Sábado, 05 Setembro 2020 13:06

A GUERRA DE NARRATIVAS

Escrito por GAUDÊNCIO TORQUATO

A liberdade é o oxigênio da democracia. Sem ela, as
Nações são jogadas nos braços das ditaduras e da opressão.
Mas os cidadãos desconfiam quando o conceito é usado de
má fé ou com o propósito de mascarar posicionamentos.
Veja-se o que o governo tem dito sobre a vacina contra o
Covid 19, cujo processo de finalização mobiliza equipes
científicas e laboratórios em muitos países, e a previsível
adesão em massa dos brasileiros.

Porta-vozes salientam que ela não será obrigatória
porque no Brasil não há um tirano e a liberdade é valor
central de nossa democracia. A observação seria pertinente
caso não fosse embalada por um viés anticientífico, desses,
por exemplo, usados por adeptos de certas religiões, que
não permitem crianças com leucemia aguda ou mesmo
pessoas idosas, com pneumonia grave, tomarem transfusão
de sangue. Orientam seus filiados a não adotar
procedimentos da ciência.
Por que a publicidade exagerada que o governo está
dando a esse fato, quando se sabe que mais de 90% da
população brasileira garantem que tomarão a vacina?
Lembremos que, mesmo antes da pandemia, já tomava
corpo no país um movimento antivacina, que tem
propiciado a volta de epidemias de doenças já erradicadas,
como febre amarela e sarampo, fenômeno que também
ocorre nos Estados Unidos. Propaga-se um falso temor de
que vacina pode provocar a doença em vez de curar. Por
aqui, viceja nas hostes governamentais uma corrente

anticiência, de índole fortemente conservadora que, como
num cabo de guerra, tenta puxar o território ao passado.
É exatamente na direção oposta aos avanços da
medicina e da biotecnologia que grupos incrustrados na
malha governamental constroem sua narrativa, como se
observa na categórica afirmação de que a cura da pandemia
é coisa simples, bastando a automedicação de cloroquina.
O fato é que o Brasil vive o auge de uma guerra de
narrativas. Do campo da ciência, os jogos contrários
resvalam para os comportamentos, para a economia e para
a política.
Na arena das decisões que competem aos governantes
de Estados e municípios, estão narrativas conflitantes, entre
elas, a que prega a retomada urgente das atividades
negociais e a que teme o repique da doença por conta das
aglomerações. (A Espanha registra, esta semana, a
retomada do fluxo de contaminação pelo Covid-19). Um
grupo defende a reabertura das escolas e outro sugere
cautela na volta das aulas. Autoridades da Educação
opinam sobre a matéria e o que se ouve mais parece um

falatório na Torre de Babel. Por que não se chega a um
consenso? Onde se escondeu o bom senso?
Na área da economia, as narrativas conflituosas nascem
no próprio seio do governo. Uma defende o programa
Renda Brasil, a consolidação das ações de proteção social,
mas o desacordo é oceânico entre a equipe econômica e
outros times ministeriais, que combatem o teto de gastos,
meta-síntese do ministro Paulo Guedes. O orçamento
irrealista, segundo economistas, ameaça romper o teto, mas
o governo se empenha para usar R$ 1,2 bilhão fora dele.
O presidente, embalado no apoio popular que passa a ter
no Nordeste, depois do pior desempenho em 2018, queria
continuar com um auxílio emergencial de R$ 600 até o fim
de ano. Chegou-se ao meio termo de R$ 300. Mas se a
economia não pegar no tranco em 2021, como as margens
protegidas reagirão a eventual diminuição de seus
recursos?
A reforma administrativa, que o governo encaminha ao
Parlamento, abrangerá apenas os futuros servidores sob a
cama da estabilidade ou pegará todo mundo? A reforma

propõe corte de vantagens, como concessão de licença-
prêmio e gratificação por tempo de serviço, facilita

demissões durante o período de experiência, reduz o salário
inicial, entre outros aspectos.
Grupos se engalfinham e a área política, com um olho
nas eleições deste ano e na de 2022, tende a aprovar uma
reforma mais suave, que menos danos traga ao servidor
público. A base governista começa a ser composta na
Câmara com a adesão do PP e outras agremiações, mas
persiste a dúvida sobre a lealdade parlamentar.
No campo do ambientalismo, as narrativas entram em
luta aberta. De um lado, o ministro Ricardo Salles e
apoiadores que acendem o fogo na floresta amazônica, na
outra ponta, a comunidade salvacionista, sob o eco de
governos estrangeiros, luta pela preservação da região,
enquanto no meio, o vice-presidente general Hamilton
Mourão tenta equilibrar o jogo.
A guerra no território da expressão deixa atônitos seus
próprios protagonistas. Por falta de uma orientação segura
sobre os rumos a seguir, batem boca pela imprensa ou em

lives, a nova mania nacional. Resta dizer que o próprio
mandatário-mor tem sido responsável por parcela dos
litígios.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político