Sábado, 20 Junho 2020 15:16

O GOVERNO NA CORDA BAMBA

Escrito por Gaudêncio Torquato

A administração de um governo passa por cinco fases:
a do lançamento, quando o governante toma posse e
apresenta seus quadros; a do crescimento, quando os
governos formam e ajustam suas estruturas, começam a
apresentar programas e ações, em um espaço de seis meses;
a de consolidação da imagem, quando os níveis de
confiança ganham um patamar de respeito e credibilidade,
merecendo os aplausos da sociedade; a do clímax, quando
os governos sobem ao cume da louvação, com um grau de

avaliação positiva que chega a beirar 70%; por último, a
fase do declínio, que mostra administrações sem rumo,
desestruturadas, vivendo crises e descendo pelo precipício.
O ideal é que um candidato ou governante – em caso de
reeleição – viva seu clímax às vésperas do pleito a se
realizar, jamais antecipando o momento de declínio.
Desse traçado, advém a questão: em que estágio se
encontra o governo Bolsonaro, com um ano e seis meses
de vida? Deixemos que o leitor, ao final, encontre a
resposta. De antemão, uma observação pertinente na
ciência e na arte da política: um protagonista, a depender
de habilidades e circunstâncias, pode recuperar seu vetor
de peso. Dito isto, vamos às considerações.
O governo Bolsonaro está na corda bamba: enfrenta
uma das maiores crises sanitárias da história do país, com
o Brasil ingressando no pódio do maior número de mortos
em 24 horas; na economia, a projeção para a queda do PIB
este ano é de 9,7%; a crise política é aguda, tanto pelas
dificuldades na formação de uma base parlamentar de

apoio quanto nas tensões geradas pelo estilo intempestivo
do presidente; na frente administrativa, a instabilidade se
expande com a troca de ministros e tensões geradas pelo
palavreado obtuso de figuras desastradas como Abraham
Weintraub.

Esse quadro é ainda agravado pela agenda negativa que
se desenvolve no STF. Que levará adiante o inquérito das
fake news, enquanto prossegue o inquérito para apurar “a
grave crise institucional”, aberta com ameaças à
independência dos ministros do Supremo e a seus
familiares, palavras pesadas e de baixo calão, disparos de
fogos contra a sede da Alta Corte. Na esfera policial, a
prisão de Fabrício Queiroz aproxima a fogueira da família
Bolsonaro. Para o presidente, mexer com seus filhos é
questão de vida ou morte. Atordoa sua alma.
Na paisagem da saúde, o caos está à vista. O ministro
interino, Eduardo Pazuello, parece sem rumo. O ministério
da Economia acaba de perder um quadro de alta referência,
Mansueto Almeida, que se mostra esgotado. Os graves

efeitos nessas duas linhas de ação do governo – saúde e
economia – não sinalizam melhorias no curto prazo, sendo
bem provável que os danos se estendam por 2021, após o
clamor político que sairá da garganta dos 5.570 prefeitos,
eleitos para comandar estruturas falidas e execradas pelo
eleitor.

Há mais um cenário desesperador para a administração
Bolsonaro. Eventual derrota de Trump na eleição
presidencial de novembro deste ano pegará Bolsonaro
“caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento
no sol de quase dezembro” e sem saber para onde irá. O
Brasil passou a ser extensão do trumpismo no mundo. O
que Donald diz e quer, o chanceler Ernesto Araújo
chancela e o presidente diz “amém”. Afinal “são amigos”.
A ponto de Trump ter implodido o candidato do Brasil,
escolhido por Paulo Guedes, Rodrigo Xavier, para dirigir o
BID, geralmente comandado por um latino-americano.
Será desta feita um norte-americano. O Brasil vai enfrentar
a China como fazem os EUA?

E mais uma nota negativa: cai o apoio aos militares,
segundo as pesquisas. Os generais, até meses atrás,
encarnavam o valor do profissionalismo. Desde a saída do
general Santos Cruz do governo, os que continuam no
entorno presidencial endureceram o discurso. Passaram a
acrescentar um viés político às falas. São extensores da
linguagem desabrida do presidente. Em maio, o percentual
de publicações negativas nas redes subiu para 55% e as
positivas desceram para 45%. No ano passado, as positivas
sobre os militares eram e 69% e as negativas, de 31%.
Voltemos à pergunta inicial: em que estágio se encontra
o governo? Terá condições de resgatar seus vetores de peso
nas esferas da pandemia, da economia e da política? Nos
EUA, um dos fatores que derrubam Trump - com 13 pontos
percentuais atrás de Joe Biden, o candidato democrata – é
a má condução no combate à pandemia. Teremos até
outubro de 2022 muita água a rolar por baixo dos palácios
e das cúpulas côncava e convexa do Congresso. A índole

de Jair Bolsonaro é um fator de conforto ou de
desconforto?

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político