Sábado, 16 Maio 2020 17:31

O INVERNO DE NOSSA DESESPERANÇA

Escrito por Gaudêncio Torquato

 

O título acima não é meu. É do clássico livro de John
Steinbeck, publicado em 1961, um ano antes de ele receber
o Prêmio Nobel de Literatura. Que, por sua vez, puxou a
expressão da primeira fase da peça Ricardo III, de

Shakespeare. Em sua obra, o magistral escritor norte-
americano descreve e interpreta o mundo de um homem

atormentado pelos dilemas impostos pelo dinheiro e pela
moral, o protagonista Ethan Hawley, empregado de uma
mercearia, casado, dois filhos, convivendo em uma
comunidade de baleeiros, e atormentado pela ideia de

melhorar sua vida e a da família. Até onde vão os
escrúpulos e a vida digna e honesta quando se trata de
conseguir dinheiro? Um ser humano pode suportar a
pressão de seu meio social sem romper com a ética da
decência?
A lógica da pecúnia é pontuada em tom de desencanto,
a traduzir o dilema entre seguir a trilha da ordem moral ou
buscar o conforto material para si e os seus. O tema cai bem
nesse momento em que o planeta mergulha em uma
catástrofe que já é considerada a maior dos últimos cem
anos. Vive-se um momento em que os valores que
permeiam modos e costumes da vida contemporânea são
todos submetidos ao confessionário de nossas
consciências.
Afinal, têm sentido a competição desvairada entre as
grandes Nações, cada qual lutando vorazmente para liderar
o ranking dos bens materiais, quando nenhuma delas, com
seus arsenais de guerra, consegue vencer um bichinho
microscópico, de nome Covid-19? Que adianta angariar

grandeza se o poder estratosférico por ela propiciado não
consegue sustar a corrente de milhões de pessoas
infectadas e dar um paradeiro aos milhares de mortos que
enchem os cemitérios? E o que dizer da política e de seus
conjuntos que disputam assentos nos espaços dos Poderes?
Questões como essas batem em nossa mente nesse
tormentoso outono, a prenunciar um inverno tomado pela
desesperança e provavelmente pleno de interrogações. A
tão aguardada vacina está chegando ou demorará um ano,
dois e até cinco como se lê na mídia? O arsenal científico
das Nações não consegue ter resposta convincente? Quanta
fragilidade em um mundo dominado por aparatos de poder.
Ante uma paisagem deserta de respostas positivas,
fenecem as esperanças. A angústia enche os corações de
amargura quando nos deparamos com estatísticas de
mortos, valas abertas nos cemitérios, pessoas portando
máscaras nas ruas, flagrantes de um jeito esquisito de viver,
coisa sui-generis para as três gerações. Mais uma imagem
desenhada em nossas cabeças: a de um portentoso

transatlântico que perdeu o comando no meio da borrasca,
tentando se equilibrar nas ondas do mar revolto.
Por nossas águas, a sensação é da falta de rumos. Nossa
bússola perdeu o norte. Na área sanitária, o desastre ocorre
todos os dias, com falta de equipamentos para atender as
filas gigantescas de contaminados; as UTIs estão
esgotadas; os heróis do cotidiano – médicos e profissionais
de enfermagem – confessam não dar conta da multiplicada
demanda.
Na frente da economia, o pandemônio se instala,
enquanto o paradoxo emerge com força. Desde o final dos
anos 80, com a débâcle do comunismo liderado pela URSS,
alinhou-se a régua econômica do planeta pelo traçado do
liberalismo, com as lições de Friedrich Hayek (economista
e filósofo austríaco, depois naturalizado britânico) e de
Milton Friedman. Eles pregam o Estado mínimo,
permitindo maior mobilidade econômica, sem
centralização excessiva de decisões. Estado que zelaria
pelo bom funcionamento do mercado, na esteira de leis de

proteção à iniciativa privada. O monetarismo se
desenvolve com força a partir da Universidade de Chicago,
onde nosso atual guru da economia, Paulo Guedes, fez seus
estudos.
E quando pensávamos ter um governo pautado nessa
régua, com a promessa de privatizar cerca de 600 braços do
Estado (criou-se até uma Secretaria de Desestatização), eis
que estamos na iminência de alçar ao altar da economia
John Maynard Keynes, o economista britânico (1883-
1946), que pontuou sobre a necessidade de forte
intervenção econômica do Estado com o objetivo de
garantir pleno emprego e controle da inflação. Nessa
direção, tateia um designado plano Pró-Brasil. Qual será o
porte do Estado brasileiro, sob mando de um ex-capitão do
Exército e cercado de generais?
Afinal, onde estamos, para onde vamos? À nossa frente,
o risco de queda de 5% do PIB para este ano, com aumento
desenfreado do desemprego. E há quem diga que essa
pandemia tão cedo não desaparecerá.

Daí nossa desesperança. Tememos que o vento frio do
inverno apague a chama bruxuleante de nossa lamparina.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político