Sábado, 14 Dezembro 2019 14:06

POLÍTICA É MISSÃO, NÃO PROFISSÃO

Escrito por Gaudêncio Torquato

A política não é um fim em si mesmo. Trata-se de um
sistema-meio para administrar as necessidades do povo.
Sendo assim, é uma missão, não uma profissão.
Aristóteles ensina que o cidadão deve servir à polis,
visando ao bem comum. Ao se afastar dessa meta, dá
lugar à corrupção. Que acontece quando “quem governa
se desvia do objetivo de atingir o bem comum, e passa a
governar de acordo com seus interesses”, diz o filósofo.
Por conseguinte, a política não deve ser escada para
promover pessoas nem meio para facilitar negócios.

Como sistema, desenvolve a capacidade de responder
aspirações, transformar expectativas em programas,
coordenar comportamentos coletivos e recrutar para a
vida pública quem deseja cumprir uma missão social.
Esse acervo é utópico? Pode ser, mas deve servir de
inspiração aos políticos. Infelizmente, em nossa cultura, a
política tem sido tratada por muitos como um bom
negócio. Tradição que vem lá de trás. Quando d. João III,
entre 1534 e 1536, criou e doou aos donatários 14
capitanias hereditárias, plantava a semente do
patrimonialismo, a imbricação do público com o privado.
Os donatários recebiam a posse da terra, podiam
transferi-la para os filhos, mas não vendê-la.
Consideravam a capitania como uma possessão, sua
propriedade. A res publica virou coisa privada.
Hoje, parcela dos nossos representantes considera
espaços públicos ocupados por seus indicados como
feudos, extensões de suas posses. É assim que a política
se transforma em um dos maiores e melhores negócios da

Federação. O caminho é este: primeiro, conquista-se o
mandato; a seguir, a política transforma-se em
instrumento de intermediação. Temos um amplo mercado
em um território com 27 Estados (com o DF), com nichos,
estruturas, cargos e posições em três esferas: federal,
estadual e municipal.
O negócio da política mexe com cerca de 150 milhões
de consumidores, que formam o contingente eleitoral.
Para chegar até eles, um candidato gasta uns bons
trocados (o custo médio está hoje em torno de 12 a 15
reais por eleitor), a depender do cargo disputado:
vereador, prefeito, deputado estadual, deputado federal,
governador, senador e presidente da República.
Para tanto, candidatos ricos bancam suas campanhas.
A maior parte recebe recursos do fundo partidário ou
doações. Para 2020, o fundo partidário deve ser em torno
de R$ 2,5 bilhões, sendo que o PSL e o PT, os dois
maiores partidos na Câmara, receberão as maiores fatias.
O que se sabe é que numa campanha despende-se entre

três a quatro vezes mais recursos do que a quantia
apresentada aos Tribunais eleitorais. São poucos os que
conseguem chegar ao Parlamento com somas pequenas.
Desse panorama, surge a pergunta: se a campanha
política no Brasil é tão dispendiosa e se os candidatos
gastam acima do que ganham, por que se empenham tanto
em assumir a espinhosa e sacrificada missão de servir ao
povo? Será que há muito desvio entre o espírito cívico de
servir e o sentido prático de se servir?
É arriscado inferir sobre ações e comportamentos do
nosso corpo político, até porque parcela do Congresso tem
atuado de maneira nobre na defesa de seus representados.
Sofre, injustamente, críticas por conta da corrupção
cometida por alguns.
E onde brota a semente da corrupção? Vejamos. Nas
cercanias da política há um costume conhecido como
superfaturamento. Obras públicas, nas três malhas da
administração (federal, estadual e municipal), geralmente
acabam recebendo um “plus”, um dinheiro a mais.

Parcelas dos recursos servem aos achacadores e vão para
os cofres das campanhas, formando o círculo vicioso
responsável pelo lamaçal. Hoje, esse lamaçal está sendo
devassado pela Operação Lava Jato. Mas há sempre uma
fresta por onde se desvia dinheiro. E isso ocorre porque
nos postos chaves estão pessoas de confiança de políticos
que as indicaram.
Portanto, há um PIB informal formado por recursos
extraídos das malhas da administração nas três instâncias
federativas. Sanguessugas predadoras escondem-se em
parcela do corpo político para sugar as veias do Estado
brasileiro.
Dinheiro e poder são as vigas da vida pública, mas
começam a soçobrar nesse início de ciclo da ética e da
transparência.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular daUSP e consultor político