Sábado, 06 Junho 2020 15:04

UMA NOTA ACIMA DO TOM

Escrito por Gaudêncio Torquato

Basta apurar os sentidos para perceber que há uma nota
acima do tom na orquestração da política. O presidente da
República tem se comportado como um incontrolável
rebelde no uso da liturgia da expressão. Todos os dias recita
substantivos ácidos e adjetivos ferinos para animar suas
galeras e atacar adversários. Magistrados, de alto coturno,
incluindo os que carregam grande bagagem no acervo do
Direito, extravasam a linguagem peculiar dos juízes,
abrindo polêmica na frente institucional. Dos políticos,
então, tanto dos bastiões de defesa do governo quanto das

hostes de oposição, o tiroteio do palanque virtual não
arrefeceu como seria de esperar nesses tempos de
encolhimento pandêmico.
A conclusão a que se pode chegar sinaliza para uma
sobrecarga de energia acumulada, como se o alvo dos tiros
não fosse o danado do Covid-19 e sim os interlocutores e
protagonistas que agem nas esferas das nossas instituições.
Até os generais que, em tempos idos, sob o escudo da
hierarquia e da disciplina, eram comedidos no uso do
verbo, extrapolam os limites de sua linguagem. É razoável
pensar que esses comportamentos venham a oxigenar nossa
democracia ante a hipótese de que o franco debate desperta
a sociedade, mas há uma questão de fundo a balizar o jogo
das ideias. Povoam a paisagem temas como intervenção
militar, golpe, impeachment, rebelião social, entre outros.
Há de se ter cuidado com a banalização de escopos desse
teor.

Entremos nos temas. A retórica de conflitos, como
podemos designar as querelas, se impregna de interesse

estratégico dos protagonistas eleitorais. O presidente
Bolsonaro estica a campanha de 2018 até hoje. Os 30% que
o apoiam montam na garupa do azarão. O PT, que perdeu
o trono depois do gigantesco buraco em que afundou o país,
só pensa em voltar ao primeiro plano da cena. Basta ver
Lula, condenado em duas instâncias, defendendo agora a
primazia do PT na esfera partidária, negando-se a assinar
manifestos em favor da democracia ao lado de entidades de
renome. Os grandes partidos já apontam alguns nomes
como eventuais candidatos em 2022. As médias e pequenas
siglas se atrelam a quem, nesse momento, lhes oferece
recompensas. São, por exemplo, os entes que formam o
Centrão e que começam a se aboletar no governo
Bolsonaro.

Sob a malha eleitoral, a polarização política ganha
volume e agita chefes, chefetes e lideranças de todos os
setores. Para acirrar as tensões, enfrenta o país uma das
maiores (senão a maior) epidemia de sua história, que
causa milhares de mortos, podendo, logo, logo, chegar aos

milhões de contaminados. A tragédia se expande na onda
de uma reversão da economia, que esvazia o bolso de
milhões de pessoas, empobrecendo as classes sociais,
podendo até gerar convulsões aqui e ali, abrindo caminho
para o caos social.
É evidente que, sob esse risco, estariam criadas as
condições para a arrebentação da maré política, dando
margem a eventos graves na esfera do Congresso Nacional.
Portanto, a ideia de impeachment só se fundamenta na base
da mobilização social, sendo improvável pensar em
afastamento do presidente como ato unilateral do
Parlamento. Só mesmo uma onda centrípeta – das margens
para o centro – seria capaz de dar xeque mortal no tabuleiro
da política.
Da mesma forma, é irrazoável a alternativa de
intervenção militar. As Forças Armadas, com muito custo
e graças ao profissionalismo, conseguiram firmar imagem
de respeito, credibilidade e seriedade. Não topariam entrar
numa aventura de tomada do poder na marra. Podem ir às

ruas, em caráter excepcional, para garantir a lei e a ordem.
A par desse compromisso, sempre renovado por suas
lideranças, as Forças estão diante de uma sociedade mais
atenta, crítica e solidária. Há um formidável contingente
formado por imensa classe média, onde habitam núcleos
que tendem a rejeitar os extremos do espectro ideológico.
Apenas um minúsculo grupo - que não chega a 10% da
população -, perfilaria a ideia de um golpe para levar o país
ao território do autoritarismo.

Portanto, é conveniente baixar a bola, senhores
guerreiros da arena político-institucional. O momento está
a exigir que o foco de combate ao novo coronavírus não
seja tumultuado por tiros dados ao léu, como a lenha que
os fogueteiros de todos os lados jogam nas redes sociais,
com calúnias, difamações, versões estapafúrdias.
Quanto aos magistrados, generais e mandatários, a
mensagem é esta dos romanos: homo loquax, homo mendax
– homem falador é homem mentiroso. Ou acaba se
transformando em mentiroso.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político