Sábado, 18 Julho 2020 12:48

E SE A LOCOMOTIVA PARA?

Escrito por Gaudêncio Torquato

Haja terra para cobrir o buraco em que se encontra um
país que nem se livrara, ainda, da recessão dos tempos de
pré-pandemia. Como preencher a gigantesca lacuna,
agravada nesse ciclo de enfrentamento da crise econômica
(que se arrasta desde 2015), cujos recursos têm sido
desviados para combater a pandemia do Covid-19? Se as
novas toneladas de terra para tapar o buraco mexerem com
o bolso dos consumidores na forma de um imposto que
lembre a malfadada CPMF, conforme intenciona o
ministro Paulo Guedes, a vaca irá logo ao brejo, inviabilizando

a escada política em que tentará subir uma
leva de candidatos comprometidos com o status quo.
O fato é que o país se encontra em recessão, com
empresas autorizadas a suspender contratos, diminuir
jornadas e reduzir salários, expandindo a massa de inativos
e com apenas 83,7 milhões de brasileiros ocupados de um
total de 170 milhões em condições de trabalhar. Alguém
terá de pagar a conta logo nesse momento que aponta para
o empobrecimento da população pós-pandemia. Parcela
forte das margens sociais já padece de fome. O vírus se
alastra do centro para as margens, abrindo um rastro de
destruição e inaugurando a casa dos 2 milhões de
contaminados.

O governo se vê diante de um impasse: arrumar recursos
para poder cumprir tarefas de seu cotidiano em áreas
fundamentais – saúde, educação, segurança, mobilidade
urbana, programas de infraestrutura – e, ao mesmo tempo,
alongar os braços sociais, com meios que possam garantir
a sobrevivência de contingentes carentes. O auxílio

emergencial será passageiro e Guedes afirma que o
governo não tem caixa para bancar a fortaleza social. O que
fazer?

Pelo andar da carruagem, será difícil que ela chegue nas
localidades em condições normais. Veremos cavalos
trôpegos, cansados e famintos. E não será recebida com
festa pelas populações que irão às urnas em 15 de
novembro. Todos os corpos da pirâmide social se
encontrarão abalados pela catástrofe perpetrada pelo
maldito vírus. Vejam o tamanho do impacto. As margens
necessitadas, caso não disponham de ampla rede social,
tendem a despejar sua revolta sobre aqueles que tem
mexido no caldeirão da crise. Ainda mais se o desemprego
continuar a fazer sua ronda persecutória.
A seguir, emergirá o vulcão das classes médias, aqui no
plural, pela distinção entre uma classe média alta (A), uma
média-média (B) e uma classe média mais necessitada (C).
No seu interior, fervilham adjetivos e substantivos de todos
os tipos, dos mais baixos aos mais altos, versando sobre a

corrupção na política, a roubalheira, a má gestão dos
serviços públicos, a relação entre autoridade pública e
endemoniados. São esses grupamentos que dispõem de
maior capacidade de expressão, exercendo liderança sobre
núcleos e setores. Arrastam consigo as turbas ignaras e
dispostas a mudar o feitio da política.
É nesse sentido que a economia puxa a política.
Comparemos a economia como a locomotiva que puxa os
vagões das classes. Se emperrar ou correr em ritmo muito
lento, criará balbúrdia e revolta nos passageiros. E essa
revolta sinaliza nas urnas um voto discordante, dado a um
candidato que encarne o espírito da indignação. É
oportuno, ainda, lembrar a equação com a qual tento
explicar a índole das massas. Parto dos quatro mecanismos,
também chamados instintos, avocados por Pavlov, dois
voltados para a sobrevivência/conservação do indivíduo e
dois ligados à conservação da espécie: o combativo, o
nutritivo, o sexual e o paternal.

Pois bem, os dois primeiros explicam o sentido de luta
do ser humano para sobreviver, a luta contra as intempéries
da natureza, a luta contra ameaças de outra pessoa, enfim,
o combate por boas condições de vida. O segundo instinto
apela para a comida, os insumos necessários à vida. Os dois
últimos abrigam atos e valores voltados para a preservação
da espécie, o sexo (perpetuação da espécie) e o
paternal/maternal (amor, carinho, amizade, solidariedade).
Valho-me do segundo, o nutritivo, para compor a equação
que cai bem na política: BO+BA+CO+CA = BOlso cheio,
BArriga satisfeita, COração agradecido e CAbeça
mandando votar no protagonista que proporcionou a
geladeira cheia.
O teste das urnas passa pelo vestibular da equação
acima. Quem for reconhecido como esse candidato terá
chance de chegar ao pódio da vitória. Os altos figurões da
administração - Jair Bolsonaro, Paulo Guedes, o
governador do Estado e o prefeito - estão na linha de frente
conduzindo a locomotiva. Isso vale para hoje e para 2022.

Se a locomotiva for daquelas antigas, uma Maria Fumaça,
pode faltar lenha no meio da jornada. Parada nos trilhos,
sem fumaça e sem esperança de chegar ao destino, os
passageiros só terão uma alternativa: virar as costas a
candidatos sem lenha e andar a pé até a próxima estação.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político