Quarta, 11 Novembro 2020 11:48

Porandubas Políticas - Porandubas nº 691

Escrito por Gaudêncio Torquato

Abro a coluna com uma historinha do Ceará

Meu povo e minha pova

Em tempos de campanha eleitoral chegando ao fim, cai bem essa historinha. Parece absurda, mas é verdadeira. Deixamos de dar os nomes para evitar constrangimentos às famílias. Um ex-prefeito de Aracati, cidade litorânea do Ceará, em comício animado, gritou no palanque:

"Meu povo e minha pova. Vou ser reeleito prefeito de Aracati com minha fé e as fezes de vocês".

Flagrantes da paisagem

  1. O freio de arrumação

A vitória do democrata Joe Biden nos EUA funcionará como um freio de arrumação no sistema político internacional. De um lado, reforça as democracias, realinha as parcerias entre países amigos e parceiros, principalmente na Europa, e arrefece o ímpeto autoritário de governantes com propensão a radicalizar. Fará um bem enorme à política internacional. O empresariado também comemora o feito.

  1. Não há bicho-papão

Em alguns países, incluindo o Brasil, a mensagem é: não há bicho-papão na política, cara dura e recados enviesados, como Trump fazia e faz, não provocarão tanto medo. Pois o povo, na hora certa, corrigirá as distorções no sistema político-partidário. O que sobrará do trumpismo?

  1. Supremacia branca

O trumpismo não será extinto. Pois grupos fortes, de engajamento no nacionalismo exacerbado, contingentes ultra-conservadores tenderão a permanecer na vida política, tendo como símbolos a cara zangada e o topete agressivo de Donald Trump. Este, por sua vez, tem dois caminhos: continuar na política ou voltar a ser o magnata dos resorts e campos do divertimento. Escolhe a política. E faz da judicialização dos resultados eleitorais uma fogueira para chamar a atenção e mobilizar seus simpatizantes. Como pano de fundo, a supremacia dos brancos norte-americanos.

  1. Deselegância

Para liderar essa empreitada, o presidente raivoso comete atos deselegantes, como a falta de reconhecimento aos resultados eleitorais, a proibição de acesso de dados e informações à equipe que se instalará na Casa Branca, o gesto tresloucado de jogar tênis no meio do pandemônio que tenta provocar, um gesto calculado para dizer que está tranquilo e que ganhou as eleições.

  1. Na marra

Imaginem, agora, o que poderá ocorrer se os prazos constitucionais não forem cumpridos. Dia 12 de dezembro, deverá ocorrer a escolha do presidente pelos delegados. Poderá a justiça postergar essa escolha e atrasar todo o cronograma, que garante a posse do novo mandatário em 20 de janeiro de 2021? Difícil. A Corte Americana não se submeterá ao ridículo. Recontagens deverão ser feitas em alguns Estados, mas não se espere resultados tão diferentes do que se sabe. E se o azedume de Trump o mantiver sentado na cadeira do Salão Oval? Será escoltado para fora da Casa Branca na marra. Mas esse espetáculo está fora de qualquer previsão de bom senso.

  1. No Brasil

O Centrão, mais que as oposições, está vibrando com a vitória de Biden. Porque ganha força ao pensar: ora, o Trump daqui vai precisar mais de nós para aguentar o tranco dos contrários ao bolsonarismo. Afinal, a força de Bolsonaro poderá, mais adiante, escapar pelo ralo da política. Por isso, o Centrão deve ganhar mais musculatura, com fatias mais gordas de poder.

  1. Realinhamento

Por outro lado, o país estará ameaçado de imenso isolamento internacional, caso não faça um forte realinhamento de suas posições. As relações exteriores, sob a batuta desse senhor barbudo, o Ernesto Araújo, terão de reaver muita coisa do que o chanceler (??) chancelou. O conceito de Bolsonaro vaza como água na peneira. Estiola-se a cada dia. Vejamos o que vai ocorrer domingo, 15 de novembro.

  1. Rejeição

Anotem: a taxa de rejeição ao cabo eleitoral Bolsonaro é uma das maiores dos últimos pleitos municipais: em torno de 48%. O bolsonarismo como bússola da política não se sairá bem das urnas. Aliás, nem o PT. Até poderá se fortalecer mais adiante sob o impulso de uma economia revigorada. Mas quem acredita nisso, se a tendência em um país polarizado politicamente é a de se abrir o cofre e aumentar a gastança com o cobertor social?

  1. Mosca azul

A essa altura, tem muita gente na corte de Sua Excelência pensando com a possibilidade de dar um salto tríplice coroado em 2022, ganhando a condição de candidato a governador ou a senador. Há ministro com a mosca azul pousada no meio da testa. Alguns são tão explícitos nessa estratégia que provocam até queixas do presidente. "Fulano só pensa naquilo". O problema é saber se será uma aposta boa contar com a força presidencial em 2022. A água torrencial sob a ponte ofusca qualquer visão.

  1. Vacina eleitoral

Não podemos esquecer que a pandemia não será banida tão cedo. Vai entrar pelos próximos meses. O problema é a politização da vacina. Apesar de se saber que a Anvisa é um órgão sério, com técnicos e consultores de alto gabarito, não se descarta a pressão política sobre ela. A agência suspendeu, segunda, a continuidade dos testes com a Coronavac, a vacina chinesa, com a qual o também sério Instituto Butantã tem parceria. Alegação para a interrupção: "evento adverso grave". O que fez Bolsonaro dizer com a maior tranqüilidade: "ganhei do Doria". A vacina tem lado?

  1. Sinuca de bico

Ora, esse evento, segundo se noticiou, não tem relação com o teste da vacina. A Agência chinesa explicou o que ocorreu. Mas por aqui, com essa proibição, a Anvisa abre uma torneira de suspeitas. Por quê não fez isso antes, logo após o evento ter ocorrido? E que falta de habilidade e bom senso por parte de Bolsonaro ao levar esta proibição para a arena eleitoral. Ou seja, o governo de São Paulo vai receber dia 20 os primeiros seis milhões de doses da Coronavc. O presidente certamente ficará incomodado com a chegada antes do governador João Doria ao pódio da vacina. Esse é o Brasil. A Anvisa está numa sinuca de bico.

  1. Moro na liça?

Sérgio Moro abre o leque de articulação com vistas ao horizonte de 2022. Luciano Huck e o ex-juiz já conversaram sobre o futuro. Tenho dúvidas sobre a passagem tranquila de Moro sobre o Rubicão de 2022. Meu feeling é de que faltará oxigênio nas veias do paranaense para enfrentar a corrida. A propósito, leiam o que Rodrigo Maia acaba de dizer: "chance zero" de apoiar Moro em 2022. O DEM se sairá bem do processo eleitoral.

  1. Eleições

Celso Russomano, com meus respeitos aos paraguaios, é um cavalo paraguaio: bom de saída, ruim de chegada. Está definhando. Será difícil alguém ganhar de Bruno Covas no segundo turno. A eleição não tem empolgado. Abstenção, nulos e brancos subirão ao pico.

  1. Alegria sufocada

Minha percepção é a de que o humor do brasileiro chega a uma taxa muito baixa. O Produto Nacional Bruto da Felicidade - PNBF - está no fundo do poço. A ansiedade sobe. Haja rivotril.

Fecho a Coluna com pequenas lições

Buda

Existem três classes de pessoas que são infelizes: a que não sabe e não pergunta, a que sabe e não ensina e a que ensina e não faz.

O conflito não é entre o bem e o mal, mas entre o conhecimento e a ignorância.

Persistir na raiva é como apanhar um pedaço de carvão quente com a intenção de o atirar em alguém.

Confúcio

"Aquele que busca garantir o bem-estar dos outros já garantiu o seu próprio bem-estar".

"Exija muito de si mesmo e espere pouco dos outros. Isto vai lhe poupar muitos desgostos".

"A natureza faz com que os homens se pareçam uns com os outros e que vivam juntos; a educação nos torna diferentes e nos afasta".

"A natureza humana é boa, e a maldade é essencialmente antinatural".

Santo Agostinho

O perdão

"Confesso que tudo me foi perdoado: o mal que de livre vontade cometi e o que não pratiquei graças à vossa ajuda. Que homem há que, refletindo na sua enfermidade, ouse atribuir às próprias forças a sua castidade e inocência para vos amar menos, como se lhe fosse pouco necessária a misericórdia com que perdoastes os pecados aos que voltam para vós?"

João XXIII

"A medida que avanço, mais dou conta do que me falta."

"Devo estar convencido de que meu próximo é sempre melhor do que eu, e por isso, digno do maior respeito."

"A bondade atenta, paciente e generosa chega muito mais longe e mais rapidamente do que o rigor e o chicote."

"A justiça se defende com a razão, e não com as armas. Não se perde nada com a paz, e pode se perder tudo com a guerra."

 

Gaudêncio Torquato, jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.