Sábado, 04 Julho 2020 11:37

O VOTO DO NOVO CORONA

Escrito por Gaudêncio Torquato

Definidas as datas do primeiro e segundo turnos das
eleições – 15 e 29 de novembro – a maior interrogação
sobre o pleito se espraia pelo território: afinal, para onde
irá o voto influenciado pelo novo “coronel”, desculpem, o
novo corona da política? Há uma teia de circunstâncias a
sinalizar a direção dos ventos pandêmicos, em novembro,
a partir da hipótese central de que o danado do vírus já
estaria dominado pelos avanços medicinais e pela própria
imunidade da população. Por isso, qualquer apontamento

sobre tendências haverá de considerar o que este analista
batiza de Produto Nacional Bruto da Felicidade. Abaixo de
5, a desgraceira será geral, com alto índice de renovação
nos perfis dos alcaides. Acima de 5, teremos uma mescla
de gente nova, prefeitos reeleitos e até velhos nomes de
volta ao palco.
Façamos algumas projeções. Uma delas é que as
mulheres ganharam evidência na conjuntura de crise, mais
falantes e valentes na crítica aos precários serviços
públicos. Apareceram com maior visibilidade. A par dessa
questão pontual, há de se avocar a condição feminina nas
atividades do cotidiano, que adquirem realce nas crises,
quando a mulher se apresenta falando na educação dos
filhos, no trabalho que se torna mais difícil, na azáfama que
ela tenta organizar para diminuir as intempéries
enfrentadas pela família. A mulher como organizadora,
tomadora de conta do lar, atenta à penca de filhos. Daí
emerge a inferência: serão reconhecidas como tal,
merecendo o voto de fortes parcelas eleitorais.

Um fenômeno que se expande no país, ao sabor dos
movimentos que se multiplicam no contexto das Nações, é
o da organicidade social. Observo esta tendência, já
consolidada na Europa e nos EUA e atravessando novas
fronteiras nos países orientais – vejam Hong-Kong – , e que
se desenvolve no Brasil de maneira mais consistente desde
a Constituição de 1988. A chamada Constituição Cidadã
abriu um imenso leque de direitos individuais e sociais que,
nos últimos anos, se tornaram movimentos organizados,
com personalidade jurídica, capazes de fazer mobilizações
de rua.
A força dessa movimentação se avoluma na esteira do
descrédito com que a sociedade passa a enxergar a classe
política. Representantes no Parlamento e governantes no
Executivo deixam de cumprir tarefas, aparecem nas bases
apenas nos ciclos eleitorais, operando no balcão da velha
política. Desacreditados, esses obsoletos cultores do
passado ganharão passaporte para ficar em casa. Ora, a
descrença generalizada na política abriu imenso vácuo
entre a sociedade e o universo político. E quem ocupou este

vácuo? Exatamente as entidades organizadas. Que
fundaram novos polos de poder. Tornaram-se referência
para grupos, núcleos, setores. A intermediação social
entrou forte nas frentes de pressão. Os corredores do
Congresso tornaram-se passarela para o desfile de
associações, sindicatos, federações, núcleos, grupos,
movimentos de todos os tipos. Pois bem, o voto em
novembro terá essa forte alavanca organizativa.
Outro vetor de peso eleitoral é o das frentes
parlamentares, formadas por bancadas de defesa de
círculos de negócios. A rigor, fazem parte do circuito
anterior aqui descrito, mas por sua importância na
composição parlamentar merecem um destaque. Agrupam
as bancadas religiosa, do agronegócio, dos servidores
públicos, dos militares, do setor de serviços, dos
profissionais liberais etc. Essas bancadas tendem a se
consolidar na moldura organizativa do país, seguindo uma
tendência mundial, muito característica dos EUA, onde o
voto vai geralmente para o representante dos interesses
locais e das regiões. Nesse sentido, podemos deduzir que o

voto distrital tende a se fortalecer na paisagem social, onde
as classes sociais se subdividem em núcleos específicos. Os
deputados querem aumentar suas bases.
A par dessas projeções, podemos divisar uma
composição ditada pelo modo como categorias enxergam a
política. Os profissionais liberais, por exemplo, tendem a
depositar na urna um voto mais racional que emocional. O
voto no Brasil está deixando o coração para subir à cabeça.
Significa que estamos subindo degraus na escada da
racionalidade. Esse tipo de voto se concentra nas grandes e
médias cidades, mais abertas aos meios de comunicação e
às críticas aos governantes. No contraponto, enxergamos
traços do passado em rincões que pararam no tempo, o
habitat de raposas da velha política, com seus nacos
garantidos em administrações falidas.
Em suma, o novo coronel (desculpem, o novo corona)
estará na fila das seções eleitorais.


Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político