Sábado, 09 Maio 2020 13:49

AS ELEIÇÕES MUNICIPAIS

Escrito por Gaudêncio Torquato

Coisa inédita: teremos eleições este ano para as
prefeituras e câmaras de vereadores e o grande evento

parece coisa sem importância. Compreensível. O Covid-
19, esse bichinho invisível, joga todos os outros temas no

baú do esquecimento. É claro que, um pouco mais adiante,
o pleito estará na mesa dos candidatos, eis que se trata de
construir a base do edifício político, composta por 5.570
prefeituras e cerca de quase 60 mil vereadores.

Que não haja dúvidas. As eleições se darão este ano,
mas não na data marcada de 4 de outubro, pois os
candidatos e seus cabos eleitorais ainda estarão se
recuperando do caos pandêmico, sendo mais provável
pensar em 15 de novembro. Será uma campanha mais
rígida em muitos aspectos, a começar pelo fim das
coligações proporcionais. Ou seja, não veremos vereador
sendo puxado pela força dos votos somados de parcerias
entre siglas.
O termo rigidez se aplica a outros aspectos. No campo
dos recursos financeiros, por exemplo. O dinheiro mais
curto exigirá campanhas objetivas, sem rodeios, equipes
restritas, sem a parafernália das mobilizações do passado.
A campanha encontrará um eleitor com posicionamentos
diferentes da moldura tradicional.

Qual seu perfil? Difícil apontar todos os componentes
que influenciarão o sistema cognitivo das pessoas, mas é
possível pinçar valores que permearão as escolhas. A
começar pela carga de sentimentos sofridos no desenrolar

da pandemia que assolou o país, cuja extensão poderá
chegar ao final do ano. Esse danado de vírus veio para ficar.
Todos, uns mais, outros menos, carregarão as marcas do
susto, do medo, da angústia, da depressão, cujos efeitos
impregnarão o nosso modus vivendi. Até nossas crianças
continuarão a recordar os angustiantes tempos em que
tinham de usar máscaras.

Como esta bagagem emotiva se fará presente no instante
em que eleitoras e eleitores estarão diante da urna
eletrônica? Provável resposta: escolher o perfil que melhor
traduza o resultado da equação Custo x Benefício.
Resultado que não significa dinheiro, bens materiais,
apesar de ainda abrigarmos um contingente que vota sob
esta teia. Refiro-me a outro tipo de valor: qualidade,
seriedade, zelo, preparo, disposição, compromisso,
inovação, despojamento, simplicidade, modéstia, coragem,
contra os velhos padrões, avanço. P. S. O capitão
Bolsonaro foi eleito com essas bandeiras e está mostrando

ser da velha guarda. Até sua conduta no comando da luta
contra a pandemia será lembrada.
Quem pode encarnar esse acervo? Qualquer cidadã ou
cidadão que, sob a equação Custo x Benefício, seja a(o)
mais próxima(o) do eleitor. Este posicionamento valerá
tanto para o voto no prefeito(a) ou no vereador(a).
Constatação: é forte a impressão de que as mulheres serão
bem votadas. Ganharam bom espaço na expressão de dor
em corredores de hospitais e filas nas ruas. Mas o mais
endinheirado não será necessariamente o eleito ou o mais
votado. Pobres, ricos, feios e bonitos, jovens e maduros,
homens e mulheres estarão no tabuleiro, jogando com as
pedras da mesma oportunidade.
O que pretendo dizer é que, na campanha municipal
deste ano, as desigualdades diminuem, elevando a
probabilidade de vermos uma limpeza geral na galeria dos
retratos que ali se veem há décadas.
E o que dizer? Primeiro, evitar o óbvio ululante, do tipo
de promessas mirabolantes de grandes obras, essa tradição

que sai de maneira artificial da boca de candidatos. O
momento exigirá criatividade. Que significa encontrar
formas simples, diretas, críveis, objetivas, para dizer as
coisas. Governar juntos, por exemplo, mas isso não pode
ser transmitido com a carcomida locução. O candidato deve
ter uma plataforma de conselhos de bairros e comunidades,
maneiras de acionar frequentemente esse mecanismo (via
agenda de encontros), enfim, demonstrar que efetivamente
quer administrar sob o princípio da democracia
participativa.
No mais, ouvir o vento do tempo. Ele passa todos os
dias por nós. Traz recados. Suave ou forte, exibe em nossos
sentidos o retrato da emoção e da razão do povo. Meu
saudoso pai, todos os dias, da calçada onde se sentava para
conversar com os amigos, às 19 horas, aprumava o faro
para sentir o jeitão do tempo. Olhava para o Nascente, via
barras de cores nas nuvens, jogava sua impressão para os
ouvintes e arrematava: “amanhã, não, mas depois de
amanhã vai chover. E fulano não é bom de voto”.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor