas há um fio que liga todos
os seres humanos: o vírus não distingue ricos e pobres,
maiorais e pequenos, com a constatação apenas de que um
grupo – os idosos – está mais arriscado a padecer da
pandemia.
Dito isto, fica patente o susto que corre nas veias dos
habitantes da Terra: como é possível um micro organismo,
invisível a olho nu, um dos milhões de vírus que circula
pelo planeta, desfazer da noite para o dia coisas, projetos,
empreendimentos construídos com tantos esforços, alguns
sendo produto de toda uma vida?
É como se um tsunami irrompesse num momento,
inundando tudo o que encontra pela frente em todos os
mares do mundo: pessoas, construções, empreendimentos
de todos os tipos. Muitos não se salvam, mesmo buscando

abrigo em estabelecimentos hospitalares, enquanto outros,
com rendas e negócios arrebentados, terão de se recompor
da catástrofe e recomeçar a vida.
A tragédia deixará marcas profundas em todos, mesmo
espíritos imbuídos dos mais profundos sentimentos de
vivência na dor e no desespero. Haverá, certamente, um
olhar mais humano para as tragédias que ocorrem em todos
os lados, pela ideia de que o sofrimento pode, a qualquer
momento, baixar na casa de cada um. Mas a catástrofe – e
o termo não parece exagerado – escancara a banalização do
perigo, que viceja na corrente do medo e da morte, duas
sombras que nos cercam nesses tempos angustiados.
A morte mora perto. É gritada em alto e bom som, com
estoques altíssimos: 20 mil aqui, 50 mil acolá, 100 mil mais
adiante. Virou número. Em tempos idos, exclamava-se:
"fulano morreu". A interrogação assustada aparecia em
seguida: "não diga? Quando? Por quê? Hoje, a cena mostra
caminhões transportando corpos mortos para covas
coletivas.

E tudo isso aprofunda nossas feridas. Certa amargura
fluirá pelas nossos corações, ao lado do descrédito e da
descrença nos padrões da velha política. Como a política
entra aqui? Ora, pelo descalabro com que a crise foi tratada
por alguns governantes. Pela falta de equipamentos
básicos. Pela ineficiência dos serviços públicos, mesmo
sob reconhecimento de que os profissionais da saúde foram
heróis.
A sensação é a de que o Senhor Imponderável, que nos
visitava em alguns períodos – ciclos de chuva e seca-
(deixando até de lado sua imponderabilidade), doravante
aparecerá com mais frequência. Tal constatação pode nos
tornar um povo mais medroso, menos confiante, mais
pessimista. A bem da verdade, eis um contraponto: "quem
venceu esse demônio invisível, terá condição de vencer
outros que nos atacarem".

Amém.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político e de comunicação