Domingo, 12 Julho 2020 15:25

A POLITIZAÇÃO DA PANDEMIA

Escrito por GAUDÊNCIO TORQUATO

Cada coisa em seu lugar. Ou, em outros termos, cada
macaco em seu galho. A popular expressão aconselha que
cada pessoa deve exercer o que é de sua competência, fazer
o que é de sua atribuição, sem mexer em coisas que
desconhece. Cada um na sua. O conselho cai bem nesses
turbulentos tempos em que o Covid-19 foi puxado das salas
da medicina para o palanque político. A pergunta é
inevitável: permanecesse no campo da ciência, esse
mortífero vírus teria matado tanta gente, aqui e alhures?

Caso os governantes tivessem adotado as recomendações
de especialistas, esse vírus, que mede bilionésimos de um
metro, teria infectado mais de 12 milhões de pessoas no
mundo (dados desta 5a feira) e matado até agora cerca de
600 mil pessoas?
Para ficarmos em nossas plagas, se o presidente Jair
Bolsonaro não fosse uma das principais alavancas da
politização da pandemia, se governadores e prefeitos
tivessem adotado medidas tecnicamente necessárias desde
os tempos iniciais da crise sanitária, concentraria o Brasil
14% dos diagnósticos do planeta, com 1,7 milhão de
infectados e cerca de 70 mil mortes? A resposta de bom
senso apontaria para uma quantidade bem menor. O que
leva à conclusão: a falta de cumprimento de preceitos da
ciência por parte dos gestores públicos tem sido
responsável pela mortandade que se espalha, puxando para
as nossas cabeças a ideia de que, sob esse prisma, estaria
sendo cometido um genocídio.

O fato é que a doença foi conduzida aos laboratórios da
política, em que dirigentes tentam descobrir remédios para
tirar proveito da situação, em que se indicam drogas
rejeitadas por organismos internacionais de saúde pública,
infectologistas e biólogos, em que muitos vestem o manto
de salvadores do povo, em que se puxa a fé das massas para
o balcão das oportunidades. Receitar a tal da
hidroxicloroquina ou o vermífugo ivermectina, apenas com
ligeiras indicações de que são remédios potencialmente
fortes contra o vírus, sendo que em relação ao primeiro há
consenso sobre graves danos colaterais, não é um ato de
insanidade, desrespeito às recomendações científicas,
irresponsabilidade no trato da saúde pública?
As massas tendem a imitar as práticas de seus líderes.
Se o presidente da República, do alto de sua autoridade,
toma ele mesmo a droga não recomendada por organismos
internacionais, por que não devemos fazer o mesmo?
Milhares de pessoas assim pensam. Pior ainda é deduzir
que muita gente poderá morrer sob os efeitos deletérios do

remédio. Por isso, a orientação sobre prevenção, os hábitos
de higiene, a quarentena e a reabertura cuidadosa das
atividades comerciais, entre as principais medidas,
integram o circuito do bom senso. Até surgir a tão esperada
vacina, quaisquer outras iniciativas entram no buraco negro
da especulação.
Não há outra conclusão para as ações demagógicas que
algumas autoridades estão realizando: compram milhões
de comprimidos das drogas aqui referidas e as distribuem
às populações. Numa importante e linda cidade de um
Estado do Sul, o prefeito faz distribuição de ivermectina
como um programa de saúde pública. Ao que se comenta,
como não há efeitos colaterais, o programa é bem aceito,
sob o crivo de médicos que fazem a ironia: “esses placebos
pré-eleitorais, essas gotinhas de cânfora homeopática
distribuídas em vidrinho ao povo (coisa que começou em
março), esses vermífugos têm efeito zero. Com uma
certeza: quem morrer por aqui – seja do que for – morrerá
sem sarna, piolho ou vermes.”

Infelizmente, a politização da pandemia vai continuar
a animar por mais algum tempo as alas bolsonaristas e
adversários, pois isso interessa aos polos extremos do arco
ideológico. Mas é possível constatar que o copo das
querelas e acusações recíprocas começa a transbordar. Só
mesmo os 15% dos fiéis radicais do bolsonarismo e um
índice até menor da extrema esquerda apreciam este
tiroteio verbal. Felizmente, o Facebook está excluindo
cerca de 80 contas de seu espaço, acusadas de manipulação
por integrantes do tal “gabinete do ódio”, instalado no
Palácio do Planalto. Uma companhia do tamanho e
respeitabilidade do Facebook não faria isso sem provas.
Por isso, devemos acreditar no arrefecimento da
polarização. Ademais, fortes contingentes das classes
médias, a partir do influente grupo de profissionais liberais,
já estão saturados de tanta radicalização. Tendem a se
afastar dos extremos. Só não enxergam tal tendência cegos
da mente. A conferir.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político