Sábado, 27 Junho 2020 13:55

REFLEXÕES NA CRISE

Escrito por GAUDÊNCIO TORQUATO

O Covid-19 deixará um rastro de destruição sobre a
Humanidade. Negócios serão aniquilados,
empreendimentos deverão ser remodelados, o saber
deixará de ganhar valiosos avanços, milhões de crianças
perderão tempos preciosos na aprendizagem, a pobreza
cobrirá o planeta com sua devastadora capacidade de
aumentar as desigualdades sociais, a angústia e a depressão
vestirão milhões, senão bilhões, de pessoas com o manto
da tristeza. O planeta atrasará em muito seu ritmo de

avanços. Há quem faça projeções mais otimistas, como
essas que sinalizam descobertas revolucionárias na
medicina, com a chegadas das vacinas, a integração
solidária entre as Nações no esforço de encontrar armas
eficazes para combater as doenças e seus surtos, maiores
investimentos em saúde e no bem-estar das pessoas.
É razoável apostar, sim, em passos adiante. Mas não há
como deixar de reconhecer o atraso na vida educacional de
uma geração, obrigada a permanecer em casa, mesmo
assistindo as aulas por meios virtuais. Aliás, esse
ensinamento à distância, seja para crianças, jovens e
adultos, deixa muito a desejar. Vejamos as aulas para
jovens, por exemplo. Passar quatro horas ouvindo um ou
dois professores, em sequência, ministrando aulas para
uma plateia virtual, lendo seus escritos - mesmo bem
fundamentados - é um exercício cansativo e pesaroso.
Poucos prestam atenção ao pensamento do mestre, a
interação é muito escassa, o diálogo, peça essencial na
aprendizagem, se perde na cadência monótona do

bombardeio mental. Imaginem o que significa o atraso de
um semestre, de um ano, na vida de um estudante. Ou
mesmo a defasagem educacional que perseguirá sua
trajetória, a não ser que faça extraordinário esforço, mais
adiante, para recuperar os passos perdidos. E mais: se essa

metodologia de ensino virtual for adotada nos tempos pós-
pandêmicos, haverá de ser bem recauchutada.

Milhões de micros, pequenos e médios negócios
fecharão as portas. O pequeno empresariado tem pela
frente o desafio de recomeçar, talvez em outras áreas, os
seus afazeres. Reconstruir o que foi perdido. Remontar o
que o bichinho microscópico corroeu. Os gigantescos
conglomerados também sofrem, mas os grandes círculos de
negócios sempre arrumam um jeito de perder aqui e ganhar
ali, no jogo de oportunidades que eles tão bem dominam.
No plano espiritual, os danos maltratam mentes e
corações na forma de impactos emocionais e racionais.
Quantas pessoas estão desabando no despenhadeiro da
depressão, da angústia e da tristeza, quando em suas
redomas repassam suas vidas, o tempo perdido em apostas

sobre o futuro, em uma cadeia de ilusões que se desfazem
nas correntes de vento que balançam a vida. O que fazer,
como refazer, tem sentido pensar em um novo modus
vivendi, que lógica conduzirá meus passos amanhã? Claro,
milhões de pessoas não serão atingidas pelo vírus da
depressão. Continuarão suas vidas sem acréscimo de uma
vírgula aos capítulos de seu cotidiano. Certas camadas são
insensíveis às intempéries da vida.
Mas volto os olhos aos imensos contingentes que
pensam muito sobre o circuito de sua existência. Que
sofrem em ver tantas injustiças, que se tomam de
indignação contra a corrupção na política, que não se
conformam com a facilidade como as massas são
manipuladas, com os desvarios de governos, pessoas que
têm grande dom de se expressar e pequena motivação para
agir. Penso nos milhões que estão fora da mesa do
consumo, padecendo sua fome em acampamentos em
terras isoladas e devastadas por guerras, nos milhões de
crianças recém-nascidas que não chegam a viver para
compreender o que são e onde estão.

São pensamentos e reflexões na crise. E aqui por nossas
plagas, o que poderá acontecer? Se os tempos fossem
normais, a hipótese se configuraria como verdadeira: Jair
Bolsonaro não completaria o mandato. O repertório de
situações absurdas e a ineficiência de seu governo
abasteceriam os estoques de contrariedade no meio da
sociedade e a pressão sobre a esfera política para sua
defenestração assumiria intensidade inigualável. Mas em
tempo de pandemia, qualquer ato político impactante
semeará caos no país. A alternativa que resta é a pressão
por mudanças: no comportamento do presidente, na
motivação dos políticos para dar continuidade às reformas,
na força aos governos e municípios para que possam ser
bem-sucedidos em sua guerra contra o Covid-19.
Quanto às eleições de novembro – na crença de que
serão adiadas –, que os candidatos reflitam sobre seu
discurso, sua maneira de se apresentar ao eleitorado e
procurem realizar um ato de contrição. Sejam simples,
modestos, honestos e sinceros. Amanhã será outro dia.

GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político