Sábado, 13 Junho 2020 14:12

A RAZÃO SOBRE A EMOÇÃO

Escrito por Gaudêncio Torquato

O voto, a maior arma de defesa da democracia, está
deixando o coração para subir à cabeça. A hipótese pode
até parecer estrambótica nesses tempos de intensa
polarização, quando o frenesi das emoções parece
ganhar de capote para o jogo da razão. Enganam-se,
porém, aqueles que imaginam emoção como sinônimo
de explosão, catarse, palavras de baixo calão (que
passaram a frequentar a linguagem dos governantes),
slogans, refrãos, culto aos mitos. Quando alguém, ante

uma tragédia como a que estamos vivenciando com a
pandemia do Covid-19, diz - “nunca vi tanto desgoverno,
não aguento mais, estou arrependido do meu voto na
última eleição” - está falando pelo coração ou pela
cabeça?
À primeira vista, as expressões parecem sair das veias
do coração. Ocorre que elas são o resultado de um
somatório de conhecimento, acompanhamento da
política, comparação com outros ciclos históricos,
observação acurada do que se passa ao redor. Nesse
caso, temos de convir que um processo racional se
desenvolveu. A razão prevaleceu, admitindo-se, claro,
que coabita com a emoção na vida dos interlocutores. O
fato é que, nas últimas décadas, decepcionadas com
representantes e governantes, as pessoas dão as costas à
política e iniciam uma jornada de revisão em sua
maneira de escolher os quadros públicos.
Na Europa, o desenvolvimento do sentido crítico
ocorre ao longo dos ciclos políticos. Políticas sociais

fracassadas, os desvios da socialdemocracia, projetos
liberalizantes que não deram certo, projetos inadequados
e mesmo a corrupção têm sido o pano de fundo para a
alteração dos comandos entre partidos. O afastamento de
uns e a chegada de outros ao poder ocorre sob o fluxo de
um conceito que os franceses designam como
“autogestão” técnica, pelo qual as pessoas definem o que
esperam e o que querem dos governos e estabelecem
meios e condições para atingir sua meta. Nos EUA, onde
dois partidos dominam a cena, democrata e republicano,
é mais fácil selecionar representantes e governantes.
Vota-se naquele que melhor atende as expectativas do
eleitor.
Por nossas plagas, a paisagem é deserta. De ideias e
líderes. Imensos buracos negros se multiplicam na
constelação política, abertos pela ausência de expressões
de porte, quadros qualificados, pensadores e
formuladores políticos de alta densidade. Não se formam
mais políticos como antigamente. Lembre-se, no

entanto, que mudaram as condições da política. Os
parlamentos já não têm mais a força de antigamente, as
oposições perderam parte de seu tradicional vigor, o
discurso se torna grupal/partidário/fisiológico, enquanto
as tribunas não conseguem traduzir a liturgia e o calor
dos grandes embates.
O carisma, brilho próprio e nato que serve para
emoldurar perfis, também fenece sob a frieza calculista
da política de resultados. As causas nacionais cedem
lugar a interesses de grupos e setores. As linguagens se
aproximam. Os comportamentos se igualam. O varejo se
instala na esteira do conceito da política, que deixa de
ser missão para ser profissão. A ética ganha contornos
adjetivados para servir às circunstâncias.
A coragem, a audácia, o zelo e a obstinação, valores
inerentes às lideranças, tornam-se escassos. O rigor na
apuração de escândalos só ocorre sob o paredão de
pressão da opinião pública. Quando a sociedade reclama,
o sistema político corta dedos para não perder os braços.

E o que faz o líder? Defende frentes de interesse.
Grupamentos corporativos. A liderança natural está
agonizante. O caso de Lula é emblemático. Seu estoque
de carisma está se esvaziando. Tem o PT como seu trono,
onde assume o papel de onipotente e onisciente. Diz que
o PT não assina lista de Frente Ampla porque o partido
não é mais aquele do dito politicamente incorreto:
“Maria vai com as outras”. Falha de razão e excesso de
emoção.
A esfera política não vê a nova identidade em
desenvolvimento no Brasil. Que cresce sob o signo da
razão, do planejamento, do aproveitamento de
oportunidades. No paiol das lideranças, as cores da
mesmice se instalaram há muitos anos, gerando um
discurso que não afeta, não entusiasma, não entra na
alma. Nomes ali expostos são os mesmos de 20, 30 anos
atrás.
Nesse ano de pandemia, a ser seguido pelo calendário
eleitoral, o superlativo dominará a expressão política, a

verdade se cobrirá com as cores de fake news, e o mundo
real dividirá suas cores com o mundo virtual. Esperemos
que a passarela entre esses dois universos seja
pavimentada pela prevalência da razão sobre a emoção.
E que não deixemos a polarização eleger radicais. Que o
cabo de guerra seja substituído pelo tronco da paz.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político