Quarta, 03 Junho 2020 13:40

Porandubas nº 668

Escrito por Gudêncio Torquato

Abro a coluna com uma historinha sobre o marechal Dutra.

O C pelo X

O marechal Eurico Gaspar Dutra (1945/1951), como poucos sabem, trocava o c pelo x. Ganhou uma marcha carnavalesca no carnaval de 51:

Voxê qué xabê
Voxê qué xabê
Não pixija sabê
Pra que voxê qué xabê?

Osman Cartaxo, velho amigo da Paraíba, pinça do arquivo de seus engraçados "causos" uma historinha do marechal. De manhã, bem cedo, o marechal saiu do hotel e começou a passear na parede do açude de Pilões, nos confins da Paraíba. O matuto viu aquela figura fardada e tascou:

– Bom dia, coronel.

O velho marechal respondeu de pronto:

– Não xô coronel. Xô o presidente da República.

O matuto emendou:

– Mas não é coronel porque não quer.

Cenário sangrento

Não há perspectiva de melhoria na temperatura política. O cenário exibe sinais de ódio e tiroteio recíproco entre as alas bolsonarista e oposicionista. O último episódio da guerra foi a batalha do domingo, 31 de maio. As torcidas de times de futebol, principalmente Gaviões da Fiel e Mancha Verde, do Corinthians e Palmeiras, se uniram em raro momento de suas histórias, e foram à avenida Paulista desfraldar a bandeira pró-democracia e com slogans fortes contra o governo Bolsonaro. Um grupo bolsonarista se formou, com pequeno número, e a batalha começou. A PM apareceu e o pau comeu. As primeiras análises davam conta de que os policiais bateram apenas nos torcedores, e, com um escudo, protegeram os bolsonaristas. Mas um olhar imparcial para a cena permite dizer que a turma das torcidas bagunçou o coreto. Com depredações e violência.

Os generais

A guerra, até agora contida na frente da política, ganha dimensões mais graves. O general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, era exemplo de moderação no início do governo. Palavra de harmonia e equilíbrio. Depois de manifestações de insatisfação por parte de seu chefe, o capitão-presidente, Heleno tomou o lugar do general Otávio Rêgo Barros, o porta-voz, e passou a fazer defesa candente de Jair Bolsonaro. O general Rêgo recolheu-se, até para tratar da Covid-19, que o pegou. E, para surpresa geral, o ministro da Casa Civil, general Luiz Fernando Ramos, que faz articulação política, aparece agora no front como mais um mensageiro: "respeite o presidente". Pareceu um puxão de orelhas no ministro Celso de Mello, que teve uma mensagem vazada comparando o Brasil com a República de Weimar, Alemanha, golpeada por Hitler.

Luta aberta

Em suma, o que era coisa de bastidor, de conversa entre quatro paredes, vira discurso público. Os generais no entorno do presidente mostram a cara de guerreiros defensores do presidente. Até o general Fernando Azevedo, ministro da Defesa, que até então se comportava como fortaleza constitucional, tendo produzido três notas com o conceito de que as FA são entidades do Estado e não de governo, apareceu no sábado último, ao lado do presidente, no helicóptero que os transportava a uma manifestação de apoio a Bolsonaro. Sinalização de que as Forças perfilam ao lado do chefe do Estado. E assim a luta se escancara. O presidente, a toda hora, lembra que tem o apoio das FA. O que quer dizer isso? Temor de impeachment? Um autogolpe?

Mourão olhando

O fato é que inexistem condições – políticas, sociais – para qualquer ato de intervenção por via militar. Os generais do entorno tomam posição ao lado do presidente, o que não significa, segundo os próprios, adesão a uma ação contra a Constituição. Chama a atenção que o vice-presidente, general Mourão, que era muito expressivo quando dirigia o Clube Militar, hoje é o quadro que expressa moderação. Começa a formar um grupo de admiradores, que o veem como um perfil bem encaixado em eventual vacância da cadeira presidencial.

Maia, a palavra política

Quem interpreta bem o papel das Forças Armadas é o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que, nesse início de semana, fez adequada ponderação. Para ele, generais que estão no governo de Jair Bolsonaro (sem partido) não representam as Forças Armadas. A declaração de Maia foi feita ao jornalista Tales Faria, do UOL: "Um ministro que é general da reserva, ou ainda está na ativa e vira ministro de um governo, não representa as Forças Armadas. Elas [as Forças Armadas] representam o Estado brasileiro.

57 milhões de votos?

Nos idos do passado, quando um político se vangloriava de seus feitos, desfilando milhares de votos, Tancredo Neves, o sábio, retrucava:

- Você teve, mas não tem mais.

Pois bem, os bolsonaristas repetem e repetem o bordão: nosso presidente tem 57 milhões de votos. Ora, isso não é mais verdade. Se ainda tem 30% de apoiadores (e há dúvidas se ainda é esse número), haveria 70% contrários. Todas as pesquisas mostram que cresce sua rejeição. Portanto, há de se ter cuidado no uso das quantidades favoráveis a Bolsonaro. Os próximos tempos exibirão a verdade.

Pressão sobre os governos

A pressão sobre os governadores para que sejam flexíveis à política do isolamento começa a dar resultados. Alguns já tomaram decisões para reabrir áreas do comércio e dos serviços, mesmo de maneira gradativa. Ocorre que, segundo a OMS e outras instituições, não chegamos ainda ao pico da pandemia. Os recordes de casos – mais de meio milhão de infectados, beirando 35 mil mortos – aparecem dia a dia. Governadores e prefeitos estão com um olho na saúde e outro nas urnas de novembro ou dezembro, de acordo com decisão a ser tomada pelo TSE. Ninguém quer se aventurar no canto extremo de uma decisão mais radical. O lockdown – medida mais forte de isolamento – foi rompido nas praças onde foi adotado.

O assassinato de Floyd

O imponderável é um fenômeno que visita países de facetas múltiplas. O assassinato de um homem negro, George Floyd, em Minneapolis, EUA, por um policial branco, que o sufocou por quase 9 minutos, colocando seu joelho sobre o pescoço da vítima, era a pólvora que faltava para incendiar a fogueira que se expande pela nação americana. Trump, que já vinha em queda por seu desleixo na adoção de medidas contra o Covid-19, agora é alvo da indignação social. Milhares de pessoas nas ruas, juntando tanto democratas quanto republicanos, podem se transformar na arma letal contra a candidatura de Donald Trump em novembro. O povo está acompanhando os fatos da política, aqui e alhures.

As ruas no Brasil

Por aqui, emerge a sensação de que as multidões, que não passavam de grupos pequenos até recentemente, começam a redescobrir as ruas. Em junho de 2013, as massas foram às ruas. E agora, manifestações a favor e contra o governo, redescobrem a rua como caminho a seguir para expressar satisfação/insatisfação com o estado das coisas. Bolsonaro tem interesse em motivar sua galera. Mas comete o erro de antecipar por muito tempo o pleito de 2022. Poucos eleitores têm propensão para aguentar climas eleitorais por muito tempo. O copo da paciência transbordará. Mas há algo que pode ser o carro-puxador das massas: a pandemia e a economia. Mortes e mortes, com medidas que não estão dando certo, causam revolta. E barriga roncando, com pouco dinheiro no bolso para comprar o básico, também enfurece o coração e o sangue sobe à cabeça. Logo....

Tudo não será como antes

"Tudo como antes no quartel d'Abrantes". Como se sabe, a frase quer dizer: nada mudou. E tem uma história por trás. Portugal foi invadido por tropas francesas porque demorou a obedecer ao bloqueio imposto por Napoleão. O general Jean Junot, braço-direito de Napoleão, ocupou a cidade de Abrantes, onde instalou seu quartel. Nomeou-se duque. D João VI havia fugido para o Brasil. Ninguém se opunha ao general. Tudo era tranquilo. E quando se perguntava sobre novidades, vinha a resposta: "está tudo como dantes no quartel d'Abrantes". Pois bem, leitoras e leitores, não pensem que, após a pandemia, tudo será como antes. O Novo Normal não fará uma devastação sobre o mundo anterior, mas haverá mudança nos costumes, no trabalho, nas formas de produção, nos costumes e comportamentos e até na política. O Novo Normal não nos levará ao mal. Um tempo de bonança poderá nascer numa era de temperança.

Em alta

- Médicos, enfermeiros(as), profissionais da saúde

- Trabalho em casa

- Reflexão sobre a vida

- Família

- Jardins e plantas

- Delivery

- Redescoberta das ruas

- Expressão escrita

- Contemplação do pôr do sol

- Filmes na TV

- Valores: solidariedade, amizade, simplicidade, integração de esforços, disciplina, despojamento

Em baixa

A Coluna deixa esse espaço em branco. Que cada um faça sua lista.

Pequenas lições para candidatos (as)

- Saber ler corretamente o meio ambiente, os novos valores do eleitorado e as motivações de voto.

- Escolher o discurso para o momento adequado.

- Definir segmentos-alvo do eleitorado. O Brasil torna-se mais racional.

- Selecionar sólidos reforçadores de decisão de voto.

- Descentralizar a campanha para multiplicar pontos de eco e agregar organizações intermediárias.

- Compor programa simples, objetivo, factível. Atenção na área da Saúde.

- Trabalhar com modelos diferenciados de pesquisa.

- Programar ações de impacto.

- Organizar estrutura adequada e estabelecer cronograma prevendo: lançamento da campanha (junho/julho); crescimento (julho/agosto); consolidação/maturidade (setembro); clímax (segunda quinzena de outubro – últimas semanas antes eleição); declínio (evitar que esta fase ocorra antes da eleição - novembro ou dezembro).

- Garantir meios e recursos.

T.S. Elliot

"Somente aqueles que se arriscam a ir longe, sabem até onde podem chegar".

Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato, (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.