Sábado, 02 Maio 2020 17:50

OS NOVOS POLOS DE PODER

Escrito por Gaudêncio Torquato

As crises não se esgotam em tempo marcado.
Constituem um fenômeno que perpassa a linha do tempo.
Como a água corrente, que descobre as entrâncias e
reentrâncias das rochas até encontrar o mar, as crises fluem
ao correr das circunstâncias, gerando efeitos maiores ou
menores, abrindo rumos, redefinindo caminhos. A crise
sanitária, provocada pela pandemia do Covid-19,
impulsionará a ação dos governos na trilha da saúde. A
crise econômica provocará sequelas sobre os conjuntos

sociais, abaixando o índice do Produto Nacional Bruto da
Felicidade. Servirá de alerta. E a crise política já começa a
deixar nossos representantes de “barba no molho”.
Se há uma consequência que soma os componentes das
três crises em curso, esta é o avanço da participação social
no processo político. Saturada de promessas não
cumpridas, indignada com a má qualidade dos serviços
públicos, descrente com as figuras que, periodicamente,
aparecem no cenário como “salvadores da Pátria”, a
sociedade dá um passo adiante no sentido de criticar,
exigir, cobrar, querer mudar. Quer dizer, decide participar
com mais força do sistema de decisões.
Em alguns países, principalmente na Europa, este
direcionamento é bem desenvolvido, ganhando a
designação de “auto-gestão” técnica, pela qual as pessoas
escolhem seus objetivos e os meios para alcançá-los, não
aceitando mais a tutela dos políticos. O sentimento é de que
a água transbordou no copo. Tal tendência exibe maior
organicidade social. Grupos, núcleos, setores,

desencantados com os obsoletos e tradicionais padrões de
operar a política, querem, eles mesmos, definir suas ações.
A taxa de cidadania ganha força.
Aliás, a crítica que se faz à democracia representativa já
vem de décadas. Bobbio, em seu clássico O Futuro da
Democracia, descreve as promessas não cumpridas por ela,
entre as quais, a educação para a cidadania, o combate ao
poder invisível, as oligarquias, a falta de transparência dos
governos, o acesso de todos à justiça. Estes fenômenos se
somam a outros, convergindo para o distanciamento entre
sociedade e representação política.
Como podemos dar outra interpretação a esse novo
estado? Significa que a sociedade se organiza em entidades
de referência, como sindicatos, associações, federações,
grupos e movimentos. Esses são os novos núcleos de poder.
Uma força que nasce nas margens, ensejando o que
podemos chamar de “poder centrípeto”, em contraposição
ao “poder centrífugo”, este formado pelas instituições

centrais, os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário,
nas instâncias federais, estaduais e municipais.
Essa modelagem passa a agir como um rolo compressor
sobre os Poderes constitucionais. Assim raciocina o eleitor:
se meu representante ou o governante não conseguem
atender as necessidades, vou bater na porta de minha
entidade. Sob tal configuração, desenvolver-se-á a ação da
política no Brasil, com alteração de comportamentos,
mudança na feição dos protagonistas, redefinição dos
pacotes sociais, redimensionamento dos recursos,
reordenamento de meios e compensações para os
programas regionais, etc.
Os novos horizontes, sob tal panorama, são
promissores. A democracia participativa finca estacas
profundas na seara social. O que vai reforçar os três
instrumentos que, hoje, a ancoram: o referendo, o
plebiscito e o projeto de lei de iniciativa popular.
Redesenha-se, assim, uma paisagem mais fértil no campo
democrático, corroborando um dos significados da

expressão japonesa para a palavra crise: oportunidade. Ou
seja, vamos extrair das crises a oportunidade para o país
refazer o seu modus faciendi de operar a política.
Pano de fundo: o Brasil é um país de dimensão
continental, com imensas riquezas naturais, não registra as
catástrofes naturais que ocorrem em diversas regiões do
mundo, abriga o maior e mais qualificado agronegócio do
planeta, tem sol o ano inteiro na região Nordeste e um dos
maiores potenciais turísticos do mundo. O que falta, por
aqui, é uma taxa menor do que podemos chamar de Produto
Nacional Bruto da Corrupção (PNBC).
Há outros componentes que devem entrar no jogo. A
política não é selva para praticar tiro ao alvo contra
animais. As disputas precisam entrar no foro do respeito e
da seriedade. Os compromissos hão de ser executados.
Urge deixar de lado as promessas mirabolantes, as
emboscadas, a radicalização, o ódio, o terraplanismo, os
ideários ultrapassados. O lema a guiar nossos passos: cada
um cumpra o seu dever.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação