Sábado, 30 Maio 2020 12:27

MENTIRAS, VERSÕES E LOROTAS

Escrito por Gaudêncio Torquato

De onde parte essa onda de fake news, versões,
simulações e dissimulações que se espraia pela paisagem
no meio da epidemia? Nunca se ouviu um disse me disse
tão farto quanto este do repertório de invencionices que usa
as redes sociais, gravações e vazamentos de conversas,
edição de vídeos, envolvimento de policiais, de juízes e
procuradores?
Fragmentos do que se viu ouviu nos últimos dias:
Bolsonaro tentando interferir no cotidiano da PF; uma
desastrada reunião, em 22 de abril, farta de palavrões;

hordas bolsonaristas agredindo jornalistas, portando faixas
com dizeres desrespeitosos contra os Poderes Legislativos
e Judiciário; pedidos de prisões para ministros do Supremo;
ações policiais sob viés político, enfim, uma profusão de
informações misturadas com falsidades.
Onde estará a verdade? Ou, para ser mais preciso: o que
é verdade? Vamos à análise.
O fingimento faz parte da nossa cultura, e se mostra
forte nesses tempos de polarização, quando adversários se
atracam nas redes sociais desfechando punhaladas
recíprocas. O caráter nacional, como é sabido, é povoado
de fingimento. Nosso folclore político, aliás, é recheado de
historinhas que mostram a esperteza do raposismo que
impregna a vida pública.
Um pouco de humor para exemplificar este fato no
relato de Sebastião Nery: “ José Maria Alkmin, a raposa
mineira, mestre da arte política, chegava da Europa com
cinco garrafas enroladas na pasta. A Alfândega quis saber
o que era.

– Água milagrosa de Fátima.
– Mas tudo isso, doutor Alkmim?
– Sim, lá em Minas o pessoal acredita muito nos
milagres da água de Fátima. Não dá para quem quer.
– O senhor pode desenrolar?
– Pois não, meu filho.
– Mas, deputado, isso é uísque.
– Ué, não é que já se deu o milagre?
É típico da índole do nosso político este tipo de despiste.
Mas a esperteza não se restringe aos atores políticos. Faz
parte do cotidiano das pessoas. Os comportamentos na
esfera política costumam infringir normas, coisa que
herdamos do passado. A clonagem na nossa cultura chega,
hoje, ao mais adiantado grau de sofisticação. Nos últimos
tempos, mergulhamos em um oceano de meias verdades,
mentiras e lorotas. Estamos diante da maior escalada de
pistas falsas de nossa história. Imensa confusão invade as
mentes.

O fato é que a história da política é rica nas frentes da
simulação e dissimulação. O cardeal Mazarino, ministro de
Luis XIII, ensina em seu Breviário dos Políticos: “age com
os teus amigos como se devessem tornar inimigos; o centro
vale mais do que os extremos; mantenha sempre alguma
desconfiança em relação a cada pessoa; a opinião que
fazem de ti não é a melhor do que a opinião que fazem dos
outros; simula, dissimula, não confies em ninguém e fala
bem de todo mundo. E cuidado. Pode ser que neste exato
momento, haja alguém por perto te observando ou te
escutando, alguém que não podes ver”.
A descrição cai bem no momento que atravessa o país.
A falsidade campeia, na tentativa de esconder a verdade.
Até parece que os “inventores de causos” que emergem nas
redes sociais, aprenderam com Nicolau Eymerich, frade
dominicano espanhol que, em 1376, escreveu no “Manual
dos Inquisidores”: falar sem confessar: responder às
perguntas de maneira ambígua; responder acrescentando
uma condição; inverter a pergunta; fingir-se de surpreso;

mudar as palavras da questão; deturpar o sentido das
mensagens; auto justificar-se; fingir debilidade física;
simular demência ou idiotice e até se dar ares de santidade.
Hoje, há muito demônio disfarçado de santo.
E para deixar por instantes esse momento de angústia
que passamos, na esteira de uma das maiores tragédias de
nossa história, fecho o texto com outra historinha contada
por Nery envolvendo o mesmo Alkmin.
Um correligionário de Bocaiúva fica meio “lelé da
cuca” e aparece, sem eira nem beira, no gabinete do
ministro da Fazenda, ainda no Rio de Janeiro, onde lhe
pede inusitada colaboração.
– Dr. Zé Maria, eu quero ir à lua e preciso da ajuda do
senhor, diz o visitante.
– Isto não é problema, diz Alkmin, dando asas à
imaginação do conterrâneo. Dou-lhe o apoio de ministro e
correligionário. Existe um pequeno e contornável
problema, que é de definição, e só depende do amigo.

Alkmin continua:
– Você sabe que há quatro luas: nova, crescente,
minguante e cheia. Agora, compete a você escolher qual
das luas o nobre amigo deseja visitar, pois o apoio está
dado.
Diante de um atônito conterrâneo, o ministro levanta-se
da poltrona, estende a mão para a despedida e afirma,
olhando no fundo dos olhos do eleitor:
– Me procure quando você definir!

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político e de comunicação