Sábado, 23 Maio 2020 12:46

O PAÍS DA PIADA

Escrito por Gaudêncio Torquato

No chiste atualizado, o venezuelano chega perto de
Deus e indaga: por que o Senhor tem sido tão injusto com
a Humanidade? Nosso subsolo contém uma das maiores
reservas do mundo em petróleo. Temos um herói que dá
brilho à nossa história, Simon Bolívar, hoje mera estampa
atrás da cadeira de Nicolas Maduro. Padecemos de fome,
miséria. Mais 3 milhões de pessoas já fugiram e inflação
de 2,5 milhões por cento corrói nossa economia. E agora
esse bichinho mortífero de nome estranho, Covid-19.

Deus disse: tenho procurado ser justo. Vejam o Japão.
Uma tripinha de terra com tufões, mas um gigante
tecnológico. Olhe os Estados Unidos, a maior potência
mundial, porém atormentada por ciclones que devastam
regiões. E mais: olhe para esse Covid-19 que mata milhares
no país e contamina milhões. Aliás, esse coronavírus é a
resposta para os malefícios que as Nações provocam contra
a natureza, o ódio e a ambição que impregnam governantes
e políticos.
Passeie pelos encantos e da Índia e contemple as belas
paisagens africanas, mas fuja da miséria daquelas paragens.
Já viu algo mais lindo que os fiordes da Noruega? Veja o
gelo que joguei lá. Botei muito petróleo no subsolo da
Arábia Saudita e do Kuwait. Sabe por quê? Para compensar
a tristeza de viver sob costumes desumanos.
O venezuelano se deu por vencido quando Deus
arrematou: veja o Brasil, com seu imenso território, sol o
ano inteiro, costa monumental banhada pelo Atlântico,
terras férteis, sem terremotos, ciclones e guerras. A
pergunta veio na bucha: e por que tanta condescendência?

Deus foi taxativo: conhece o povinho que coloquei lá? Eles
não estão livres desse vírus. Veja o governante que foi
eleito. E assim terminou a conversa.
Pois é, esse governante acaba de acrescentar mais uma
expressão ao seu besteirol: “quem é de direita usa
cloroquina, quem é de esquerda toma tubaína”, aquele
xarope-refrigerante de tempos idos. A demonstrar que o
Brasil é uma piada.
O fato é que o castigo dos céus parece ter chegado ao
nosso meio, depois de termos cantado por séculos as
belezas da “terra em que se plantando tudo dá”, conforme
escreveu Pero Vaz de Caminha ao El-Rei de Portugal em
1500.

O Brasil padece hoje da improvisação que baliza as
responsabilidades dos homens públicos.
A incúria, o desleixo, a falta de planejamento por parte
dos gestores públicos estão na base da gravidade da
pandemia que assola o país. Crise dentro de crise: crise

sanitária, crise econômica, crises políticas em escalada
crescente. Muita improvisação.
Vemos um governante “receitando” a cloroquina para
combater o Covid-19. Ministros da Saúde, médicos, que
saem do governo por discordar do protocolo que prega o
uso da droga não recomendada por organismos científicos.
Um novo ministro da Saúde, um general, capaz e
respeitado no mister da logística, mas sem conhecimento
técnico para aprovar uso de remédios. General que, de uma
tacada só, nomeia dez militares para “militarem” na Pasta.
E mais: uma Secretária da Cultura, atriz famosa, que
deixa seu cargo depois de fritura por parte do chefe,
assumindo novo cargo longe de Brasília. Um ministro da
Educação, gerador de termos e frases que desmontam a
língua portuguesa. Um grupo de generais do Exército,
instituição séria e respeitada, que dá sinais de concordar
com os impropérios do capitão que nos governa,
abandonando trincheiras do bom senso. Um ministro que
comanda a área da economia, mas dá sinais de desespero

ante a projeção de queda de mais de 5% do PIB para este
ano. Um chanceler que “chancela” a mais estapafúrdia
visão do mundo, parecendo um cultor de nova “guerra fria”
entre as potências. A lista de disparates é longa. Paro por
aqui.
A ganância, a ambição, o ataque feroz à natureza, a
ausência do Estado no cumprimento de suas tarefas
constitucionais, como se observa nesse momento de grande
angústia, são responsáveis pela e ocupação maior dos
cemitérios.

Continuaremos a ser um território tomado pela
improvisação caso as normas de boa conduta sejam jogadas
na cesta do lixo. Temos boas leis, um conjunto de
disposições para proteger a sociedade e o meio ambiente.
São desprezadas. Quando as catástrofes ocorrem, uns
jogam a culpa em outros. Agora, a guerra que se trava entre
potências, é para saber onde nasceu o vírus. Ora, o foco
deve ser o combate a ele. Pressões políticas não podem
balizar decisões técnicas.

O momento é de fazer brotar a semente do civismo. A
grandeza de uma Nação não é apenas a soma de suas
riquezas materiais, o produto nacional bruto. Abriga um
conjunto de valores, o sentimento de pátria, a fé e a crença,
o sentido de família, o culto às tradições e aos costumes, o
respeito aos velhos, o amor às crianças, o respeito às leis, a
visão de liberdade, a seiva que faz correr nas veias dos
cidadãos o orgulho pela terra onde nasceram.
Só assim deixaremos de ser o país da piada pronta.


Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político